sábado, 3 de Outubro de 2009

ALI-BABÁ E OS TRÊS ANÕES

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INQUILINO DESTAS PÁGINAS, vizinho de figuras tão interessantes como Madalena Barbosa e Helena Roseta, sem esquecer a vizinhança mais sisuda mas sempre simpática de Luís Morales decidi, este mês, dar a minha contribuiçãozinha anual para o movimento das mulheres, sem que tal represente qualquer encargo para o IF nem para quem quer que seja.

Permitam-me, assim, que esta contribuição vá em estilo de sugestão, a qual de muito bom gosto, e de resultados garantidos, porque em certas coisas, por muito mal pareça confessá-lo, nada sabe melhor do que o travozinho agridoce da vingança, e vingança é o que eu proponho a estas e todas as mulheres que elas possam representar.

Começo, portanto, por vos sugerir que deveis ir ao Cairo.

E, uma vez lá, e antes de vos entregardes à volúpia da descida do Nilo e vos perderdes na luxúria cultural de Luxor e Carnaque, deveis ir a Sahara City, suposto local de perdição, onde vos encontrareis no interior de uma ampla tenda de deserto, à beira das Pirâmides e do sorriso desgastado da Esfinge. Aí, vos asseguro eu, vos sentireis vingadas ao observardes dos mais estranhos espectáculos que é dado ver a um viajante, e muitos há a ler estas páginas, tão longamente elas resistem no interior dos aviões portugueses.

A tenda alberga um conjunto de mesas normais, de quatro e de oito e doze pessoas, ao redor de uma pista onde, sucessivamente, se apresentam voláteis ou pesadas, mas sabidonas, bailarinas orientais, especialistas na dança do ventre, que é a arte suprema de desenhar com o umbigo o sinal do infinito, aquele oitozinho deitado que tanto nos deu que fazer no tempo das sebentas e da Álgebra, e que também dispõe do sortilégio de todos os mistérios orientais, mesmo aqueles oriundos ou residentes do Oriente Próximo ou Médio, parente pobre das profundezas insondáveis dos povos do Extremo ou Longínquo Oriente.

Quer isto dizer que a primeira parte do espectáculo é perfeitamente adequada a ambos os sexos ou, se se preferir, mais recomendável aos machos, quiçá mais propensos aos sonhos ou às fantasias possíveis. Mas cuidado! A vingança chega depois!

Antes da vingança, porém, sucedem-se alguns cançonetistas, de ambos os sexos e de vozes meladas, claramente indicadas para as melopeias intermináveis onde podem fazer sempre o elogio dos presentes, com indicação sonora do nome do louvado, directamente proporcional ao valor da nota que se mete na mão dos cantantes.

E, finalmente, senhoras e senhores, a vingança!

Fellini, se os tivesse visto, já os teria utilizado num dos seus filmes, tão feios e deformados eles são. E são quatro, os homens. São quatro, mas três deles são anões, e tão pequenos, musculosos e desgrenhados, que logo fazem rir quem mesmo não concorde com a troça da desgraça alheia.

Os homens apresentam-se de fatos flamejantes, brilhantes, de cetim, de cores tão garridas que não podem deixar de ser considerados como artistas de circo, e tal o seu número mete forças combinadas que não restam dúvidas, com o homem normal a servir de base, suportando o peso dos anões e manejando-os com tanta perícia que não resta mais do que aplaudir e rir do que há para rir, pois é para isso que servem algumas palhaçadas que rapidamente desenvolvem, submersos pelo gáudio do excelentíssimo público.

Cabe, agora e aqui, falar-se do respeitável público, pois se não nos inteirarmos exactamente de quem rodeia aquela pista, bebendo álcool, rindo e batendo palmas, num país e com origem islâmica, não compreendemos bem todo o alcance da vingança. Maioritariamente, o público de Sahara City é composto por mulheres provenientes da Jordânia, algumas outras vindas dos Emirados e muitas egípcias, acompanhando-se entre si, quer dizer, sem homens, antes aproveitando a ausência destes nas suas mesas para lançarem algumas sugestões ópticas profundas a alguns homens desacompanhados e desprevenidos. Também muitos casamentos vão ali iniciar a noite, com os padrinhos ou pais de um dos nubentes a convidarem para aquele insólito copo-d’água e, ainda mais insólito, a levarem a estranha horda de meninos e meninas de soquetes brancos e sapatinhos de verniz que parece serem lugar-comum de casamento, seja por que religião for que os noivos cheguem ao altar.

E, senhoras, e senhores, finalmente, a vingança!

Começa esta quando dá a maluqueira ao homem que serve de base aos anões e nós começamos, de cabeça levantada, a seguir os pequenos corpos arremessados com força e a ficarem, quando o conseguem, a baterem com os costados pela lona das paredes da tenda, ou a aterrarem em mesas vazias, ou a caírem nas carpetas que cobrem o solo, os anões transformados em disformes bolas de ténis, as bocas fortemente pintadas das mulheres de olhos escuros a crescerem, escancaradas, pelo riso que agita as sedas que cobrem os seus peitos fortes e os anões a voarem, lá vai um, «crash», e toda agente a rir, e os homenzinhos, que são gregos, dir-me-iam, a saltarem como bolas e, de súbito, as luzes a apagarem-se, a música a mudar para o suave, a deixar o rufo dos tambores enfrenesiados que acompanhavam os disparos dos pequenos corpos, e, de novo, a lascívia nas notas musicais, as luzes ainda desligadas, um foco, sobre o palco, o estrado onde um dos anões desencadeia o mais tragicómico número de strip-tease que é dado ver-se.

Ao ritmo da música, agitando as nádegas e os ombros, o anão, sozinho sob o frio da luz do foco, vai-se despindo, atirando fora o seu coletezinho minúsculo, cor de laranja, vai desapertando os folhos da sua camisa azul-eléctrico, vai mostrando o peito, vai tirando peça a peça até ficar com um minúsculo slip onde as excitadas damas metem notas, rindo e tapando as bocas enormes com as mãozinhas sapudas cobertas de anéis, excitantes, exigentes, a quererem tudo ver, cada vez mais notas e estas cada vez maiores no slipzinho, e o anãozinho a fazer-se rogado, sem o apoio de Ali-Babá e dos outros dois anões, discretamente no escuro, até que uma mulheraça de Alexandria, que domina uma mesa de mais três mulheres, não permite mais brincadeiras e zás, com notas a esvoaçarem, fica com o slip do anão nas mãos e este cobre o que deve cobrir com as mãos, e as mulheres gritam histéricas e os homens sorriem desgostados, penso que, em primeiro lugar, porque aquele não é propriamente um lisonjeiro exemplar da espécie, depois porque as mulheres são demasiado violentas nas suas exigências.

Enfim, se as minhas vizinhas ou condóminas nestas páginas se querem sentir vingadas por séculos de mulheres-objectos, vão a Sahara City Ficam, certamente, satisfeitas.

Eu, pelo menos, fiquei envergonhado. É que concordo que as mulheres possam ter direito a strip-tease masculino.

Agora anões, senhoras, no mínimo, é de mau gosto...
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Lisboa, 1987

sexta-feira, 24 de Abril de 2009

LUCUBRAÇÕES À VOLTA DO CÃO DA VIZINHA QUE DEBAIXO DA CAMA O TINHA

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TENHO UMA VIZINHA que tem um cão, mas ignoro se debaixo da cama o tem, como a velha que tinha um gato e debaixo da cama o tinha.
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A minha vizinha vive só, com o maldito cão, o que abona o animal porque a vizinha é interessante, humilha os homens porque parecem andar distraídos, e justifica que a vizinha diga que quanto mais conhece os homens mais gosta dos animais.
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Tudo isto vem a propósito de a minha vizinha ter um cão.
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O facto não teria outro significado se o cão da minha vizinha não desse cabo da paciência de quem passe o dia em casa, na vizinhança, o que me acontece com frequência, porque, na ausência da dona, o cão ladra e uiva incessantemente, o que ocorre todo o santo dia porque a referida pequena sai de manhã e volta à noite.
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Ontem pensei em cozinhar um pastel de estricnina e atirá-lo para o terraço onde o cão fica confinado quando a minha vizinha se ausenta, para voltar às tantas com aquele arzinho de quem quanto mais conhece os homens mais gosta dos animais.
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Não pretendo de modo algum que esta seja a crónica de uma morte anunciada. Se porventura eu não resistir e vier mesmo a envenenar o cão, ou alguém acabar por o fazer, não tirarei glória nem provento de antecipadamente ter falado no fim do cão. Para que não seja uma crónica com esse objectivo, e muito menos possa parecer um álibi antecipado, não posso perder este ensejo sem produzir algumas lucubrações breves sobre a natureza animal.
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Começarei pela minha própria, a fim de atenuar a má impressão certamente causada por esta confissão pública de predisposição assassina. Um bolo de estricnina rapidamente deglutido pelo animal deveria levá-lo à morte em aproximadamente dezassete minutos, isto calculando a porção do veneno em proporção ao peso do bicho, segundo alguns estudos médico-legais. Ao fim de algumas convulsões, e de um certo padecimento, o animal libertar-se-ia de vez deste sofrimento diário de solidão e saudade com que a dona o penitencia, eu libertar-me-ia do sofrimento que os seus latidos exasperantes me provocam, o que para nós dois seria de grande alívio, além de eu estar convencido de a digníssima vizinhança hipocritamente aplaudir, em silêncio, aquilo que descreveria como triste desaparecimento do simpático animal.
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Tendo eu em vista que um assassínio, não interessa a vítima nem importa a forma que envolva, será sempre o acto de apressar um processo natural, o qual nos cães é, de resto, muito breve, poderia este argumento ser tomado em consideração para aliviar as penas que me quisessem imputar por tão nefando acto.
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Mas continuando a imaginar coisas do comportamento animal, creio eu que a dona do cão, minha vizinha, graças ao meu tresloucado acto, como seria, descrito pelas gazetas, poderia libertar-se desta fixação em que vive, e descobrir, ela própria, que, independentemente das delícias que um canídeo inconscientemente possa provocar, um homem é um homem e um cão é um bicho. Se apesar de tudo ela não quisesse reconciliar-se com um parceiro da sua espécie, podia sempre comprar um canário ou um periquito, os quais, ainda que incapazes de aquecer a cama seja de quem for, garantiriam uma transição tranquila e sem danos à sua proprietária e digníssima vizinhança, na qual me incluo. Tenho, por outro lado, bem presente que o cão é o melhor amigo do homem. Ensinaram-me isso à força, na terceira classe, e toda a minha vida levei isso em consideração. Mas a verdade é que o cão, sendo um animal doce e inteligente, não tem personalidade. Batem-lhe, e ele lambe as mãos de quem o pune. Castigam-no, e ele submete-se. Prendem-no, e ele dá ao rabo. Permitem-lhe ousadias de aquecer camas e ele uiva, ladra, late e fica assim ululante todo o santo dia.
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Como já disse, não sei se esta minha vizinha tem à noite o cão debaixo da cama, como a velha que tinha um gato e debaixo da cama o tinha. Mas o gato, nunca podendo vir a ser o melhor amigo do homem, é um felino com personalidade que merece respeito.
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O problema que se me põe, com a concretização deste premeditado canicídio, é o da gratidão do cão. Porque é bem possível que se eu vier a envenenar este adorável bichinho da minha vizinha ele me fique tão grato que, quando eu próprio der a minha alma ao Criador, a alminha ululante do cão da minha vizinha me persiga nos meus passeios tranquilos e entediados pelo Céu. Será, sem dúvida, uma acusação terrível porque, nesse caso, terei de explicar a todas as boas almas que ganharam aqueles reinos que aquele tinha sido um cãozinho duma vizinha que talvez debaixo da cama o tinha, até que eu lhe ofereci um pastelinho, por mim próprio cozinhado, à base de estricnina.
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Estão a ver que esta história, mesmo com a gratidão do cão, e todos os diminutivos que eu possa vir a arranjar, não é uma história que se possa contar no Céu. De certeza que lá ninguém vai gostar.
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Estão a ver o que pode fazer à cabeça dum pacato cidadão o cão duma vizinha?
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Mais tarde, darei notícias se acabei, ou não, por decidir envenenar o cão da minha vizinha, que, se calhar, debaixo da cama o tinha. Para já, o que vos posso garantir é que prefiro o gato que era da velha e que debaixo da cama o tinha.
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Lisboa, 1987

sábado, 21 de Fevereiro de 2009

O ANO DOS PATOS E DAS ANDORINHAS

COMEÇÁMOS NOVA VOLTA do carrossel. É esta a sensação estranha que actualmente me dá a passagem dos anos, entendendo por isto o acabar um ano e começar outro período igual.
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Toca a buzina, o carrossel abranda, há quem salte porque não pode mais, há quem se firme no tigre, se apoie no leão, se pendure na girafa e, «hop-lá», mais uma volta, vai andar, vai andar, com o vento na cara, agarrados à garupa da vida, a ver quem aguenta maior número de voltas, uns tirando prazer da viagem, outros limitando-se a não dar parte de fracos.
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Vivemos todos este rápido e angustiante período de transição. Agitamo-nos todos apertados neste parêntesis da História. Vimos do certo, do garantido, do seguro, da Feira Popular com os seus túneis do amor, barracas dos espelhos, castelos fantasmas, montanhas-russas, tudo destinado à ilusão provocada pelo sobressalto desejado para quebrar o ripanço garantido e animar a segurança da vida.
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Estamos agora na naúsea da vertigem da volta cada vez mais rápida, movemo-nos no círculo que nos atira para o vazio do desconhecido, penduramo-nos de cavalinhos de pau que riem, de zebras de pijama às riscas, de tigres a saltar em frente.
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Empurramo-nos, frenéticos, no grande parêntesis da História. Parêntesis entre o certo e estabelecido e o incerto, espécie de incógnita do poço da morte, em voltas cada vez mais rápidas, no carrossel da vida.
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Dantes, os anos pareciam ter muito mais coisas. Tinham Primavera, Verão, Outono e Inverno; tinham armários para guardar as roupas certas, tinham Verões de São Martinho adequados aos magustos e havia épocas para tudo - para começar as aulas, para forrar os livros, para ir aos ninhos, para tomar banhos de mar, para ir para o pinhal, para comer gelados ou comer castanhas, para carregar cartuchos calibre doze, para rachar lenha para o fogão.
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Havia também os momentos próprios para o sarampo, para o sarampelho, para a escarlatina ou para a difteria; assim coHoje, não há mais certeza de coisa nenhuma. Não há horas, nem vidas nem dias certos para o que quer que seja. Rodopiamos sem querer pensar onde nos leva esta viagem circular. Os anos entram à razão de montras de centro comercial e saem à mesma velocidade e sem cerimónia, connosco a vermos todas as feiras populares e luna-parques, cosmética de miséria humana, polvilhada de stands de «ó simpático, um tirinho».mo existiam dias indicados para colar nas costas o adesivo da tuberculina.
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Hoje, não há mais certeza de coisa nenhuma. Não há horas, nem vidas nem dias certos para o que quer que seja. Rodopiamos sem querer pensar onde nos leva esta viagem circular. Os anos entram à razão de montras de centro comercial e saem à mesma velocidade e sem cerimónia, connosco a vermos todas as feiras populares e luna-parques, cosmética de miséria humana, polvilhada de stands de «ó simpático, um tirinho».
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Desejar bom ano para todos os meus semelhantes é cair em lugar-comum de emissão televisiva endomingada e, sem desistir deste voto, não quero incorrer em falha tão grosseira. Assim, o melhor que posso fazer, sem alterar o nosso calendário, nem mudar do gregoriano para o chinês, é desejar que este ano todos dêem pela chegada das andorinhas, que notem a passagem dos patos com os seus gigantescos V V de vitória. Já repararam há quanto tempo a gente não dá por isso? Que este ano dos patos e das andorinhas seja um bom ano para todos os que continuam a resistir e recusam tornar-se aves de arribação em que alguns passarões nos querem transformar.
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Lisboa, 1987

quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

ABAIXO-ASSINADO

NO MOLHO DE CARTAS que me puseram sobre a mesa destacava-se, naquele dia, um longilíneo sobrescrito de correio aéreo ao qual já haviam roubado, à tesoura, a fatia dos selos. Olhei-o guloso, mas decidido a deixá-lo para o fim, seguindo a velha teoria que privilegia «más notícias, primeiro», e que desde sempre me compele a ler, antes do mais, contas, contrafés e cartas tarjadas de luto carregado.

Uma, após outra, aquelas cartas constituíam uma correspondência sensaborona, recheada de impressos de concursos, de cursos por correspondência, de extractos de contas e de apólices de seguro, mais um cartão pessoal de alguém que agradecia um favor. Finalmente, restava a misteriosa carta, que não abri antes de acender um cigarro, ir espreitar à janela a chuva miudinha de Janeiro sombrio e ver os pinheirinhos abandonados junto dos caixotes de lixo, desde o Dia de Reis, despidos já das suas funções nobres e ilusórias de árvores de Natal.

Abri então o que restava do envelope e li as várias folhas, a última das quais preenchida por assinaturas, na sua maior parte ilegíveis. Tratava-se, sem dúvida, de um abaixo-assinado, e era-me endereçado duma capital latino-americana, em reacção à crónica anterior, aqui publicada, «Natal do Pai Natal».

Tinha à minha frente, sobre a mesa de trabalho, um abaixo-assinado de Pais Natais.

Em termos muito corteses, numa escrita muito polida, a carta continha, todavia, algumas elegantes blagues que não pude deixar de compreender, como aquela de me elogiarem «por ser, certamente, a última pessoa que nos dois hemisférios ainda escreve sobre Pais Natais, para além, evidentemente, das crianças a quem nas escolas pedem composições, ou redacções sobre tão antigo tema». Mas a par da crítica velada e ágil, ali estava, impressa, a reivindicação que penso, desta forma, estar a satisfazer: falar das horríveis condições de trabalho dos Pais Natais da América Latina. Posso, efectivamente, falar em favor destes personagens, que vi em diferentes Natais e em distintos países daquela latitude, quer de idioma castelhano, quer de língua portuguesa. Deve oferecer as maiores dificuldades ser-se Pai Natal na América Latina. Em primeiro lugar, porque é difícil criar a ilusão no meio dos desiludidos. Depois, porque os brinquedos e artigos para adultos são quase todos importados, o que relaciona o Pai Natal com a inflação e, sobretudo, com a dívida externa, no que temos de convir que é bastante desagradável. Além do mais, é praticamente impossível recriar o ambiente tradicional da quadra natalícia naquelas paragens.

Não é fácil comer-se bacalhau com batatas na noite da consoada antes de se sair para uma pescaria que durará toda a noite. Não se pode desejar um casaco de peles sem se pedir uma viagem paga à Europa, pois o abafo não pode ser usado em Ipanema, ou em Carrasco, ou em Montevideu, ou em Buenos Aires, porque aí o que dá jeito, e é mais conveniente, é a camiseta e o cai-cai.

Reside aqui um dos pontos cruciais nas dificuldades de se andar a encarnar o Pai Natal em paragens tão calorosas e de gentes tão acaloradas. É que, mesmo que seja de alpaca, o fato de Pai Natal é quente para quem dentro dele se tem de meter, afim de governar a vida por aqueles dias; é compreensível que ninguém conceba um Pai Natal de manga curta, ou de calções, assim como não se pode admitir um Pai Natal de cara rapada e de panamá, mas constitui uma verdadeira tortura a barba branca de algodão, mesmo que se chegue ao requinte de usar uma barba de linho, e é bom nem falar da violência do gorro debruado a pele. As reivindicações dos Pais Natais são, portanto, justas, ou antes, têm toda a razão de ser. Não se me afigura, no entanto, fácil dar-lhes satisfação. É, pelo menos, tão difícil como explicar aos meninos das favelas como é a neve, que sensação dá apalpá-la, e como os trenós deslizam sobre a sua superfície.

Quanto às condições de trabalho dos Pais Natais na América Latina, estamos conversados desde que vi três, de gorro e de barbas, com almofadas a darem-lhes a corpulência necessária à credibilidade, correndo como loucos no interior dum minúsculo modelo de marca de automóvel italiano, pelas ruas de Bogotá.

sábado, 13 de Dezembro de 2008

O NATAL DO PAI NATAL

PENSEI QUE NÃO SE FALAVA assim ao Pai Natal, mas o homem repetiu, para que não me restassem dúvidas:
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- Se voltas a sair daqui da porta, apanhas uma palmada!
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O Pai Natal ficou meio amuado, meio medroso, como todos os miúdos a quem se promete pancada. Segurando os três balões de cores diferentes na mão esquerda, agitou violentamente o sino com a mão direita, de modo a se fazer ouvir por cima do barulho daquela rua comercial.
Por debaixo do fato vermelho e do algodão branco das barbas, o Pai Natal não tinha para mais de doze anos e muito menos para apanhar uma palmada. Se em vez de Natal estivéssemos no Carnaval, qualquer pessoa pensaria que se tratava dum miúdo mascarado.

- Ó filho, não vês que é um Pai Natal a fingir? - disse uma mãe a um filho mais incrédulo, mas não tanto que deixasse de acreditar que todos os anos há um senhor com um trenó carregado de prendas puxado por renas, que vem do Norte despejar presentes pelas chaminés.
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A voz tonitruante, ameaçadora, do comerciante lembrava a todos os que passavam que vivíamos o auge da grande saison da paz e do amor.
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- Pago-te para estares aqui à porta não é para andares a passear por aí. Se te apanho outra vez a afastares-te, não te pago e corro-te a pontapés!
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Aquele fato era, nitidamente, maior do que o corpo que o não enchia, o que se poderia atribuir ao planeamento correcto dum comerciante moderno que vestia o seu Pai Natal com roupa suficientemente grande para permitir o seu crescimento.
Não se percebia a razão pela qual o dono da loja não havia escolhido um Pai Natal à medida, mas também isso certamente se poderia ficar a dever a uma análise e estudo aprofundados de custos e benefícios, pois sem dúvida que um Pai Natal mais pequeno deveria sair mais barato e fazia o mesmo efeito.
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- Ó mãe, deixa ver o Pai Natal.
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Nessa altura, o Pai Natal dava ao sino, olhava para o outro lado da rua e afastava-se um pouco. Ao vê-lo assim proceder, era difícil não concluir que o Pai Natal tinha vergonha.
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- Ó mãe, o Pai Natal é um menino como nós? - perguntou uma menina.
- Ó filha, não! Não vês que este é um Pai Natal a brincar?
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Debaixo das barbas, o Pai Natal teve um sobressalto e olhou espantado. A brincar?! Das nove da manhã às sete da noite, de badalo e balões nas mãos, quer chovesse quer fizesse sol, durante uma semana inteirinha, era brincar? O Pai Natal não concordava. Parou de dar ao sino, enquanto a outra mão, vermelha das guitas e do frio, deixava fugir um balão que subiu até se perder de vista por cima dos prédios, arrastado pelo vento.
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- Ó mãe, olha um balão do Pai Natal....
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A pouco e pouco, o Pai Natal estava de novo longe da porta da loja a que pertencia, e junto do cigano que vendia pistolas à cowboy, com um cesto poisado à beira do passeio.
Era um velho cigano, todo vestido de preto, com um grande bigode branco que tinha uma grande mancha amarela de tabaco. Olhou o Pai Natal, riu, e disse numa voz profunda:
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- Queres uma? Eu dou-te. Toma lá uma, para tu brincares.
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Naquela noite, quando os meninos estavam já todos de pijama, depois de tomarem banho antes do jantar, houve quem visse um Pai Natal, com a barba de algodão branco a esvoaçar, presa por um elástico ao pescoço, andar pendurado nos tróleis e nos autocarros, a dar tiros para o ar com uma pistola de fulminantes.
E os meninos, muito penteadinhos, nos seus pijaminhas quentinhos, ficaram muito assustados quando as mamãs lhes disseram:
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- Se não comes a sopa, chamo o cigano e digo ao Pai Natal para não te dar nada.
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Se os meninos conhecessem esta história, tinham rido a bandeiras despregadas e pedido para nunca mais ninguém escrever contos de Natal.

sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

A DESPEDIDA

O homem tinha dito:
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- Seja franco, doutor!
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O médico saiu detrás da secretária, vagarosamente, pôs-lhe uma mão sobre o ombro e quase sussurrou.
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- É cancro.
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- Quanto tempo, doutor? - perguntou o homem sem o olhar, mas com aquele grau de cumplicidade no tom de voz que antecipava que ambos sabiam bem do que estava a falar.

- Um ano, ano e meio, no máximo - respondeu o médico.

Saiu do consultório devagar, numa confusão de ideias e de sentimentos, observando aqueles com quem se ia entrecruzando com uma sensação danada de inveja e, ao mesmo tempo, de raiva. «Porquê eu?!», perguntava, repetida e impessoalmente, sem ter propriamente entidade competente a quem dirigir a questão.
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Caminhou longamente, lentos e penosos quilómetros, interrogando-se sobre se devia ou não partilhar este segredo com mais alguém ou se ele devia ficar circunscrito apenas ao seu mutismo e ao segredo profissional do clínico. Esteve num café, que acabou por abandonar irritado com o ruído das vozes, e, acima de tudo, com os risos e as discussões estúpidas. «Ano e meio», pensava nessa altura, «ou antes, um ano, porque se sobrar alguma coisa faço férias». Na pequena praça onde ficava o seu prédio tomou a decisão - não diria nada a ninguém e ocuparia o tempo que lhe restava a ser aquilo que em criança desejara para quando fosse grande.

A família, ao princípio, não estranhou, nem protestou, quando vendeu a sua quota no escritório. Toda a gente pensou que decidira antecipar a reforma, gozar os rendimentos, cortar com uma vida de trabalhos e relações que lhe assegurara mais do que suficiente para viver medianamente.
A grande surpresa foi quando, algumas semanas mais tarde, anunciou que iniciava, no dia seguinte, a sua actividade de motorista de praça.
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- O teu pai ensandeceu! - comentou sua mulher para o filho do casal.
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Imperturbável, durante meses, correu pelas ruas da cidade, conheceu o que desconhecia mas adivinhava, riu, foi quase feliz e chegou mesmo a fazer uma viagem, com emigrantes, para França, num serviço que lhe apareceu.
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Um dia, sem dizer nada a ninguém, deixou-se ficar em casa.
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- Não vais trabalhar? - perguntou a mulher.

- Despedi-me - anunciou sem mais comentários.
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Durante o resto da semana leu e foi ao cinema, durante as tardes, em casa, sem palavras.
Uma manhã, ficou excitado com a leitura do jornal. Vestiu-se rapidamente e saiu. Não almoçou em casa nesse dia e, à tardinha, quando regressou, entregou seis bilhetes para o circo à mulher e disse:
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- Gostava que amanhã fosses à minha estreia como palhaço. Podes levar quem quiseres.
Nessa noite, mulher, filho e nora reuniram-se em casa destes últimos, preocupados com o que se passava.
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- Depois da vergonha do táxi, isto! - desabafava a mulher.
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- Mas que necessidade tem ele de andar a fazer estas figuras? - perguntava o filho.
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- Nenhuma, enlouqueceu! - comentava a nora.
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Só os netos riram e bateram palmas, contentes, perante o constrangimento geral.
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- Ena, pá! Bestial! O avô é palhaço...
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Enquanto a companhia esteve na cidade trabalhou todas as noites. Segurava, nos intervalos, a escadinha de corda da equilibrista sempre que esta tinha de subir ao arame e, uma vez por outra, foi-se abaixo, entre dois números - uma ocasião por causa das dores, as restantes por a falta de tempo lhe apertar o peito. Ninguém deu por nenhuma dessas crises e, embora sem talento especial, não fazia mal o seu papel de palhaço pobre, dedilhando aceitavelmente uma viola nas partes musicais.
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Por mais de uma vez, depois de o circo partir, teve de ficar de cama, pretextando achaques ligeiros, para se refazer das dores. Quando Dezembro chegou, deu fortes sinais de inquietação e, uma manhã, desembrulhou, no regresso a casa, uma peça de tecido vermelho e um rolo de pelúcia branco e, virando-se para a costureira da família, que todas as quintas-feiras costurava na saleta, ordenou.
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- Vai fazer-me um fato de Pai Natal!
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Morreu, sem se despedir, no dia 26 de Dezembro, ao princípio da tarde. Sobre a cama e a sorrir para o fato de Pai Natal! Deixou inconsolável viúva, um filho engravatado, uma nora estúpida e um par de netos que o adoravam. Deixou, também, uma conta bancária a descoberto.

sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

O CASAMENTO

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- O que se passa é que vocês são todas umas galdérias!
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A senhora, emplumada por uma estola de raposa prateada, abriu a boca esborratada de batôn pela comezaina, fez com ela um círculo perfeito, esbugalhou os olhos e disse:
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-Oh!
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O silêncio ampliou três vezes o redondo daquele «oh!».
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Mas ninguém disse mais nada, e foi no meio de estarrecido silêncio que, pálido e muito digno, de fraque e segurando luvas amarelas de pele de porco, o noivo abalou porta fora.
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Atrás deixou apenas destroços: a noiva, de branco até aos pés mas sem grinalda, soluçava. O pai da noiva desapertava os colchetes do vestido da desmaiada esposa, que amparava. As convidadas agarravam as tresmalhadas crias, lustrosas de veludos e meias de renda e sapatinhos de polimento. Os homens erguiam os ombros em ignorante interrogação, apertando os lábios em sinal de estupefacção.
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O bolo, de diversos pisos, adornava para o lado da faca que ficara cravada, a quatro mãos, pelos nubentes. Só um miúdo, de jaquetinha e calça de fantasia, colarinho branco de goma, sapatinhos de verniz, viu da janela do primeiro andar onde ficava aquele salão de aluguer - banquetes, casamentos, baptizados - o noivo desaparecer, dobrando a esquina, impecável no seu traje, com o braço hirto empunhando o par de luvas amarelas.
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Tudo começara quando o novel casal se preparava para cortar o bolo de casamento, em pose, com o fotógrafo a pedir «um pouco mais para a direita». Embevecidas, as famílias das duas partes contratantes, as convidadas e convidados, observavam, preparados para a salva de palmas, empanturrados de peru, arroz de marisco, rissóis de camarão e leitão frio, impantes de cup e ansiosos pelo espumante que provocasse o necessário flato.
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Nessa pausa breve, destinada a sorrisos benevolentes, ao descanso da orquestra, e à saída das crianças debaixo das mesas, o noivo empurrou a sua consorte, perfilou-se e, dirigindo-se à sua fiel companheira do bem e do mal, da doença e da saúde, até a morte os separar, proclamou, alto e bom som.
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- Você é uma grandessíssima galdéria!
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Entenda-se que não foi esse o nome que utilizou. O que ele disse foi bastante mais ofensivo, ainda que muito mais económico em sílabas - apenas duas - e parco em letras, somente quatro.
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Foi então que a senhora de estola de raposa prateada, com a boca cheia de empada, arregalou os olhos e, talvez com o ouvido prejudicado pela mastigação, perguntou:
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- O quê? Mas o que é que foi?
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E o noivo, muito didáctico e generoso, logo repetiu, englobando na explicação todas as senhoras presentes:
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- Foi que vocês são todas umas galdérias!
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Ninguém contestou. Em simultâneo, a noiva soluçou, perdendo flores de laranjeira, a mãe da noiva despenhou-se com fragor, o pai da noiva rugia.
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- Dou cabo dele! Que vergonha!
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Mas, pelo sim, pelo não, sempre foi perguntando em voz baixa:
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- A Teresinha fez alguma coisa?
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Seguiu-se o pandemónio, iniciou-se a debandada, deixando no meio dos despojos das carcaças de peru e de cabeças de leitão com laranjas na boca as duas famílias destroçadas de um casal que não consumaria a noite de núpcias na data devida.
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Uma semana mais tarde, iniciava-se a romaria: casa a casa, de cada convidado, o pedido formal de desculpas e a explicação devida. Segundo a versão do jovem casal, um grupo de amigos do noivo dera-lhe a beber uma taça de espumante onde diluíra cinza de charuto, o que teria efeito alucinogénio.
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Quanto ao desfecho de todo este caso, muitos anos depois de deixar de usar jaquetinha com calça de fantasia, posso eu testemunhar: os noivos foram muito felizes e tiveram muitos meninos.

sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

O SOBRETUDO

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ERA AMARELO-TORRADO, macio, leve e quente. No seu interior, uma discreta etiqueta garantia «100% caxemira». Caía a direito, depois de ligeiramente cintado, e, só por si, conferia distinção e estatuto a quem o vestisse. Era um belo sobretudo.
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Para além da sua função protectora e calorífica, era um distinto tapa-misérias. Não importava o que se vestisse por baixo, nem que fosse um pijama de flanela às riscas, o sobretudo garantia ao seu dono o aspecto de quem vem dum elegante night-club, o ar de quem parte para uma selecta recepção numa embaixada, o porte de quem carrega sobre os ombros importantes decisões a tomar ou de quem conhece decisivos segredos de Estado.
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Durante meses, namorara aquele sobretudo na montra da elegante alfaiataria que o oferecia ao mercado. Chegara mesmo a entrar, a tocar-lhe e a prová-lo, mirando-se frente ao espelho com pequenas piruetas e pondo uma perna à frente da outra, agora a esquerda, logo a direita.
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Desistira, no entanto, face ao preço.
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- Mas repare Vossa Excelência que é de caxemira pura.
- Eu sei! Só que não tenho dinheiro para o comprar...
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O vendedor guardou então prudente silêncio, de quem não comenta, não confirma nem desmente.
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- Quando Vossa Excelência decidir, cá está à sua disposição.
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Entretanto, o frio apertava. Os jornais falavam de «Inverno rigoroso», de «frente de vento gélido proveniente da Sibéria», de «gente a morrer de frio sob as pontes de Paris», «alemães retidos pela neve nas auto-estradas» e «velhos a tiritarem pela Europa fora».
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Fazia-se ao frio ajeitando ao pescoço a gola da sua leve gabardina. Uma noite, em casa, depois do terceiro espirro consecutivo e de mais um ataque de tosse, a mulher decretou:
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- Tens de comprar um sobretudo!
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Concordava. Mas a comprar, o sobretudo só podia ser um - aquele, o sobretudo.
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Durante o fim-de-semana, enchouriçado em camisolas de lã e uma leve gabardina a tapar misérias, passou pela montra da elegante alfaiataria. Levava a mulher e um dos filhos consigo. Mostrou-lhes o sobretudo, anunciou-lhes o preço, falou-lhes da leveza que já experimentara ao prová-lo, exagerou quanto à onda de calor que sentira, exaltou tanto as qualidades e lamentou tanto o preço que a mulher disse:
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- Homem, compra o sobretudo. Também não é uma coisa que se faça todos os dias, e já viste os anos que um bom sobretudo como este te vai durar?
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Na semana seguinte aprofundaram o tema. Discutiam agora os aspectos orçamentais. Estabeleciam prioridades, coisas que passariam para mais tarde, o carro que se trocaria só no Verão antes das férias de Setembro. Quando se chegou a sábado, estava decidido e tornara-se possível – na segunda-feira, encontrar-se-iam depois do trabalho de cada um e, às seis e meia da tarde, iriam juntos comprar o sobretudo. No seu entusiasmo, ele não resistiu a dizer:
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- A loja fecha às sete, mas meia hora chega perfeitamente. Vais ver. Assenta como uma luva, parece que foi feito por medida para mim!
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A segunda-feira passou-se vagarosamente, as horas pareciam ter mais minutos do que de costume. Saíra de manhã sem gabardina para poder à noite regressar com o sobretudo vestido, por isso fora almoçar transido. Dez minutos antes da hora marcada já estava à porta do estabelecimento. A mulher atrasara-se e isso exasperava-o. Entraram na alfaiataria eram dezoito e quarenta – vinte minutos antes do fecho.
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O sobretudo ficava-lhe, realmente, tão bem como dissera. O vendedor chamava ainda a atenção para outro factor positivo:
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- E assim solto, com este cair, o senhor se quiser ainda pode vestir colete ou pulôver.
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Realmente, uma maravilha. A mulher parecia regressar a casa com outro homem. Em casa, penduraram numa cruzeta, no guarda-fato, o precioso sobretudo. Tudo para não deformar. Ele anunciou:
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- Amanhã levo a gabardina. Estreio o sobretudo na quinta-feira, naquele almoço importante que tu sabes.
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Quinta-feira saiu impante. O sobretudo dava-lhe, efectivamente, o aspecto de um senhor, como logo um colega comentou de manhã, no elevador da companhia onde trabalhava.
Saiu com tempo e chegou ao restaurante antes dos outros participantes no almoço. Esperou no bar, bebendo um porto seco, sem despir o sobretudo. Quando os outros chegaram teve alguma dificuldade em separar-se do sobretudo, que o empregado lhe pedia.
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- Não tem chapinha?
- Não se preocupe, que não é preciso – respondeu o empregado.
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O almoço correu bem. Levantaram-se da mesa a rir e pararam a dizer graças junto ao bengaleiro, um a um vestindo os abafos. Quando chegou a sua vez, olhou assustado para a gabardina azul e sebenta na gola que o empregado lhe estendia.
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- Não é isto! O meu é um sobretudo amarelo-torrado.
- Mas... então?! Não está cá mais nada. O senhor tem a certeza?
- Homem, até lhe perguntei se não tinham chapinhas numeradas.
- Olhe que isto nunca nos sucedeu.
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Saiu no meio da indiferença dos outros. «Deixe lá que fez uma boa acção», gracejava um, «vai ver que aparece», animava outro, «homem, sobretudos há muitos», filosofava um terceiro, e o último sentenciou «a saúde é que é importante. Antes isto do que partir uma perna».
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Despediu-se, desceu pela boca do metropolitano, anónimo e insignificante, de fatinho de meia estação, com as lágrimas nos olhos e a tiritar de frio. Desde esse dia que ninguém o viu usar sobretudo, nem naquela semana em que nevou no Ribatejo, o que não sucedia desde o início do século.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

OS MANOS

OS OSSOS QUASE ROMPIAM a pele do velho. Deitado, sem mover a cabeça, fixava o tecto horas a fio, ou fechava os olhos encovados nas crateras das maçãs do rosto, convertidas em picos alpinos pela excessiva magreza.
Quando o irmão entrou no quarto, o velho, estendido na cama, disse:
- Mano, vou morrer!
Na antecâmara, que servira de quarto de vestir, um montão de velhas cochichava todo o santo dia, sempre lestas a acorrer aos gritos irados do moribundo ou a deixarem-se dormitar agora e depois, num aparente concurso de cabeçadas. Havia instantes em que o silêncio era absoluto.
O velho tinha oitenta e nove anos e parecia ainda mais magro porque lhe tinham tirado a dentadura postiça. O irmão tinha oitenta e quatro anos e ainda caminhava direito por aquela casa onde ambos haviam nascido e brincado, no início do século.
- Mano, vou morrer!
Quem pensa que os velhos querem morrer, a partir de uma certa idade, engana-se. Nem todos. Este, por exemplo, mostrava um evidente receio da morte.
- Mano, vou morrer!
Algumas das velhas espreitavam em cacho, da ombreira da porta, e choramingavam de cada vez que o moribundo lançava o grito anunciador do que ia fazer a seguir, para o outro velho, que fora chamado e se perfilava, muito direito e minúsculo, à cabeceira.
Haviam brincado juntos, tinham-se batido, atravessado juntos muitas outras mortes e alegrias, estado de relações cortadas e agora encontravam-se lado a lado pela última vez.
- Deixa lá – disse o velho que acabara de entrar para acompanhar os últimos instantes do irmão –, todos teremos de morrer. Mas pode ser que estejas enganado e não morras, pode vir aí o doutor Umbelino e curar-te.
- Mano, lembras-te do doutor Umbelino? Sabes que idade tinha quando nos obrigava a tomar o óleo de fígado de bacalhau e tratou a tia Leopoldina da pneumónica?
- O doutor Gonçalves devia ter uns quarenta anos quando nos fazia isso.
- E então como queres que venha aí? Hoje que idade teria? Cento e vinte? Não pode ser! Mano, vou morrer!
- Olha, se morreres agora eu também não demorarei muito. Já vivemos o bastante. Se morreres agora, eu morrerei a seguir. Sabes, quando se morre é como fazer uma grande viagem. Fecham-se os olhos e morre-se. Não vai doer. A gente morre assim sem dar por isso, fechamos os olhos e morremos. Li que quando se morre entra-se numa grande luz, muito forte, e ela leva-nos, devagarinho primeiro, depois com muita velocidade, vamos por aí fora com a luz, a ver coisas muito bonitas...
- Que luz é essa, mano? De que luz falas?
- Da luz que nos leva quando morremos. É como viajar, mas em vez de ser de carro ou de comboio é de luz, e quando começamos a afastar-nos o suficiente da vida entramos noutra luz ainda mais brilhante e mais forte, e a luz fica então com uma velocidade assim como a dos aviões a jacto e leva-nos finalmente para o outro mundo
- Mano, que luz é essa? Sabes quem penso que é essa luz?
- Quem? Diz lá quem?
- A Luz Fernandes!
- A Luz Fernandes? Qual Luz Fernandes?
- Mano, aquela que namorámos os dois e que morava no pátio, ali em cima, e que levantava as saias e não trazia nada por baixo e com quem fazíamos aquelas coisas na escada do Ramos da capelista, lembras-te? Até me zanguei contigo quando descobri que também lá ias... É essa Luz Fernandes, mano?
O irmão, pequenino no seu fato de linho, de corrente de ouro atravessada no ventre inflado, ficou ainda um pouco mais, mas o irmão não reagiu. A coberta subia e baixava com a respiração e as velhas espreitavam agora todas à porta, e o velho, agarrando o chapéu creme e a bengala de bambu, de castão de prata, saiu devagarinho, depois de ter pedido para o avisarem «se acontecesse alguma coisa».
As velhas mandaram-no chamar ao fim da tarde. O irmão morrera sem voltar a abrir os olhos. Mas morrera a falar. Elas não perceberam o quê. Morrera a rir e a falar numa tal Luz Fernandes...

sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

CENAS DA VIDA CONJUGAL

- O que farias bem era deitar-me fora e comprares outro marido em bom estado, amanhã.
- Estás louco, põe-te bom. Vais ficar bom e vamos tentar de novo.
A cabeça parecia estalar ao homem, com dores e pressões internas que não o deixavam quase pensar, sentindo-se unicamente melhor com os olhos fechados e com a cabeça na almofada, o corpo aquecido sob as cobertas da cama.
- Para que sirvo eu, assim?
- Homem, porque estares a mortificar-te e a fazeres-me sofrer a mim?
A ideia ganhara forma na sua cabeça dorida. Apetecia-lhe ficar assim, de olhos fechados, a dor a latejar, as têmporas a estalar, o calor da cama, sozinho, sem ruídos em casa, sem crianças a fazerem barulho, sem o toque do telefone, sem os saltos altos da mulher a matraquearem o soalho envernizado. Queria que o deixassem sofredor, dorido e abandonado.
- Deita-me fora e arranja um gajo em condições, amanhã.
O dia crescia em horas desde que estava doente. As dores não permitiam que dormisse, a vida passava diante dos olhos cerrados e encovados e os dias escoavam-se inúteis, sem vida nem objectivo, sem amor nem esperança.
- Porque não me internas tu?
- Parece que não sabes como estão os hospitais.
Para o bem e para o mal, na saúde e na doença, dissera muitos anos antes o padre. Mas hoje, nada disso fazia sentido. A mulher arranjava-se de manhã, cuidadosamente, e saía para o trabalho, perfumada e atraente, depois de horas sofridas ao lado do seu corpo sem utilidade. E ele ficava a roer-se, de ciúmes e de dúvidas, de interrogações, de vontade de não ser enganado, de nada ter que ver com ela, livres os dois para o que cada um entendesse.
- Não estás melhor?
- Não, não estou melhor.
- Vamos ver o que o médico diz amanhã. É dia de consulta, amanhã.
Mas os dias e as consultas iam passando e não estava melhor. Pelo contrário – cada vez mais lhe apetecia fechar os olhos e deixar correr. «Abandonem-me aqui», pensava «deixem-me aqui a apodrecer, como um grande desgraçado, com a barba a crescer, os olhos a encovarem-se, o sorriso a rarear, os ombros a responderem cada vez mais a todas estas perguntas estúpidas que me fazem e a que não me apetece responder.»
- Amanhã arranjas um gajo em condições e deitas-me fora, tá bem?
- Homem, não me castigues assim... Sabes que te amo, que te quero bom depressa, e que vivamos os dois até ao fim dos nossos dias sempre juntos.
A ofensiva que desencadeara não resultava. A mulher não o deixava, as dores não abrandavam, o ciúme não se desvanecia, os dias arrastavam-se cada vez mais inúteis, mais estéreis, mais sem sentido ou justificação para o que quer que fosse.
- Deita-me para o caixote do lixo, arranja um gajo em condições, para ti!
Era uma insistência estúpida e sem nexo. Era uma contradição para com os desvelos quase maternais que a mulher desenvolvia, diariamente para que pudesse sentir-se melhor. Era um insulto para a mãe dos seus filhos, uma mulher de trabalho que se sacrificava desde as seis e meia da manhã, todos os dias, deixando tudo feito em casa e partindo fresca para o trabalho.
O médico veio no dia seguinte. Respirou fundo, tossiu, arregalou os olhos sob a luzinha da lâmpada, mostrou a língua e estendeu-se de novo na cama. O médico interrogou a mulher e foram os dois para a sala de jantar, passar receitas, discutir sintomas, essas coisas. Ficou deitado a apertar o pijama, os dedos a tremerem nos botões, um formigueiro na nuca, um desejo de se deitar e ficar só, de novo. Tacteou o chão com os pés, em busca dos chinelos, a fim de poder ir à casa de banho. Levantou-se trémulo, segurando-se aos móveis, sem ruído. Quando, no corredor, olhou para a sala de jantar viu a mulher e o médico. Ficaram os três a olharem-se uns para os outros, sem palavras. Acabou por ir à casa de banho e regressou à cama, apagou a luz e ficou quieto, sem mover um músculo. Olhou o tecto sem o ver. Pela primeira vez em muitos meses não sentia dores, nem pressões sobre os olhos nem a nuca a latejar.
O silêncio, na casa abandonada, era completo. Pela primeira vez em meses longos e seguidos se sentiu bem e adormeceu convencido de que ao fim do dia ninguém regressaria àquela casa onde, finalmente, poderia apodrecer em paz.

sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

A ESTÁTUA

A SENHORA SÓ REPAROU que eram homens que se perfilavam pela escadaria quando chegou ao primeiro patamar. Segurando o longo vestido e gozando o frufru da seda, dando o braço ao elegante cavalheiro de casaca e condecorações, estugava o passo miudinho na pressa de encontrar, finalmente, os príncipes, depois de toda a tarde se ter sujeitado aos maus tratos obsequiosos do instituto de beleza.
.
Até ao primeiro patamar convenceu-se que, de um lado e de outro da passadeira, pela escadaria de mármore acima, se alinhavam preciosos jarrões. Foi um leve tilintar de esporas que lhe chamou a atenção – afinal, era pelo meio de homens perfilados, de espada desembainhada, que viera por ali fora, mantendo com o indicador um seio dentro do soutien, acertando a simetria do decote.
.
Nenhum daqueles homens se movera. Dir-se-ia que estavam treinados para assistir àqueles últimos preparativos em trânsito, antes de os convidados desembocarem nos salões iluminados pelos belos candeeiros de cristal.
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Durante horas eles ficaram ali, sem um movimento, perfilados, brilhantes e emplumados, com vida apenas nos olhos e nas esporas, que espaçadamente se tocavam, sem nunca coincidirem com o bater de pestanas.
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Nos salões era a confusão da distinção e do mau gosto, misturados naquela combinação mesclada de classe média e outra assim-assim, com uns quantos aristocratas sobreviventes a darem o efeito das ginjas cristalizadas nas bebidas para menina à percentagem em bar de tenha a bondade.
.
Ver os príncipes – esses reais visitantes que excitavam hormonas e arrepelavam cabelos, desencadeavam crises familiares e animavam as pálidas colunas sociais das Kekas e das Chu-Chas – era a palavra de ordem, longe de escoltas ou de guardas ou mesmo de qualquer decoro. «Ai, ela ao natural é muito mais bonita do que em fotografia», segundo umas e uns, «o pai é muito mais interessante do que ele», segundo outros.
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Cá fora, entretanto, como se diz nas histórias aos quadradinhos, os motoristas jogam às moedas no interior das limusinas, os polícias apanham chuva fininha e, pela escadaria, os guardas que pareciam jarrões continuam com escassos tilintares.
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É, normalmente, à descida, quer dizer à saída, que toda a gente dá por eles – sai-se devagar, em fila longa e paciente, requintadíssima, fatigada, aguardando pelo abafo no bengaleiro ou pelo carro à porta. E nesse momento há ocasião para trocar olhares embaraçosos com os guardas emplumados. Foi nesse instante que aconteceu o que ninguém esperava.
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Num nicho do patamar, branca, leitosa, misteriosamente sorridente, inefável e nua, estava a estátua de uma donzela, esculpida por cinzel florentino dois séculos atrás. As pessoas olhavam-na apreciativamente na descida, comentando as pregas da túnica tombada a seus pés, numa perfeição de forma e volume que, na própria pedra, quase se adivinhava a transparência.
.
Três degraus acima, mas perfeitamente alinhado no campo visual, sem poder olhar para mais nada que não fosse a estátua, o soldado da guarda estava em sentido havia quatro horas, fixo naquele sorriso, naquele corpo.
.
Diria ele, mais tarde, no serviço de psiquiatria do hospital militar, que não tinha dúvidas – a estátua era uma desavergonhada que o provocara todo o tempo do seu quarto. Durante quatro horas nua e a sorrir-lhe ele aguentara, mas quando a estátua lhe piscara o olho não pudera resistir. A estátua podia ser de pedra, mas a sentinela e que não é de pau.
.
Foi em plena cedência que o frufru das sedas o apanhara – abraçado à estátua, capacete de plumas pelo ombro, esporas numa excitação de tlintlins. Os enfermeiros da ambulância levaram-no delicadamente. Toda a gente pôs um ar condoído e disse que não com a cabeça. Não sei porquê.
.
Que a estátua lhe piscou o olho, piscou, porque eu, que vinha atrás, bem vi. que eram homens que se perfilavam pela escadaria quando chegou ao primeiro patamar. Segurando o longo vestido e gozando o frufru da seda, dando o braço ao elegante cavalheiro de casaca e condecorações, estugava o passo miudinho na pressa de encontrar, finalmente, os príncipes, depois de toda a tarde se ter sujeitado aos maus tratos obsequiosos do instituto de beleza.
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Até ao primeiro patamar convenceu-se que, de um lado e de outro da passadeira, pela escadaria de mármore acima, se alinhavam preciosos jarrões. Foi um leve tilintar de esporas que lhe chamou a atenção – afinal, era pelo meio de homens perfilados, de espada desembainhada, que viera por ali fora, mantendo com o indicador um seio dentro do soutien, acertando a simetria do decote.
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Nenhum daqueles homens se movera. Dir-se-ia que estavam treinados para assistir àqueles últimos preparativos em trânsito, antes de os convidados desembocarem nos salões iluminados pelos belos candeeiros de cristal.
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Durante horas eles ficaram ali, sem um movimento, perfilados, brilhantes e emplumados, com vida apenas nos olhos e nas esporas, que espaçadamente se tocavam, sem nunca coincidirem com o bater de pestanas.
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Nos salões era a confusão da distinção e do mau gosto, misturados naquela combinação mesclada de classe média e outra assim-assim, com uns quantos aristocratas sobreviventes a darem o efeito das ginjas cristalizadas nas bebidas para menina à percentagem em bar de tenha a bondade.
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Ver os príncipes – esses reais visitantes que excitavam hormonas e arrepelavam cabelos, desencadeavam crises familiares e animavam as pálidas colunas sociais das Kekas e das Chu-Chas – era a palavra de ordem, longe de escoltas ou de guardas ou mesmo de qualquer decoro. «Ai, ela ao natural é muito mais bonita do que em fotografia», segundo umas e uns, «o pai é muito mais interessante do que ele», segundo outros.
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Cá fora, entretanto, como se diz nas histórias aos quadradinhos, os motoristas jogam às moedas no interior das limusinas, os polícias apanham chuva fininha e, pela escadaria, os guardas que pareciam jarrões continuam com escassos tilintares.
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É, normalmente, à descida, quer dizer à saída, que toda a gente dá por eles – sai-se devagar, em fila longa e paciente, requintadíssima, fatigada, aguardando pelo abafo no bengaleiro ou pelo carro à porta. E nesse momento há ocasião para trocar olhares embaraçosos com os guardas emplumados. Foi nesse instante que aconteceu o que ninguém esperava.
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Num nicho do patamar, branca, leitosa, misteriosamente sorridente, inefável e nua, estava a estátua de uma donzela, esculpida por cinzel florentino dois séculos atrás. As pessoas olhavam-na apreciativamente na descida, comentando as pregas da túnica tombada a seus pés, numa perfeição de forma e volume que, na própria pedra, quase se adivinhava a transparência.
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Três degraus acima, mas perfeitamente alinhado no campo visual, sem poder olhar para mais nada que não fosse a estátua, o soldado da guarda estava em sentido havia quatro horas, fixo naquele sorriso, naquele corpo.
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Diria ele, mais tarde, no serviço de psiquiatria do hospital militar, que não tinha dúvidas – a estátua era uma desavergonhada que o provocara todo o tempo do seu quarto. Durante quatro horas nua e a sorrir-lhe ele aguentara, mas quando a estátua lhe piscara o olho não pudera resistir. A estátua podia ser de pedra, mas a sentinela e que não é de pau.
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Foi em plena cedência que o frufru das sedas o apanhara – abraçado à estátua, capacete de plumas pelo ombro, esporas numa excitação de tlintlins. Os enfermeiros da ambulância levaram-no delicadamente. Toda a gente pôs um ar condoído e disse que não com a cabeça. Não sei porquê.
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Que a estátua lhe piscou o olho, piscou, porque eu, que vinha atrás, bem vi.

sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Os gansos do silêncio

PUS DE LADO O SUPLEMENTO literário que acabara de ler e meditei, seriamente, como convém a um leitor atento de qualquer suplemento literário.
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O meu primeiro movimento foi o de agarrar num lápis e fazer um círculo ao redor da mesma palavra em três trechos diferentes, de modo a não me restar qualquer dúvida.
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O suplemento publicava excertos de livros no prelo de autores conhecidos e em três diferentes textos eu encontrava a mesma palavra, em contextos diferentes, é verdade, mas que não deixava de ser preocupante porque se tratava de um substantivo, feminino, ainda que numa das três circunstâncias fosse utilizado o diminutivo, tudo muito singular.
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Olhei os três círculos em páginas diferentes, mas sequentes, e li «ginja», «ginja», «ginjinha». Fiquei, portanto, preocupado com o peso da ginja na literatura portuguesa e decidi que tinha de comprar aqueles livros logo que chegassem aos escaparates, não só pelo apreço que nutro pelos respectivos autores, mas também para descobrir se as ginjas eram com elas, ou sem elas, questão a que os truncados nacos de prosa não respondiam.
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Fiquei, decerto, por associação de ideias, a pensar no gosto ingénuo de anos atrás em se ir aos Restauradores beber a melhor ginja de Lisboa - ao que se dizia - e a estranha experiência que era ficar a disparar caroços para o passeio, desde o balcão apinhado, no barzinho superlotado e estranhamente silencioso num fim de tarde de domingo de futebol. Esperava-se então pelas edições dominicais dos vespertinos que publicavam os resumos dos jogos, a classificação e os comentários e entretinha-se a espera com ginjinhas e «piratas» na Praça dos Restauradores, que, de repente, era despertada pelas sapatilhas ágeis dos ardinas, que, se fossem cronometrados, teriam batido o recorde dos cem metros, ainda que sem direito a homologação, porque corriam a descer pelo percurso sorna do Elevador da Glória, cuja calçada se convertia assim em zarabatana, lançando aqueles dardos humanos e gritantes pela praça fora até à porta do Cinema Condes.
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Mas a Rubi, no meio de tudo, fascinava-me. Não pela sua ginja espessa, sangue-de-boi, com o fruto ressequido e alcoolizado no fundo, mas pela sua fauna silenciosa e gesticulante. Era como se tratasse de um caçador submarino – mergulhava, entrava naquelas caras vivas, expressivas, dolorosamente expressivas de quem quer comunicar o melhor que pode - a mais de dez braças, no mundo do silêncio. E o contraste era tanto maior quanto mesmo ali ao lado, no velho Palladium se discutia apaixonadamente, pelo meio das carambolas do primeiro andar, e no lusco-fusco da Praça dos Restauradores havia gritos desencontrados e velhos amarelos da Carris de circulação apanhados em andamento, com direito a acabar a conversa antes da grande viagem, cuja partida era dada - subentendia-se, claro - por alturas do Lourenço & Santos ou, para evitar falsas partidas, logo a seguir aos gelados do Italiano.
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A Rubi era o fundo de tudo isso. A sua ginja, ou ginjinha, naqueles domingos à tarde, que se assemelhavam ao fim de um recreio, com as correrias das partidas e chegadas e a angústia dos desencontros, era o pretexto para a reunião de uma das mais curiosas e ignoradas tertúlias que este país já teve - a dos surdos-mudos, quase todos casapianos, de ganso na lapela, falando com a maior veemência que possam imaginar, de coisas que sabe Deus quais.
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Podem crer que era comovente ficar a cuspinhar caroços de ginja para o passeio, naquela bolha de silêncio na hora mais ruidosa e empenhada da Praça dos Restauradores, naqueles fins de recreio de esperanças e desesperanças sem conseguir adivinhar as paixões e os segredos daquele vocabulário gesticulante e silencioso.
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Era como viajar no interior dum batíscafo, pelo leito dum lago, agitado, sem conseguir deixar de olhar ou perder um gesto daqueles patéticos gansos do silêncio.

sexta-feira, 4 de Julho de 2008

A revolta de quem é de V. Exas. tanciosamente

EM PLENA CRISE DE CRIAÇÃO telefonei a uma amiga que vive em Nova Iorque e perguntei-lhe:
- Se tivesses que escrever um texto para a Eles e Elas, que é que tu escreverias?
- Contava-lhes uma boa história que se tivesse passado comigo ou simplesmente esquecia-me, metia-me no avião e vinha a Nova Iorque ouvir Woody Allen tocar clarinete na terça-feira que vem.
- Não posso - respondi eu -, tenho de acabar a preparação do Jornal das Nove no Segundo Canal da Televisão, e se fizesse isso nem crónica na revista nem notícias na televisão.
- E daí? - perguntou a minha amiga.
- Daí, nada - respondi eu -, os leitores ficavam mais tranquilos, os espectadores menos furiosos e eu mais contente comigo próprio. Esse é o drama.
- Onde está o drama?
- O drama está em quererem obrigar-me a fazer coisas que não me apetecem. Na TV tenho de escrever e dizer às pessoas as notícias do dia, na revista querem que escreva uma coluna de opinião e eu não quero saber de notícias nem ter opiniões, entendes agora?
- Okay, entendido. Por isso, mete-te no avião e vem ter connosco. Vamos jantar ao Elain's, pode ser que lá esteja o Norman Mailer, vamos a um espectáculo na Broadway, vamos ouvir o Woody e...
- ... e depois não posso voltar. A directora da revista mata-me, que é o melhor que me pode acontecer, porque se sobreviver na Televisão ficam a tratar-me abaixo de qualquer cão dum mineiro moçambicano negro que trabalhe na África do Sul.
- Então escreve uma boa história.
Mas eu não quero escrever uma boa história e, de resto, querem que eu escreva uma coluna de opinião.
- Então em vez de tudo isso o que é que gostavas de fazer?
- Justamente o que te vou dizer: gostaria de escrever diálogos para personagens de séries de TV, precisamente aquilo em que estou a transformar este texto que, definitivamente, quando acabado, não será uma coluna de opinião. Depois, em vez de ir a Nova Iorque jantar com o Norman Mailer e ouvir o Woody Allen, já ficava satisfeito de ir à Costa da Caparica tomar uns copos com o Cardoso Pires e rir-me com o Raul Solnado e, depois, voltar para Lisboa, e em vez de ler o noticiário fazer um anúncio a uma pasta de dentes disponível e, se tudo isto estivesse a sair bem, acabar por ir a Madrid ouvir a Olga Ramos, comprar a Hola em vez dos semanários de Lisboa, ler o Manuel Fraga Iribarne em vez do Francisco Lucas Pires e a Elena Flores em vez da Helena Roseta. Se queres saber o que eu gostava de fazer, era isto.
- Então porque não fazes?
- Porque não posso. Tenho de ceder às solicitações. Vou ter de dizer às pessoas as notícias da noite sem lhes contar o que aconteceu durante o dia e terei de escrever um texto que não sendo uma coluna de opinião será publicado pela Eles e Elas como uma coluna escondida com opinião de fora.
- Então, recusas?
- Não, aceito. Mas ainda há momentos a Madonna me dizia «Papa, don't Preach», e eu não vou pregar sermões, mas tenho de mostrar que sou de algum modo ajuizado porque é isso que as pessoas esperam que eu seja. Se eu não fosse ajuizado não te estava a telefonar para Nova Iorque, a pedir a tua opinião, tinha fechado os olhos e inventado para consumo próprio que fugia com a Madonna, para ela imitar só para mim a Marilyn, para dizer com aquela vozinha de rainha-cláudia «Papá, não pregues sermões» e tentaria escrever coisas mais divertidas do que a Morte de Um Caixeiro-Viajante, e quando visse essas coisas representadas no Parque Mayer convencia-me que não era o Arthur Miller e que a Madonna não é a Marilyn e que a única coisa que têm em comum é não gostarem de usar cuecas, e por fim atraiçoava a Madonna com a Hannah sem o Michael Caine e o Woody Allen saberem e...
- E estás mas é louco. Afinal, que vais fazer?
- Que remédio, vou acabar esta crónica. Vou acabá-la como um toureiro que despacha de uma estocada um touro que não presta para a muleta. Vou assegurar-me que não queiram que eu escreva mais. Vou beber um longo, longo uísque. Vou ficar sozinho em casa. Vou fechar os olhos e pôr-me a ouvir o Luciano Pavarotti e vou tentar esquecer a Madonna, enquanto posso.
- É tudo?- É tudo. Dá um beijo meu aos miúdos. E não te preocupes. Isto vai passar, como sempre aconteceu, acabo por fazer certinho aquilo que esperam que eu faça.

sexta-feira, 20 de Junho de 2008

O mais difícil

ANO NOVO, VIDA NOVA. É um provérbio comum a muitos países e pertença de muitos povos. Mas será, por certo, o ditado mais traído de quantos são atribuídos à sabedoria popular.
Acontece, naturalmente, assim, porque «Ano novo, vida nova» se trata de uma manifestação de intenção que, posteriormente, não encontra tradução na prática, não se consuma na vida real. Por estas e por outras, também o povo diz que «de boas intenções está o inferno cheio».
No início, um novo ano, como este agora iniciado, é uma mão-cheia de nada, que é como quem diz um espaço onde cabem todos os sonhos que gostaríamos de ver realizados.
É assim como quando andávamos na escola e começávamos um caderno novo. A perfeição das primeiras páginas não encontrava equivalência nas restantes, como se ao princípio de qualquer coisa desejássemos sempre tudo e acabássemos o que quer que fosse à medida das possibilidades.
A mudança de um ano para o seguinte é tradicionalmente assinalada pelo deitar fora de calendários, pela passagem de moradas e de números de telefone de uma agenda para outra, pelo envio de votos de felicidades postais, que valem tanto quanto uma estampilha custa, mais o valor de uma lembrança expressa em palavra amiga.
Uma crónica de princípio de ano também pode ser isso. Mas é igualmente verdade que pode não ser, constituindo apenas a continuação do ritmo de uma certa rotina, que se recusa a marcar efemérides. Procurarei, no entanto, que esta crónica, para o número correspondente a Janeiro de uma revista mensal seja, sem ser, o voto de que as coisas e as pessoas mudem, para melhor nos próximos trezentos e sessenta e cinco dias e que tudo aconteça à medida dos desejos de cada um.
Desejo-vos, portanto, um bom ano para todos, sem sininhos nem lugares-comuns, nem peditórios para os cronistas desta área, que sem dúvida não deixariam de se associar aos meus augúrios de que o ano em que entrámos seja cheio de vida, de saúde e de dinheiro suficiente à realização dos nossos sonhos. Se nada mudar, que se mantenha pelo menos o bastante à nossa dignidade, e que se aguentem a nossa capacidade de resistência e a vontade de ter esperança.
«Foi um ano para esquecer», há, infelizmente, quem diga, referindo-se a um determinado período menos afortunado que encontra correspondência na bola preta que assinala quarentenas, doenças do próprio ou de familiares, desemprego, morte, azares diversos, infortúnios avulsos. Também essa vontade de esquecer não tem sinceridade, porque semelhantes reveses não se esquecem. O que quer essa expressão significar é «Vamos lá a ver se este ano é melhor», porque o que se deseja, de facto, é uma compensação às malquerenças dos tempos aziagos.
Por falar em bola preta, recordei-me dos rebuçados dos bonecos da bola. Daqueles em que a gente furava um cartão, dividido em quadradinhos, a cada um dos quais correspondia uma bola de cor, que significava um determinado rebuçado, envolvido num cromo de um jogador de futebol. E consoante o número e o boneco, calhava o prémio - este melhor, aquele pior.
Se tomarmos aquele cartão pela nossa vida e a dividirmos em quadradinhos que são os anos que a compõem, o que eu desejo sinceramente é que não haja para ninguém bolas pretas, que normalmente não traziam nada de bom. Que cada ano para todos nós seja um boneco da bola com um bom prémio atrás, se não for mesmo o número da bola de cauchu, que era a nossa grande alegria naqueles anos de contentamento fácil e de vida difícil.
Porque a caderneta, meus amigos, essa teremos de ser nós a preenchê-la e a completá-la, com jeito nas mãos e tento na cabeça, sem que nenhuma bola preta justifique desânimo ou desistências.
Ao enfrentarmos mais um cartão, de furadouro na mão, que a sorte nos guie o gesto e nos ponha o golpe no sítio certo. Que este ano seja o ano do sorriso, da tolerância, da paz e da felicidade realizável. São estes os meus votos para todos nós, que podemos estar unidos nas coisas simples e possíveis. Mas se assim não for, paciência. Se não acerarmos no boneco da bola, no «mais difícil», podemos sempre continuar a tentar, enquanto nos imaginamos protagonistas, jogando num grande estádio, cheio por uma grande multidão entusiasmada, pensando que o nosso retrato embrulha o rebuçado mais difícil - o do número da bola.
Mesmo que tenhamos de passar mais um ano a dar chutos na trapeira.

domingo, 8 de Junho de 2008

«Lisbon taxi driver»

É MAGRO como um fio de azeite. Tem, a atravessar a sua magreza, um bigode tipo escova que quase pode ser visto por trás e sobe e desce, a compasso, com a maçã-de-adão. O cabelo cobre-lhe as orelhas apenas o suficiente e cai-lhe em franja sobre a testa.
Fala compassadamente, mas com toda a malandrice congénita àqueles que nasceram em Arroios, bairro de Lisboa, cidade de galfarros e andorinhas com quem há sempre que contar, no meio de beirões sorumbáticos e minhotos-quase-galegos dos frangos assados no espeto, com gindungo ou sem gindungo, consoante a extroversão e a marotice que se deseja para depois do pudim flan.
Atravessa a cidade devagar, nunca excedendo os cinquenta quilómetros por hora, mesmo quando rola por avenidas de onda verde ou transporta passageiros. Guia como se procurasse alguém. Se em vez dum táxi, verde e preto como todos os permitidos nesta cidade de Santo António, andasse a cavalo, certamente que vestiria de negro, com os coldres baixos, e olharia da mesma maneira os tristes peões, com esta expressão que parece querer dizer: «Foge, que Pat Garrett era um franganote ao pé de mim.»
Mulher que lhe entre no carro não escapa, pelo menos a uma boa, longa mirada, de alto a baixo, com paragens embaraçosas nos pontos mais delicados, onde ficam as coisas mais caracterizantes que uma mulher tem e que nela um homem mais aprecia.
Mas é de homens que gosta mais - para transportar, é bom de ver -, porque lhe dão pé para conversa à tira larga, ou mesmo para discussões violentas. E quando pressente ou descobre que o passageiro tem as características biológicas de uma vítima aí, sem parar, vira-se para trás, põe o braço direito ao longo das costas do banco da frente e diz para o pobre e timorato transportado:
- Passei catorze anos numa tropa de elite. Já ganhei dez contos por dia para guardar figurões cá da parvalheira. Sei o que são eleições e o que é a porca da política. Sou anarca e do Belenenses. Conheço bem o bas-fond porque tenho muita pedalada. Sou um driver. Sou um Lisbon taxi driver.
A partir daí, não há hipótese. Se se tem muita pressa, corre-se o risco de se ser abatido. Se se prolonga a conversa, corre-se o mesmo perigo por, mais tarde ou mais cedo, ser garantido que se chega a um ponto de conflito insanável.
- E sabe o meu amigo? Não pago um copo em toda a Lisboa. Entro, bebo e saio sem pagar. E sabe porquê? Porque tenho uma grande pedalada, porque durante sete anos vivi de noite, conheço tudo e todos, sei histórias. Não pago. Entro e saio e ninguém me diz «É tanto.» É o dizes! Sei histórias e conheço vícios. Sou um driver, um Lisbon taxi driver.
Encontrei-o uma noite destas, num bar. Estava num grupo, ouvia com atenção outro chavalo, numa roda de mais três ou quatro. Quando me viu, dirigiu-se-me naquela passada larga, aparentemente lenta, afastando-me daquela conversa de pintores, donas-marias, maravedis, ervas e aspirinas. Agarrou-me por um braço e avisou-me, este meu amigo driver, porque quem me avisa meu amigo é:
- Não faça por ouvir nada do que a malta está a combinar. Quanto menos souberem menos morrem. Olhe, o meu pai sempre me disse que vale mais roubar do que ser roubado. O meu pai é que sabia, porque foi cinquenta anos contratador da estiva. Sabe como ele me explicava? Explicava assim. «Para roubar é preciso um grau de inteligência; para ser roubado, um grau de estupidez.» Portanto, antes roubar do que ser roubado. Beba um copo e vá-se embora, que pago eu.
Cruza a cidade vagarosamente, no seu táxi verde e preto, com a sua figura de fio de azeite e o seu bigode negro a flutuar. Pode não se reparar nele, mas ele vê-nos a todos. Sabe tudo. Conhece histórias e adivinha vícios. É um driver. Um Lisbon taxi driver.

A «buena dicha»

ENTROU NO CAFÉ arrastando o velho sobretudo amarelo que imitava pêlo de camelo. Antes de chegar ao balcão, o empregado atirou-lhe:
** - Galão e pãozinho-de-deus, não é verdade, senhor Alberto?
** Era verdade. Era, pelo menos, há vinte e sete anos, galão e pãozinho-de-deus, não é verdade, senhor Alberto?
** Não se dava, sequer, ao trabalho de responder. Ou antes, retorquia falando de outra coisa qualquer, género «parece que o tempo vai melhor» ou «você ouviu ontem aquele tipo na televisão?». Gostava de conversar enquanto mastigava e bebia pequenos goles, patatipatatá, um ouvido no ruído do trânsito, não vá o maldito autocarro pregar mais uma partida.
** Naquela manhã, de sobretudo amarelo, a imitar pêlo de camelo, desabotoado, ainda a cheirar a água-de-colónia comprada a peso, sentia-se particularmente bem-disposto.
** Não saberia dizer porquê, se lho perguntassem, mas havia qualquer coisa a fazê-lo saber que aquele não seria um dia como os outros, apesar de não se estar ainda na Primavera.
** A cigana entrou, toda veludo e ouros, para evitar confusões e suspeitas, não pense alguém que ainda é das que restam a ler sinas nas palmas das mãos, e pediu uma tosta mista e uma cerveja. O empregado nem pestanejou, mas o senhor Alberto olhou espantado: «Uma cerveja? A esta hora da manhã? Uma mulher?» - e de imediato mediu-lhe as carnes de alto a baixo.
** A cigana surpreendeu-lhe a panorâmica quando os olhos vinham para cima e, quando se olharam cara a cara, olhos nos olhos, abriu um sorriso de pérolas que deixou o senhor Alberto sem saber se comia o pãozinho-de-deus ou se apanhava o autocarro.
** - O cavalheiro gosta só, ou quer comprar?
** Frente à sua plateia, repleta de público fiel, o senhor Alberto deve ter sentido o que um toureiro sente ao ouvir «Arrimate!» da barreira sombra. E para não ficar sem dizer nada, saiu-lhe um desabafo que deve ter sido o que lhe ia na cabeça, no espírito, no coração e noutras vísceras não menos importantes para o regular funcionamento das instituições fisiológicas.
** - Vossemecê sempre me saiu um grande naco de mulher!
** A cigana atirou a cabeça para trás e largou uma gargalhada que até fez tremer as garrafas de vermute e tilintar as taças para o branco verde avulso. Nesse instante de cristal, o senhor Alberto perdeu o autocarro.
** - Homem, deixe lá que eu levo-o! Ainda há bocado estava em Évora e já aqui estou. Não se preocupe.
** O senhor Alberto não se preocupou. Não tinha, de resto, razão nenhuma para isso, pois raramente chegara atrasado, em anos e anos, e faltara menos vezes que o número de dedos de uma mão. Já que a mulher o levava, olha, deixa estar – até ficava com uma história para contar... e depois isto tudo à frente da malta toda, caramba, era melhor do que anúncio na televisão.
** Inocente, o senhor Alberto embarcou na carrinha da cigana como os meninos dantes acreditavam que podia acontecer se não comiam a sopa. Foi, e viram-no só mais uma vez ou duas. Nunca mais, ao fim daqueles anos todos, queixava-se o dono da pastelaria. Um ingrato.
** Ao que parece, encontraram o senhor Alberto, no outro dia. Dizem que foi em São João da Madeira, mas não garantem que não tenha sido em Carcavelos ou em Santo Tirso. Anda de carrinha grande, com a sua cigana, a vender malhas, fatos de treino e atoalhados, deve ter deixado o sobretudo amarelo a imitar pêlo de camelo à mulher e aos filhos daquela vidinha certa que levara até aquele dia em que a cigana perguntara se ele queria comprar. E para grande espanto e escândalo de quem possa ouvir, contam as más-línguas que o senhor Alberto anda de mão dada com a cigana, um homem já naquela idade, ora vejam lá, rapou o bigode que sempre lhe conheceram e não veste sequer fato – só usa blusões e calças de ganga, o ginja, a querer armar em acelera. E é que acelera mesmo, dizem eles – tirou a carta, nunca mais andou de autocarro, e guia a carrinha entre as fábricas e as feiras dessa estranha e paralela rota da moda «boutique Alcofa».
** Na antiga vizinhança do senhor Alberto dizem que a cigana lhe deu qualquer coisa a beber. Não pode ter sido de outra maneira. Pois se ela, nem lhe leu a sina...
** É verdade. Mas o senhor Alberto anda feliz. A cigana, cantou-lhe a buena dicha.
Lisboa, 1987

Os agás mudos são uma gaita

VIA-SE, PERFEITAMENTE, que estava a pensar enquanto esmagava meticulosamente a ponta do cigarro no cinzeiro apinhado de beatas e cinza solta. Depois, com vagar, levantou para mim os olhos míopes e, sentencioso, disse, definitivo:
- Os agás mudos são uma gaita!
Agradeci e saí, acabrunhado, depois de ouvir a sentença a que recorrera, como mulher atraiçoada que recorre a quiromante estabelecida. Tinha-me recordado de procurar este amigo, velho revisor solitário e silencioso de letra de imprensa, classe que muito prezo e respeito, depois da minha última crónica. Durante anos conhecera-o num jornal em que trabalhei, lendo prosa avulsa de dezenas de homens e mulheres, entre a qual muita por mim produzida, e sempre mantivéramos, no decorrer dos tempos, vigorosas e interessantes discussões sobre sintaxe e semântica. Depois de me reler em letra de forma, quedei suspeitoso e intrigado, concluindo que algo de estranho se abatera sobre o que escrevo nestas crónicas, nas últimas semanas, a ponto de me sentir vítima de maldição faraónica.
Reli, uma vez mais, o que escrevera e, de reflexão em reflexão, envergonhado, confirmei a presença sistemática, ostensiva, mesmo ofensiva, de todos aqueles agás. Geralmente, agás fora de onde devem estar não fazem mal, porque são mudos e nunca aspirados na língua portuguesa, e desde que não combinados com outras consoantes que os costumam acompanhar são facilmente atribuíveis a erros tipográficos e o leitor não se preocupa com eles. Quando o leitor dá por eles diz. «Olha um agá mal acompanhado.» E, nas letras como em tudo, as companhias têm muita influência. Mas aqueles agás eram decididamente contra mim, porque deixariam seguramente no espírito de qualquer leitor a ideia de que entre mim e a gramática existe um conflito insanável, o que, em boa verdade, não corresponde aos factos, tanto quanto me é dado julgar.
Quero eu dizer, para me explicar melhor: todos aqueles agás se tinham ardilosamente perfilado atrás da vogal «O» da palavra «ouve», que correspondia naquele caso ao imperativo do verbo que traduz o acto de sentir as vibrações do tímpano captadas pelo ouvido externo, e que descodifica os sons em vocabulário para ser lido pelo cérebro.
Como se compreende, o resultado foi o mais grosseiro que se pode imaginar - a percepção auditiva ficou confundida com o pretérito perfeito do acto de ter ou do facto de existir, o que, além de confundir o leitor, atribui inadmissível ignorância ao autor.
E as suspeitas sobre a intenção criminosa ou da rogação de uma praga avolumaram-se quando, tudo bem conferido, não havia dúvida de que um único daqueles extemporâneos agás não estivesse perfilado atrás daquela mesma palavra com a qual se pretendia representar um vício de linguagem de um personagem ali caricaturado através desse próprio tique de oralidade.
Tirei de cuidados e fui ver um amigo que tenho na Judiciária, na esperança de que me poderia ajudar a deslindar o mistério. Desenganou-me: colegas que percebessem de letras só os que lidavam com cheques carecas e letras protestadas e eu agradeci e saí melancólico, por entre máquinas de escrever e cabo-verdianos a serem ouvidos em auto que eram traduções literais do crioulo para português-de-às-folhas-tantas. Mesmo assim, recomendou-me que arranjasse um detective particular.
Fiquei cá fora, encostado a um balcão, saboreando uma cerveja à pressão e matutando em tudo isto. Detective particular para língua só um linguista e não me ocorreu de repente nenhum que desse explicações. Foi por isso que recorri ao velho revisor, já reformado, mas um sólido investigador apoiado numa experiente brigada de prontuários.
E como bom polícia da língua, que passou a vida a meter as letras no seu sítio, perguntou-me:
- E o móbil? Quem ganha com este crime?
- Quem quiser desacreditar o autor - respondi-lhe.
- Homem, não tens acordo que te valha.
Foi este desabafo que me lançou uma pista. Precipitei-me para a dominical página das crónicas e reli com atenção redobrada o meu companheiro lisboeta. E logo, nas suas primeiras linhas, lá estava, despudorada, a palavra «excrever», que como sabe se soletra «escrever».
Também ele era atingido por esta maldição do erro tipográfico, que só atinge oficiais deste ofício, sem prejuízo para qualquer explorador de arcas perdidas.
E então o mistério ficou deslindado.
Semanas atrás, o meu amigo Bastos lançou o mais belo e lancinante apelo a favor da língua portuguesa, desde que pharmácia passou a farmácia, ao escrever contra o malfadado acordo «não me tirem, o p de Baptista». Com esta mania da solidariedade e de alinhar com os velhos amigos, logo eu, pumba, noutro periódico, me atirei como gato ao bofe ao linguicídio anunciado.
É a nossa perdição. Daqui para a frente só nos espera o morticínio. Expliquei tudo isto ao meu amigo revisor. Disse que sim com a cabeça, fumando em silêncio, para concluir, subitamente:
- Já assisti a muitos casos como este.
Explicou-me, então, que a maldição dos burocratas da língua só é igual às maldições de todos os outros burocratas. Num caso como noutros, são eles, burocratas, quem se encarrega de nos pôr pimenta na língua.
- Então, eu... – tartamudeei.
- Tu estás lixado. Os agás mudos são uma gaita.
-
NOTA - Esta crónica vem no seguimento de uma outra, já aqui afixada, intitulada «O caçador de cabeças».

Retrato do poeta sempre jovem

É UM VELHO À DESFILADA, num automóvel que corre junto ao mar.
Pergunto-lhe:
- Rafael, porquê sempre o mar nos poemas?
Responde-me:
- Não é o mar nos poemas. É esta baía. Nem nos mais de trinta anos que me obrigaram a levar fora deste país deixou de ser esta baía. Está aqui tudo. Passaram por aqui todos. Romanos, Fenícios, Cartagineses, Árabes. Está tudo escrito nesta baía. Não é o mar nos poemas. É esta baía.
Vamos à desfilada, eu e o Rafael Alberti, oitenta e quatro anos de andaluz, de cidadão do mundo, de guerra pela liberdade, oitenta e quatro anos de poesia. Fisicamente, está cada vez mais parecido com José Gomes Ferreira, longa cabeleira branca a cair-lhe amarelada sobre os ombros, mil rugas na pele escura. Minutos antes, ao entrarmos no carro, fora rodeado por um bando de adolescentes que lhe pedira autógrafos, como é normal os adolescentes pedirem a um cantor de rock, a um futebolista, actor de cinema ou toureiro. Não havia papel, ninguém tinha papel, e Rafael Alberti escreveu o seu nome e desenhou o seu peixe, que sempre acompanha o nome que assina, juntamente com uma estrela, na pele morena daquelas jovens e daqueles jovens.
Ficaram como tatuagens, nas costas e palmas de mãos e nos antebraços de todos aqueles jovens, que um dia mostrarão as mãos estendidas para os filhos, quando estes descobrirem os poemas de Rafael, e dir-lhes-ão:
- ... E sorriu para mim e escreveu aqui o nome. E depois desenhou um peixe, como os cristãos no tempo de Roma, e uma estrela de cinco pontas e voltou a sorrir para mim. Era um poeta, era um raio de um andaluz.
Olhou-me de esguelha e disse:
- Tens aqui três mil anos de história escrita. Está no papel. Por isso, não há que ter dúvidas. Quando se tem dúvidas vem-se aqui, a esta baía, e ela responde a tudo. Estiveram cá todos, à procura da resposta: Fenícios, Cartagineses, Romanos, Árabes e agora nós e os Americanos.
E com um orgulho nacionalista de quem resiste ao invasor:
- Estiveram cá todos. Todos menos os Franceses. Esses andaram pela Península, mas aqui não os deixámos pôr os pés. Por isso, homem, é que se tem de entender as Cortes e a Constituição de Cádis.
Viajamos à desfilada, junto ao mar, entre Cádis e Puerto de Santa Maria. Estamos próximos de Jerez de la Frontera, corremos ao longo da baía e antes faláramos de Buñuel e de Picasso, seus companheiros de exílio em Paris, de Piazzola e do que cada um de nós conhecia de Buenos Aires e de Roma. E disse-lhe eu:
- Homem, tens tantos anos que pudeste gastar muitos deles por todos esses sítios e com toda essa gente.
Eu sabia que só a um homem fresco de corpo e de espírito se pode falar de anos. Mas este é um jovem com oitenta e quatro anos de gozo e de guerras, as duas coisas que penso que se devem fazer, cada uma no intervalo da outra. Sei que não se deve magoar um velho falando-lhe de anos, mas este é um jovem com muitos anos. Ou não será um jovem com muitos anos aquele que já com mais de oitenta se apaixona e desperta paixões em mulheres frescas?
Além do mais, falámos destas e de outras coisas, bebericando goles de xerez e conversámos também da importância do vinho e da respectiva rota no conhecimento e na amizade dos povos.
E ele desse-me:
- Vê tu o meu nome, Alberti. Não é espanhol. É italiano. Aqui na baía há apelidos de todas as nacionalidades. Eles vinham buscar o xerez, e as nossas mulheres prendiam-nos e eles ficavam por cá. Está tudo nesta baía. A baía responde a tudo.
E conversámos sobre os Ingleses, o vinho do Porto e o seu primo afastado que é o xerez e de muitos nomes que à volta desta baía de facto existem, e ela de facto a tudo isto respondia, mesmo nas picantes histórias de mulheres.
O automóvel continua a correr junto ao mar. Vamos deixar o velho em mais uma das suas sessões: cartolina gasta com poemas debaixo do braço, a declamá-los de xerez e de uísque por todos os lados. Vira-o fazer isso outra vez, momentos antes. Digno, distante, afável sempre que o interessavam. E antes tivéramos ainda o nosso mano-a-mano de conferências, em sala apropriada a recordar as grandezas dos impérios desaparecidos.
Para mim, recordo um amigo comum que fascinado me descrevia o regresso de Alberti a esta Espanha democrática e o seu itinerário fantasmagórico, calcorreado por Madrid, entrecortado de exclamações «aqui era...» e de descrições detalhadas e rigorosas do que hoje não existe mais.
Vejo-o agora neste salão a ler poemas seus, dactilografados e belos, e penso que devia ser proibido pensar-se que pode haver poetas amestrados. Há muitos anos, conversei também com Ungaretti a bordo de um cruzeiro italiano que ele distinguia de convidado, apenas com a sua presença. E recordei também Jorge Amado, frequentemente exibido à mesa do Estoril-Sol. E vejo agora este velho, que chegou a ser vice-presidente das Cortes, e passeou em ombros pela Andaluzia, não como toureiro ou artista de outro género, mas com herói da liberdade. Olho-o a recitar poemas seus, por entre presunto, queijo, sardinhas alimadas, xerez e uísque e abandono-o assim, especado sob os flashes dos fotógrafos e os projectores do cinema e da TV, a ler poemas avulsos, belos e dignos.
E para minha consolação, ou talvez antes para minha vingança, dou pela minha voz a dizer a mim próprio, sozinho:«É como a baía. Passaram todos por ela. Romanos, Fenícios, Cartagineses, Árabes, e, agora também os Americanos, mas, tal como a baía, não pertence a ninguém.»

Uma carta de amor

VESTE SEMPRE UMA CAMISOLA DE LÃ, mesmo de Verão, o que, além de inevitavelmente ter de lhe fazer calor, lhe dá um ar de refugiado de alguma parte, acabado de chegar, sem bagagem e sem destino.
Está sentado, quase imóvel, no banco de lona articulado, sem mover a cabeça numa ou noutra direcção, acompanhando apenas com os olhos este ou aquele que por ali passam, com a pressa dos selos fiscais, das fotos á là minute, ou de mais um impresso que sempre falta à boca dos guichés.
Repousa as mãos afiladas, de dedos longos e postura delicada, numa prancheta de cartão prensado, cor verde-garrafa, e os olhos observam desinteressados o que acontece em cem graus de visão, os quais se recusa a aumentar, aconteça o que acontecer.
Passou o suficiente e calcorreou o bastante para ter a prata no cabelo e os sulcos na pele que só o arado da vida abre no coiro de cada um. Distinto e distante, sabe construir a sua superioridade da altura daquele mocho quase rasteiro, e quem nele atenta ou com ele fale fica com a sensação de ter à sua frente alguém a quem a vida pregou uma partida, mas que nada tem a ver com o sítio onde se posta, as pessoas que lhe falam, o dinheiro que lhe pagam ou a roupa que veste. Tem aquela idade indefinida que vai aos quarenta aos sessenta, sem que ninguém possa dizer ao certo quantos anos tem, e cumpre religiosamente um horário quer chova ou taça sol, debaixo da arcada onde vende os seus serviços, com ar de inspector de polícia ou de chefe de gabinete ou, melhor ainda, pela sua distinção, com ar de embaixador.
Preenche impressos a cinquenta escudos, escreve cartas a setenta e os analfabetos são o seu mercado. Mas, principalmente, preenche impressos, postado que está em posição fronteira ao Arquivo de Identificação, onde mesmo os analfabetos têm de ter uma identidade e um cartão que a prove com um número, uma cara e uma impressão digital. As cartas são menos frequentes, mas todos os dias tem pelo menos uma que escrever, o que faz sem emendas e em silêncio, após alguns minutos de conversa com o remetente para conhecer o conteúdo e o destinatário. Mostra-se, mais do que insensível, impermeabilizado aos assuntos que lhe sugerem para tema das relações que alinha em letra pontiaguda e agressiva, consoante a sintaxe que conhece e a vulgaridade das vidas sem história, ou das dificuldades sem grandeza de que lhe dão conta.
Pedem-lhe, normalmente, para escrever que tudo vai bem, que as crianças estão na escola, que vivem numa parte de casa mas que em breve se vão mudar, que arranjaram um andar só para eles ou que em breve começarão num emprego muito melhor. Quase sempre as coisas estão difíceis mas todos dizem que vão melhorar.
Outras vezes, nem isso. Apenas quinze linhas a dizer que tudo bem e que no Natal os não esperem, mas que na Páscoa vamos a ver. São cartas tristes, não por anunciarem algo de dramático, mas por reflectirem a desesperança de quem as encomenda. Começam, quase sempre, por «Maria», ou por «Querida Mãe», ou ainda por «Queridos Pais», e quem é que vai escrever à mulher ou aos pais, a dizer o que realmente lhes vai na alma? São meros registos de «nós por cá todos bem», o que raramente é verdade mas que serve para tranquilizar, e até dar orgulho a quem os recebe.
Muitas vezes pensa em quem vai ler o que está a escrever. Naturalmente que os analfabetos escrevem cartas uns aos outros. Não faria muito sentido um analfabeto escrever uma carta a um pai ou a uma mãe que sabem ler. Portanto, tem quase sempre a preocupação de as suas cartas manterem a oralidade que faz sentido não a quem as vai ler, mas a quem as vai escutar. Tem consciência que, no meio, há um codificador de sentimentos, que é ele, que escreve sinais num papel que alguém no destino descodificará em voz alta, soletrando o mais depressa que pode aquela caligrafia inclinada e ossuda.
Mas a maioria do seu trabalho é, já se sabe, com os impressos, nome, apelido, morada, nome do pai, nome da mãe, profissão, estado. É com isto que, aparentemente, se governa, escrevendo maiúsculas em quadradinhos verdes do computador, que regista tudo o que nós, Portugueses, somos ou, as mais das vezes, o que deixámos de ser.
No outro dia teve um sobressalto. Pediram-lhe para escrever uma carta de amor. Não lhe pediram assim. Foi um freguês, um homem ainda novo, de pele escura, com um endereço e código postal para o Sul, que lhe disse.
- Tenho uma carta para vossemecê escrever. Quanto é?
- Setenta escudos até duas páginas. O que é que quer dizer na carta?
- É para uma rapariga. Não quero dizer nada de especial. Não tenho nada para dizer. Quero só mandar-lhe dizer que gosto dela e penso nela todos os dias. Pode ser?
Sorriu, olhando demoradamente a cara morena que tinha à sua frente e que o olhava com ansiedade, e respondeu:
- Volte daqui a uma hora que já deve estar pronta. Vamos ver se sou capaz.
Depois, agarrou num velho bloco cujas páginas já iam em metade e tirou uma velha caneta de tinta permanente da pasta, guardando a esferográfica que usava nos impressos, e pôs-se à escrita, começando: «Meu amor.» Escreveu uma página e outra e outra, dos dois lados das folhas, até a caligrafia saía diferente, com a letra menos inclinada e mais arredondada até acabar «...custa-me viver assim, longe de ti, a pensar no que estarás a fazer em cada momento. Não me sais do pensamento. Quando estivermos juntos não nos separaremos mais. Amo-te».
Quando o rapaz voltou, perguntou-lhe o nome e assinou a carta. Escreveu cuidadosamente o envelope, com destinatária e remetente, e entregou-lho, sem o fechar, com um sorriso feliz:
- Pronto. Meta no correio. A mim, você não deve nada.
E quem por ali estivesse a observá-lo, na sua camisola de lã, as mãos delicadas repousando na prancheta de cartão verde-garrafa, sobre os joelhos dobrados pela posição no banco de lona articulado, descobrir-lhe-ia, na cara quase sem expressão, e nos olhos aparentemente desinteressados, um sorriso e um brilho que, sendo quase indecifráveis, se poderia apostar que eram de felicidade.

Uma carta de amor

VESTE SEMPRE UMA CAMISOLA DE LÃ, mesmo de Verão, o que, além de inevitavelmente ter de lhe fazer calor, lhe dá um ar de refugiado de alguma parte, acabado de chegar, sem bagagem e sem destino.
Está sentado, quase imóvel, no banco de lona articulado, sem mover a cabeça numa ou noutra direcção, acompanhando apenas com os olhos este ou aquele que por ali passam, com a pressa dos selos fiscais, das fotos á là minute, ou de mais um impresso que sempre falta à boca dos guichés.
Repousa as mãos afiladas, de dedos longos e postura delicada, numa prancheta de cartão prensado, cor verde-garrafa, e os olhos observam desinteressados o que acontece em cem graus de visão, os quais se recusa a aumentar, aconteça o que acontecer.
Passou o suficiente e calcorreou o bastante para ter a prata no cabelo e os sulcos na pele que só o arado da vida abre no coiro de cada um. Distinto e distante, sabe construir a sua superioridade da altura daquele mocho quase rasteiro, e quem nele atenta ou com ele fale fica com a sensação de ter à sua frente alguém a quem a vida pregou uma partida, mas que nada tem a ver com o sítio onde se posta, as pessoas que lhe falam, o dinheiro que lhe pagam ou a roupa que veste. Tem aquela idade indefinida que vai aos quarenta aos sessenta, sem que ninguém possa dizer ao certo quantos anos tem, e cumpre religiosamente um horário quer chova ou taça sol, debaixo da arcada onde vende os seus serviços, com ar de inspector de polícia ou de chefe de gabinete ou, melhor ainda, pela sua distinção, com ar de embaixador.
Preenche impressos a cinquenta escudos, escreve cartas a setenta e os analfabetos são o seu mercado. Mas, principalmente, preenche impressos, postado que está em posição fronteira ao Arquivo de Identificação, onde mesmo os analfabetos têm de ter uma identidade e um cartão que a prove com um número, uma cara e uma impressão digital. As cartas são menos frequentes, mas todos os dias tem pelo menos uma que escrever, o que faz sem emendas e em silêncio, após alguns minutos de conversa com o remetente para conhecer o conteúdo e o destinatário. Mostra-se, mais do que insensível, impermeabilizado aos assuntos que lhe sugerem para tema das relações que alinha em letra pontiaguda e agressiva, consoante a sintaxe que conhece e a vulgaridade das vidas sem história, ou das dificuldades sem grandeza de que lhe dão conta.
Pedem-lhe, normalmente, para escrever que tudo vai bem, que as crianças estão na escola, que vivem numa parte de casa mas que em breve se vão mudar, que arranjaram um andar só para eles ou que em breve começarão num emprego muito melhor. Quase sempre as coisas estão difíceis mas todos dizem que vão melhorar.
Outras vezes, nem isso. Apenas quinze linhas a dizer que tudo bem e que no Natal os não esperem, mas que na Páscoa vamos a ver. São cartas tristes, não por anunciarem algo de dramático, mas por reflectirem a desesperança de quem as encomenda. Começam, quase sempre, por «Maria», ou por «Querida Mãe», ou ainda por «Queridos Pais», e quem é que vai escrever à mulher ou aos pais, a dizer o que realmente lhes vai na alma? São meros registos de «nós por cá todos bem», o que raramente é verdade mas que serve para tranquilizar, e até dar orgulho a quem os recebe.
Muitas vezes pensa em quem vai ler o que está a escrever. Naturalmente que os analfabetos escrevem cartas uns aos outros. Não faria muito sentido um analfabeto escrever uma carta a um pai ou a uma mãe que sabem ler. Portanto, tem quase sempre a preocupação de as suas cartas manterem a oralidade que faz sentido não a quem as vai ler, mas a quem as vai escutar. Tem consciência que, no meio, há um codificador de sentimentos, que é ele, que escreve sinais num papel que alguém no destino descodificará em voz alta, soletrando o mais depressa que pode aquela caligrafia inclinada e ossuda.
Mas a maioria do seu trabalho é, já se sabe, com os impressos, nome, apelido, morada, nome do pai, nome da mãe, profissão, estado. É com isto que, aparentemente, se governa, escrevendo maiúsculas em quadradinhos verdes do computador, que regista tudo o que nós, Portugueses, somos ou, as mais das vezes, o que deixámos de ser.
No outro dia teve um sobressalto. Pediram-lhe para escrever uma carta de amor. Não lhe pediram assim. Foi um freguês, um homem ainda novo, de pele escura, com um endereço e código postal para o Sul, que lhe disse.
- Tenho uma carta para vossemecê escrever. Quanto é?
- Setenta escudos até duas páginas. O que é que quer dizer na carta?
- É para uma rapariga. Não quero dizer nada de especial. Não tenho nada para dizer. Quero só mandar-lhe dizer que gosto dela e penso nela todos os dias. Pode ser?
Sorriu, olhando demoradamente a cara morena que tinha à sua frente e que o olhava com ansiedade, e respondeu:
- Volte daqui a uma hora que já deve estar pronta. Vamos ver se sou capaz.
Depois, agarrou num velho bloco cujas páginas já iam em metade e tirou uma velha caneta de tinta permanente da pasta, guardando a esferográfica que usava nos impressos, e pôs-se à escrita, começando: «Meu amor.» Escreveu uma página e outra e outra, dos dois lados das folhas, até a caligrafia saía diferente, com a letra menos inclinada e mais arredondada até acabar «...custa-me viver assim, longe de ti, a pensar no que estarás a fazer em cada momento. Não me sais do pensamento. Quando estivermos juntos não nos separaremos mais. Amo-te».
Quando o rapaz voltou, perguntou-lhe o nome e assinou a carta. Escreveu cuidadosamente o envelope, com destinatária e remetente, e entregou-lho, sem o fechar, com um sorriso feliz:
- Pronto. Meta no correio. A mim, você não deve nada.
E quem por ali estivesse a observá-lo, na sua camisola de lã, as mãos delicadas repousando na prancheta de cartão verde-garrafa, sobre os joelhos dobrados pela posição no banco de lona articulado, descobrir-lhe-ia, na cara quase sem expressão, e nos olhos aparentemente desinteressados, um sorriso e um brilho que, sendo quase indecifráveis, se poderia apostar que eram de felicidade.

Onde a carta ao director passa a crónica de última página

Senhor Director

Juro que esta é uma vez sem exemplo, palavra que eu não torno. Vosselência sabe bem que eu não me meto na política, que a minha política é o trabalho. Mas esta semana, vez sem exemplo, palavra que eu não torno, sinto este irresistível apelo de escrever sobre política.
Não pretendo, creia-me, substituir-me a Vosselência, nem competir com V. ilustres confrades desse género difícil e ingrato que é análise política, tanto mais que tal tarefa exige muitos conhecimentos, excelsa perspicácia, grande isenção e informação actualizada (à qual nem sequer disponho de acesso).
O meu impulso, esta semana, seria contribuir através do espaço que Vosselência me concede para fazer uma sugestão que provavelmente pode não ter ainda ocorrido a quem de direito. Não queria, portanto, alinhar na crítica a este Governo do professor Cavaco, nem tão-pouco fazer coro com aqueles que, por razões igualmente respeitáveis, o apoiam. O que eu gostaria, Senhor Director, era que Vosselência me autorizasse a fazer aqui a minha sugestão para o bem do nosso querido Portugal.
É certo que o Executivo actual pode muito bem arranjar um novo fôlego neste intervalo que vai até ao fim do campeonato do Mundo de Futebol. Poderão o professor Cavaco e seus rapazes fazer o que entenderem, que as pessoas só vão dar por isso em Outubro. E nessa altura vão ficar entretidas com o entra-não-entra do general Eanes no PRD e o Governo poderá dar uma segunda demão na sua maquilhagem para disfarçar as rugas que hoje já começam a aparecer.
No entanto, não é nada disto que quero dizer. Em política não me meto, a minha política é o trabalho. Eu só pretendo fazer uma sugestão a quem de direito, para bem do nosso querido Portugal. E palavra que é uma ideia que me ocorre há muito, mas que, face ao Campeonato do Mundo, ganhei coragem de apresentar a Vosselência.
Já reparou, Senhor Director, em quem treina a selecção de Marrocos? Anotou, Vosselência, quem diz ao Abder Karim como deve rematar? Pois claro que Vosselência reparou - é o meu amigo José Faria, um brasileiro, que em árabe nem é capaz de dizer «Salaam alekum».
E notou também, Senhor Director, quem treina a selecção do México? Claro que sabe que é um jugoslavo.
E pensou Vosselência onde jogam o Platini da França, o Boniek da Polónia, o Madjer da Argélia e o polaco dos bigodes que é guarda-redes, além dos dinamarqueses todos da Dinamarca?
É evidente que Vosselência sabe. Eles jogam na Itália, na Bélgica, em França e no Porto e em tudo que é sítio menos nos países deles.
Claro que aqui podia haver críticas, inspiradas na Administração Reagan, que não poupa aos cubanos que jogam em Angola, ou aos soviéticos que reforçam a equipa em Cabul no Afeganistão. Mas não há. Para disfarçar, estes jovens futebolistas vão de cooperantes para outros países, mas com contratos melhores do que aqueloutros pagos pelo PNUD, pela UCTAD, UNICEF, UNESCO, FAO e outros organismos internacionais.
Portanto, deste modo, estão afastadas as suspeitas de internacionalismo proletário, que ficam só para os cubanos e soviéticos, e é bem feito, para eles não se meterem onde não são chamados.
Mas de política eu cá não percebo nada, nem quero perceber, a minha política é o trabalho. O que eu quero é fazer uma sugestão a quem de direito para bem do nosso querido Portugal.
Reparou também o Senhor Director que nós por cá vamos buscar estrangeiros para nos ajudarem no desporto. Temos americanos no basquetebol, todas as nacionalidades no futebol, exportamos hoquistas, enfim, aderimos com naturalidade a esta prática universal.
A minha ideia, portanto, Senhor Director, para Vosselência aproveitar como melhor entender e fazer chegar a quem de direito, é a seguinte:
Se importamos quem nos faz falta no desporto, porque não fazemos o mesmo na política?
Com um bom contrato, por dois anos, que os governos também não duram mais do que isso, nós podíamos cá ter quem nos ajudasse a superar as nossas dificuldades, e trabalhasse para o bem do nosso querido Portugal.
Dependeria da Assembleia da República limitar, ou não, o número de estrangeiros. Mas poderíamos assim permitir ao professor Cavaco Silva que, quando os Portugueses acordassem, em Outubro, encontrassem um novo elenco.
Quero eu dizer - que não percebo de política, a minha política é o trabalho - que, se o professor Cavaco aproveitasse esta ideia, poderia estar a preparar-se para a próxima época.
Que me diz o Senhor Director a uma remodelação que metesse no Governo, como vice-primeiro-ministro, Adolfo Suárez, de Espanha, e como ministro dos Negócios Estrangeiros Henry Kissinger, dos Estados Unidos, tendo o ministro das Finanças e do Plano Helmut Schmidt, da RFA?
Ou se preferir, porque não poderíamos abusar do número de estrangeiros, Giscard D' Estaing vice-primeiro-ministro - o primeiro-ministro seria sempre o professor Cavaco, bem entendido -, Pierre Trudeau nos Negócios Estrangeiros, Willy Brandt na Cooperação, James Carter na Agricultura?
Não acha o Senhor Director que esta é uma boa ideia?
É ou não é uma ideia construtiva, que só poderia beneficiar o nosso querido Portugal? Cá por mim não hesitava. Mas isto é com quem de direito. Eu destas coisas não percebo nada. A minha política é o trabalho.

Mesa para dois

SENTA-SE MUITO DIREITO, raramente sorri quando o servem, sejam empregados ou mesmo o patrão. Alisa com grande cuidado o casaco, puxa as calças no sentido de proteger os vincos irrepreensíveis e, com um toque, certifica-se de que o nó da gravata está no seu sítio. Estuda a descrição dos pratos do dia com a atenção de um general a analisar uma ordem de batalha, apesar de almoçar naquele restaurante vai bem para trinta anos. Lê a lista dos vinhos, embora sempre queira o mesmo, determinada meia garrafa de branco, e faça sempre a mesma recomendação:
- Gelado, mesmo muito gelado.
E depois de dizer essas palavras sábias, encosta-se ao espaldar da cadeira com a força de quem espera que alguém venha tentar arrancá-lo dali.
- Duas pessoas, não é verdade, senhor Domingos?
- Duas pessoas, evidentemente. Mas eu não espero.
Há quase trinta anos que almoça neste restaurante todos os dias úteis. Sozinho, hirto, saboreando pequenos goles do vinho, maduro no Inverno, verde no Verão. À sua direita, jaz sempre um talher, um copo e um guardanapo que em todo este tempo nunca foram utilizados.
- Podemos servir, senhor Domingos? Senão o peixe arrefece...
- Amigo não empata amigo. Sirva, que, se entretanto chegar as desculpas são-me devidas.
Quando um empregado começa a trabalhar naquele restaurante explicam-lhe, invariavelmente, quem é o Sr. Domingos, o que come, que é sempre ou linguado grelhado ou filetes de pescada. E explicam-lhe que bebe sempre branco, maduro no Inverno, verde no Verão. E baixando a voz pedem ao novo empregado que não preste demasiada atenção ao talher que o Sr. Domingos exige vai para trinta anos, naquela mesa para seis pessoas, junto à janela, onde acaba sempre por comer sozinho.
Invariavelmente às doze e quarenta, o Sr. Domingos entra no restaurante. É uma hora estratégica, pois cinco minutos mais tarde a casa começa a encher-se e deixa de haver mesas vagas. O Sr. Domingos nunca fez uma reserva.
- Um aperitivo, senhor Domingos?
- Pode ser o costume. Um porto seco
- Duas pessoas, senhor Domingos?
- Duas pessoas, evidentemente.
Pode pensar-se que gosta de comer sozinho. Mas se esse é o caso, já não se entende que não recorra a um jornal, livro ou revista para afastar os importunos.
Poderia explicar o dono do restaurante, onde há quase trinta anos o Sr. Domingos almoça, que este é o dono de uma ourivesaria. Foi o Sr. Domingos, aliás, quase engenheiro. Estudava no Instituto Superior Técnico, quando o pai, fundador da ourivesaria que se dizia pertencer ao Sr. Domingos, se finou. Segundo a mesma fonte, ou seja, o dono ao restaurante, na sua crónica para entreter secos e molhados diz à boca pequena que o pai do Sr. Domingos, o ourives, teria falecido no supremo esgotamento de um coito pós-cozido à portuguesa, portanto a uma quinta-feira, num escândalo logo abafado, como a moral impõe, ao qual terá sobrevivido uma extrovertida manicura de uma barbearia da Baixa.
Instado pela mãe («E agora, filho, quem toma conta do negócio, o que vai ser de nós?»), o Sr. Domingos deitou as propinas às malvas, nunca mais pôs os pés no Instituto Superior Técnico e atirou-se às escravas, medalhas, anéis, correntes de relógio, brincos e outros pequenos objectos que são minúsculos sinais exteriores de desafogo, ou títulos de aforro, e que ele pacientemente também vende através de pequenos pagamentos mensais.
Ninguém se atreve a falar ao Sr. Domingos.
Todos se ficam pelo cumprimento de cabeça e só quem trabalha naquele restaurante ou crianças que vendem pensos ou lotaria ousam dirigir a palavra ao Sr. Domingos.
- Duas pessoas, senhor Domingos?
- Duas pessoas, evidentemente.
Um dia passou pelo restaurante um empregado que ali pouco tempo trabalhou mas que deixou uma dúvida profunda, que permaneceu para além da sua efémera estada.
Um dia de calor, às quatro e meia da tarde, à mesa com todos os seus colegas, incluindo as carnes distendidas e suadas das cozinheiras, servindo-se de mais grão, esse ladino empregado lançou inquietações que sobreviveram anos. Referindo-se ao Sr. Domingos, a quem pela primeira vez servira nesse dia, o jovem perguntou:
- Mas afinal o gajo está à espera de um homem ou de uma mulher?
Naquele calor húmido, à volta dos restos concentrados do bacalhau com todos, do chispe à transmontana e do arroz de tomate, pairou uma grande inquietação. Nunca ninguém pensara nisso, e logo ali as opiniões se dividiram. Para uns, o desprendimento com que O Sr. Domingos dizia não esperar mais levava-os a ter a certeza, nascida naquele instante, de que se tratava de um homem. Para outros, que julgavam por suspiros que garantiam ter escutado, era irremediavelmente uma donzela quem há perto de trinta anos faltava, todos os dias, ao almoço com o Sr. Domingos.
Esta semana, o mistério ficou deslindado. E, ainda ontem, os empregados e até o proprietário do restaurante sorriam para o Sr. Domingos.
A descoberta ficou a dever-se à entrada de uma velha senhora, que, muito digna, mas envergonhadamente, procurava vender pequenas rosas vermelhas aos homens que ali almoçavam acompanhados por mulheres. Mas nem a doçura da companhia lhes adoçava o gesto seco e sem apelo com que afastavam a velha senhora que vendia pequenas rosas, digna mas envergonhadamente, no restaurante onde o Sr. Domingos almoça, todos os dias úteis há perto de trinta anos.
No meio de um silêncio súbito e de muitos olhares cruzados, o Sr. Domingos disse alto e bom som:
- Deixe ver uma rosa dessas para a minha amiga que pode ser que apareça hoje.
E ontem já o empregado perguntou ao Sr. Domingos:
- Mesa para si e para a sua amiga, não é verdade senhor Domingos?
- Claro, como sempre. Nunca se sabe quando ela vai aparecer. E dois copos para o branco gelado. Mesmo muito gelado.

Pela hora da morte

TODA A GENTE DIZ que a vida já não é o que era. Mesmo aqueles que vivem bem, na abastança, assim o entendem, o que impede que este desabafo possa constituir privilégio dos humildes.
A vida já não é o que era. É um facto. Mas a morte também não.
Quer nos confortos e nos pormenores que nos dão os mimos da vida, quer nas alegrias e nas dores que nos temperam a existência, ou nas pompas e nas circunstâncias com que antecedemos o fatal desenlace, que será o «grande final» de todos e cada um, se perdeu, irrecuperavelmente, a qualidade.
Morrer, hoje em dia, além de estar pela hora da morte, já não é o que era.
Morremos mal e depressa. Os nossos amigos nem sabem bem do que morremos e os nossos inimigos lançam facilmente insidiosos boatos na maior impunidade, por meio de melífluos sorrisos que parecem querer dizer tudo e não dizem nada, mas que são mortíferas certidões de óbito da nossa virilidade, da dignidade dos nossos herdeiros. Definitivamente, não se pode morrer em paz.
Os testamentos são raros. Essa celebração hipócrita, de negro irrepreensível à volta de um notário de voz trémula e solene, de olhar perscrutador perseguindo todas as reacções da assembleia, praticamente desapareceu.
Resta aos vivos a emoção instantânea e sem glória do totoloto ou a pinderiquice de um carro no «Um, dois, três». Resta aos mortos deixarem dívidas sem honra ou andares de juro bonificado.
Amigos do peito, daqueles para todas as ocasiões a ponto de porem gravata preta no dia em que nos acompanham à última morada, já não há. Hoje, o traje para um funeral ou é ditado pelo acaso ou envergado em consonância com a caracterização dos acompanhantes.
Morre um amigo, pintor de arte. Vai-se de camisa branca, dois botões abertos, fio de ouro grosso, blazer azul-marinho, jeans, sapatos de pala, de preferência com elástico verde e vermelho, a imitar Gucci.
Morre um amigo, gestor de empresa pública. Vai-se de príncipe-de-gales cinzento, camisa azul Oxford, gravata azul-escura a contrastar, preferivelmente de seda pura e adamascada.
Morre a mãe de um amigo. Não se vai. Manda-se telegrama e espera-se junto à pia da água benta a saída da família em missa do sétimo dia.
Morre uma actriz que se admirava. Vai-se para que toda a gente pense que teria havido coisa em que se não deve pensar, muito menos em tal momento, e envia-se um bouquet de rosas Baccarat.
De flores, nem falar se deve. Dispendiosas e importadas, quase inodoras, não deixam mais aquele cheiro típico de enxerto em cera de círio que se consumia lentamente nos tempos dos velórios a sério.
Coroas. É bom nem referir. Toda a gente sabe que quase não há.
Os necrófilos foram extintos como libelinhas. A necrofilia erradicada, como a varíola, e nem se manifesta nas formas mais suaves e benignas, cujos sintomas eram facilmente detectáveis nos olhos gordos que escorriam para o negro acanalhante de um vestido de viúva, ou para o brilho cintilante e convidativo de um par de alianças ostentado no mesmo dedo branco e leitoso de carnuda viúva, ou de esguio e austero viúvo.
O respeito de um cortejo automóvel, de marcha pesada, longo comboio negro reluzente a atravessar a cidade que respeitosamente tirava o chapéu à sua passagem, que silenciosamente encomendava almas ao Criador, cedeu lugar à buliçosa gincana de carros vermelhos ou cinzento-metálicos, japoneses, com prova de perícia final junto ao cemitério, onde as badaladas se confundem em ritmo alucinante de última volta de corrida de atletismo. As três badaladas e o balde de cai converteram-se em imagem literária, reduziram-se ao pó da liberdade poética.
As carretas puxadas por três parelhas de cavalos ajaezados de negro e prata, de grandes palas sobre os olhos com cocheiros e trintanário, mestre-de-cerimónias e carpideiras, são recordações nostálgicas de meninos dos anos 40, a embaciarem com o bafo húmido as vidraças das tardes de Novembro, trémulos de medo do quarto escuro.
Hoje, viaja-se para a última morada em Mercedes panorâmico, com rádio-telefone e bancos de autopullman tipo familiar.
Da promiscuidade post mortem é melhor nem falar.
Quem se lembra do tempo em que também na morte todos sabiam o lugar que lhes pertencia? Onde vai o tempo em que, nos jazigos, as prateleiras de cima se deixavam para os avós, as do meio para os pais, as rés ao chão para os filhos, que deveriam morrer em seu tempo, e no subsolo havia sempre lugar para um velho criado sem família, ama de leite ou caseiro dedicado?
Como se pode ser indiferente a esses mausoléus que albergavam urnas de bom: mogno incrustado, com fotografias sorridentes em molduras de laca, madrepérola e prata, anjinhos de canteiro, ou mesmo de escultor, tocando trombetas dos dois lados do nome de família honrada, de preferência soletrado com duas consoantes, e tudo isto dominando as classes mais desfavorecidas, alinhadas onde lhes competia, no pó a que regressavam, cruz, sim, cruz sim?!
Sobretudo, como se pode não fazer o sinal da cruz perante a promiscuidade em que cada um cai hoje, depois de morto, esse festim de urnas acolchoadas em jazigos onde já nem se respeita a tia morta no Caramulo, de tuberculose; onde se tem dúvidas sobre qual é a urna do pai, onde se chega sem que a opinião pública, aqueles que contam, leiam uma coluna necrológica como deve ser, como as de outros tempos, em que havia extintos benfazejos, famílias beneméritas e senhoras muito esmoleres?
Na impossibilidade quase certa de, no que respeita à liturgia da morte e suas indústrias subjacentes, acompanharmos o que de bom se pratica lá por fora, onde os cemitérios parecem greens sem golfistas e cuidadosos caracterizadores nos maquilham extremadamente para que repousemos sem olheiras; na certeza de que os bons tempos ora aqui evocados não voltarão para todos nós que ainda não fomos a Deus chamados a servir em Sua presença, resta-nos a reconfortante conclusão, reconfirmada na paz deste domingo, que a única coisa a fazer é viver o mais e o melhor possível. Ainda que saibamos que a vida já não é o que era.

O crucifixo da tia Alícia

ADORAVA IR LANCHAR a casa da minha tia Alícia. Patinava no corredor, jogava hóquei em patins com a bengala dela, bebia chocolate quente até me doer a barriga e, no regresso a casa, enquanto esperava o eléctrico no Largo do Carmo, enchia os pulmões de cheiro a cavalo, que, a partir do quartel da GNR, me dava a sensação de que as ruínas do convento eram despojos de batalha acabada de travar.
Eram poucas as vezes, no entanto, que ia àquele casarão pombalino, cheio de sombras, de rangidos e estalidos. Talvez por lá ir muito espaçadamente, ficaram gravados na minha memória todos os momentos que ali passei.
Tudo me era permitido por aquele anjo protector que sempre foi a minha tia. Recordo-me da tarde em que, numa jogada fulminante, entrei na área dos espanhóis e rematei, imparável, a «stickada» que deu a Portugal o golo da vitória no Campeonato do Mundo. Foi um estrépito enorme que acolheu aquela minha triangulação com Jesus Correia e Correia dos Santos. Em cacos, o bengaleiro de louça de Coimbra desfez-se, no tapete de Arraiolos.
- Deixem lá, coitadinho - dizia sempre a minha tia -, se ele não faz estas coisas agora, quando querem vocês que ele as faça?
Só a vi triste quando lhe deixei cair da janela das águas-furtadas, de onde tentava ver um par de pombos a acasalar, os binóculos prismáticos que tinham pertencido ao meu defunto tio Alfredo. Pesados, longos, negros e frios, os binóculos com que o meu tio se munia para assistir às regatas, despenharam-se nas pedrinhas da calçada, transformados em inúteis caleidoscópios a preto e branco e que, na queda, podiam, ter morto alguém.
- Pronto, não se fala mais nisso - dizia a minha tia -, isto são coisas que acontecem.
Mas não conseguia disfarçar a tristeza que devia sentir quando acariciou o corpo, frio e inútil, do instrumento que a velha criada fora apanhar à rua, trazendo-o na mão como um par de maracas, chá-chá-chá, abanando a cabeça e suspirando «Ai, menino, ai menino.»
A minha tia e a criada pareciam duas meninas, embora ligadas entre si por mais de quatro décadas de doenças e de mortes, de cautelas de penhor clandestinas, de encontros sub-reptícios e saídas furtivas, de ave-marias e padre-nossos em comum, a duas vozes, na penumbra do oratório.
O oratório era uma pequena antecâmara do quarto da minha tia. Tinha um enorme Cristo na cruz, quase em tamanho natural, e eu não resisti, um dia, a ir estudar-lhe as chagas das lanças dos romanos, encarrapitando-me numa pilha de almofadas de cetim amontoadas no veludo do genuflexório.
Dessa vez, a minha tia Alícia foi de extrema severidade para comigo. Agarrou-me por uma orelha e, com uma crueldade contida que ainda hoje recordo, disse, batendo as sílabas uma a uma:
- O menino nunca mais ali entra. Se volto a vê-lo naquele quarto, nunca mais põe os pés nesta casa!
Nessa noite, na escuridão do meu quarto, apanhando a renda do travesseiro, não consegui descortinar qual poderia ser a relação secreta entre Alícia, a minha tia, e aquele Cristo que me fascinava em tamanho natural, nu e cor de carne, com chagas a sangrarem e que dava a sensação de ter acabado de expirar ou de estar à beira do último suspiro. Já homem, viria a descobrir que esse era o fascínio daquele belo crucifixo: a proximidade da morte, pouco importava se ocorrida ou prestes a acontecer.
Foi nessa altura, muitos anos passados sobre a ameaça gélida da minha tia, à luz da lamparina de azeite do oratório que decifrei também a razão da sua crueldade contida.
Ao contrário da imagem generalizadamente conhecida de Jesus, aquele Cristo não tinha barba. Não só não tinha barba como era a cara do jovem que jazia em sépia, no florão de cobre da moldura que segurava um naperão sujas pontas tombavam, como um xaile, sobre o teclado cor de marfim velho do piano vertical, de quatro pedais que, mudo, enfeitava a sala de visitas.
- Queres ficar com o Cristo como recordação da tua tia? - perguntaram-me com a cerimónia desinteressada de um inventário post mortem.
- Não – respondi. - Quero apenas um pequeno objecto pessoal, que seja realmente uma mera recordação.
Nunca mais vi aquele Cristo nem sei o que foi feito de Jesus. Guardei apenas uma pequena pistola niquelada, de coronha de madrepérola, que me recorda uma senhora que cresci a venerar como uma santa, incapaz de fazer mal a uma mosca.

Ai coração, coração

ANDAMOS JÁ A VIVER com os corações uns dos outros. Devíamos deixar de correr por aí, voltar a poder fumar vários maços de cigarros por dia e beber sem restrições. Quando o nosso coração começasse a dar sinais de querer estoirar, a gente encomendava um bom coração, com pouco uso, para aí de dezoito, vinte anos, no máximo, e quando o «berro» viesse aí a gente trocava.
Ganhávamos assim, sem alardes, sem campanhas, sem sacrifícios nem correrias, um coração jovem.
Por mim, estou totalmente de acordo. Põe-se-me apenas uma única questão, e esta é a dos sentimentos.
Eu explico.
Desde pequenino que ouço dizer que Fulano tem bom coração, que ouço murmurar «trago-te no coração», que ouço afirmar que Sicrana tem «um coração de pomba», e que a mãe dela tem «um coração do tamanho desta casa». Portanto, a questão é realmente esta - vai-me custar a acreditar que o coração é só uma bomba que, pumba-pumba, nos põe o sangue a correr pelas veias Desde que o sul-africano Christian Barnard começou a trocar corações que espero que alguém me esclareça. Falou-se em anticorpos, em aceitação, mas quanto a sentimentos, nada...
Quero dizer na minha: a gente fica com um coração novo, deitam o nosso para o balde, e depois?!
Ficarmos com as paixões do dador, os seus bons ou maus sentimentos, passamos a ficar apaixonados por quem aquele coração novo sempre bateu, passamos a odiar quem aquele coração não perdoa?
Ninguém me explica...
Pejo sim pelo não, penso que é melhor reformular pelo menos o fado e o tango, que são as canções mais cardiológicas que conheço. Mas a sério: já pensaram nisto com certeza. Como será? Já alguém perguntou a um receptor de coração transplantado:
- Ainda gosta da sua mulher? Sente a mesma coisa pelos seus filhos?
Ninguém teve coragem de perguntar isto. E deve haver uma razão para isso. Porque naturalmente que o entrevistado não responderia com sinceridade. Já imaginaram alguém, ligado aos tubos, cheio de fios, depois de tanto ter sofrido, agradecer o apoio dado por toda a família com uma declaração brutal, mas sincera, do tipo:
- Vocês não significam nada para mim. O meu amor agora é outro.
Devia ser o bom e o bonito.
Desta forma, creio que a única maneira de saber o que se passa, depois do transplante de um coração, é um repórter submeter-se a essa experiência. Se eu ainda fosse jornalista de redacção, com agenda a cumprir, e visse que me tinham marcado «Letria - coração novo», metia-me num automóvel, chegava ao hospital e dizia ao cirurgião.
- Doutor, faz favor. Mas deixe-me saber antes, com precisão, de quem é o meu coração novo.
E preparava-me. Pedia nomes de namoradas, de pai e de mãe, de patrões, de colegas e camaradas, de amigos e inimigos. E tentava perceber o que se iria passar quando acordasse. E verificaria se, de facto, tinha perdoado tudo aos meus inimigos, se já não amava quem amei, se tinha amores novos. E escrevia tudo isso numa reportagem que o jornal classificaria de sensacional e em grande exclusivo, contava tudo com muito cuidado e rigor, ainda quente, quer dizer, ligado ainda à máquina do bip-bip.
Depois, dava uma conferência de Imprensa. Reunia autores de letras, trovadores e poetas e dizia-lhes:
- Meus amigos, deixem-se disso. Não digam mais «o meu coração bate por ti». Não escrevam mais sobre o coração. O coração, meus amigos, é uma bomba hidráulica. Faz pumba-pumba e nada mais. Essa coisa da dor de corno, musical ou poética, está mas é toda na cabeça, aliás apropriadamente.
Se calhar, desligavam-me a máquina. Ou alguém indignado me pisava o tubo. Não seria de estranhar, porque se ainda ninguém falou destas coisas é porque deve haver uma razão de peso, possivelmente um contrato que se eu o denunciasse, me despedaçava o coração. Mas juro que faria de tudo isto uma campanha, nem que tivesse de transmitir em morse, com os bip-bip da máquina:
- O que o Dom Pedro mordeu foi uma bomba hidráulica, nada mais.
Possivelmente, nessa altura, faziam-me novo transplante e punham-me um coração de plástico, acabando-se tudo. Ficava vivo, mas teso que nem um carapau, com um bip-bip muito certinho.
Pelo sim pelo não, o melhor é utilizar o método dos dois corações. Porque ou nada disto é verdade e sempre é melhor ter um coração sobressalente e continuar ligado ao nosso coração de origem, ou então é mesmo verdade e a gente deve pedir ao médico que, já que nos vai substituir o músculo cardíaco, faça o favor de nos arranjar um coração com pêlos, que a vida e este mundo não estão para corações fracos.
Ninguém me diz se isto acontece de uma maneira ou de outra. Portanto, não tomem estas minhas palavras para além daquilo que elas verdadeiramente representam: um cronista de jornal a escrever em voz alta, desinibidamente, com sinceridade, de todo o coração.

Laranja amarga

METEM POEMAS DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS. Com a discrição de quem não sabe escrever e só fala quando tem coisas importantes a dizer.
Curvados sobre os joelhos, sentados sobre os calcanhares, escrevem poemas a preto e branco nas calçadas da cidade que, esventrada, se abre e entrega aos devaneios deles.
De martelo e pedras escolhidas nas mãos, cobrem a pele da cidade com uma tatuagem fina, filigranada. É a sua forma de escrita, resistente e pesada como o calcário que manuseiam, com o qual dizem flor, amor, barco, corvo, curva, cálice, verdade.
São bandos silenciosos e rasteiros, olhando pedra a pedra, estudando a rua onde se sentam, com os olhos a um nível nunca superior aos calcanhares indiferentes que se afastam. Vêm de fora, com a pele curtida e as mãos duras, que volteiam calhau após calhau. E levam-nos, em camionetas, em bandos silenciosos e encarrapitados nas caixas abertas, sem nunca olharem para trás, para aquilo que deixaram escrito para ser pisado pelos pés indiferentes a poemas figurados, com rima em amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Enfeitam a cidade que não é deles. E silenciosos se vão embora, assim calados e sem remetente, para as suas terras sem pedras no chão a enfeitarem o caminho dos passos desencontrados.
Nas ruas das terras deles, o enfeite é, normalmente, outro. Quase todas têm apenas por adorno filas de laranjeiras amargas, coloridas e cheirosas para os tristes e frios dias de Inverno.
Sempre que alguém quer um poema de pedra escrito nas ruas de uma cidade, a preto e branco, certo, de caligrafia regular (a única que conhecem no território calcário que é o seu) vão buscá-los. E lá ficam, rasteiros e silenciosos, de pedras e martelo nas mãos, a fazerem a caligrafia que aprenderam em meninos e que nunca conheceu reformas ortográficas nem grafismos electrónicos.
É um trabalho paciente, pedra a pedra, peça a peça, um bordado meticuloso, certo, combinado, escrito com a lentidão de quem escolhe as palavras que ali vão ficar mudas, em figuras silenciosas, a dizerem-nos coisas simples e belas que vão de laranja amarga a amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Por vezes, mais parece um difícil quebra-cabeças, destinado à indiferença das solas-para-que-vos-queremos de quem tem destino certo, ou simplesmente vagueia num mosaico a preto e branco, desenhado a calcário por estes homens que chegam, e partem, silenciosos, no seu cotim, cinzentos, em caixas abertas de camionetas escuras e sorumbáticas, que os aguardam enquanto trabalham.
A exposição dos seus trabalhos não tem vernissage possível. Quando muito, uma mangueira possante, a atirar para longe restos de areia que serviu de leito às pedras colocadas depois de partidas com ponderação, para encherem a parte do desenho que lhes compete.
Sentam-se em pequenos tacos, ou caixas, de madeira, quase nos próprios calcanhares, e olham o que fazem por entre os joelhos, sem levantarem os olhos a não ser com grande indiferença, às vezes até com uma certa vergonha, para os poucos que acidentalmente param, mirando com apreciação o que fazem.
Engolem ali mesmo o almoço, entre pedras por partir, fios de nível para alisar o chão futuro dos nossos pés. Falam pouco, mesmo entre si, e quanto a rir é bom nem pensar.
Só se ocupam de ruas e calçadas nobres, onde normalmente há mais pés e mais pressa do que em outras, onde há mais tempo e mais olhos para admirarem os desenhos que podem deixar.
Metem poemas debaixo dos nossos pés. Com a discrição de quem não sabe escrever e só fala quando tem coisas importantes a dizer. Com a humildade de quem espera não ser entendido, com a tristeza de quem muito menos pensa vir a ser apreciado.
Tecem, pois, com as suas pedrinhas, que partem na mão com a delicadeza de quem liberta uma noz da casca, tapetes que ninguém nos pode puxar. Deixam-nos, belo, um chão sólido que podemos pisar com firmeza, sem receio de alçapões ou outras falsidades. E depois, cinzentos de cotim, ignorados e silenciosos, partem sem um olhar para o que deles ali deixaram.
Normalmente, só os avós os entendem. Seguram, aos domingos, as mãos dos netos, e apontam-lhes o chão que estes homens nos vão deixando, mostrando e explicando cada coordenada destes mapas desprezados da geografia citadina. E devagar, com muita paciência, como aquela que só os avós sabem ter para os netos, mostram-lhes a rima do poema, a sua métrica, escrito à mão, pedra a pedra, a preto e branco, com desenhos e riscos que nos falam, nos versos certos de amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Certamente que todos os que me lêem já há muito que perceberam que vos falo dos calceteiros da minha cidade de Lisboa, das nossas vilas e cidades, poetas ignorados das nossas pedras lascadas, cinzentos e calados, sem que saibamos de onde vêm ao certo, para onde vão realmente, e de que vivem, quando cada vez menos nos metem poemas debaixo dos nossos pés.
No outro dia, quieto e com falsidade aparentando indiferença, ouvi dois a falarem entre si. Escreviam com as pedras que iam escolhendo e juntando, na sua gloriosa caligrafia pesada de calcário, palavras que não sabem dizer por letras.
- Manel, achas que os advogados sabem todos ler?
- Ora, hão-de ser como nós. Uns sabem, outros não.
Deixei-os a escreverem, por pedras, amor, flor, arco, barco, corvo, curva, cálice, verdade.
Já vinha longe e, palavra de honra, senti de repente o cheiro a laranja amarga.

Pat Boone na Castellana

APONTARAM-ME O PROTAGONISTA. Estava encostado a um gradeamento e olhava desinteressado o passeio feérico dos travestis na avenida de Madrid, por onde eu caminhava com amigos, entre os quais haveria um que era conhecedor da história que me proponho escrever-vos, actualizando um pouco o mister do orelheiro, que escuta e reconta as histórias que andam por aí.
Fá-lo-ei, no entanto, com inteiro respeito pelos personagens e com todas as reservas pelas fontes, pelo que não deverão esperar quaisquer revelações sensacionais nem levianas; tão-pouco exporei ao esperado ridículo aqueles que assumem com bravura a sua diferença da maioria. Mas a história, essa, acho-a tão bela que, mesmo correndo o risco de não ser totalmente verdadeira, não resisto a contá-la. E agora, em pleno acto da escrita, eu próprio quedo na dúvida se não a terei inventado do princípio ao fim, buscando em figuras reais a veracidade necessária a que me acreditem.
Dizia eu que me apontaram o protagonista. E que ele olhava desinteressado os travestis que se coqueteavam por uma bela avenida de Madrid. Mas embora desinteressado, a verdade é que se posicionava num ponto onde não podia deixar de fazer parte do cenário da peça cujos intérpretes eram os travestis.
Confesso, igualmente, que estes últimos foram também o motivo da passagem por aquele ponto de Madrid. Curiosamente, acho que os homens têm algum fascínio por eles. Eu tenho, confesso, apesar de não ter travado conhecimento mais íntimo com nenhum para além daquele que vai da distância da fala. Mas, sem saber bem como me explicar, e correndo riscos de ser mal interpretado, acho que é difícil encontrar muitas mulheres tão femininas como um travesti. Por isso cedi à sugestão desses amigos, portugueses, residentes em Madrid: «Vamos à Castellana ver os travestis.»
A juntar à sua inegável feminilidade, os travestis têm aquela maldadezinha interior de que só os homossexuais são portadores e com a qual caricaturam cruelmente as mulheres no que estas podem exteriorizar de mais desprezível, o que tem sido muito apreciado em espectáculos de cabaré, dos quais não sou, infelizmente, frequentador. A tudo isto acresce que os amigos que me propuseram desportivamente esta espécie de safari me acicataram a curiosidade com a sentença: «São quase todos portugueses»
E eu não resisti à dose de nacionalismo de ver belos exemplares do macho lusitano a desfilar em salto alto e a piscar o olho aos Pacos como, nos meus bons velhos tempos as Lolas nos excitavam nos cabarés de Lisboa e do Porto. E mais, confesso que, ao vê-los, me senti orgulhoso: ora digam lá se há na Europa travesti que pise com mais garbo do que o travesti lusitano?!
Mas o protagonista não se movia. Teria talvez cinquenta e cinco ou sessenta anos, vestia classicamente, quero dizer fato completo e gravata, e fumando, absorto, não se movia.
Mas, afinal, o que mais chamava a atenção era que os travestis não o tomavam por alvo, não o convidavam provocadoramente como faziam com todos os outros transeuntes, em especial os que estavam motorizados. Parecia, assim, o protagonista desta minha história, na sua imobilidade, o mestre-de-cerimónias, ou se preferirem o ringmaster, daquele circo de travestis amestrados.
E foi então que ouvi - ou imaginei? - a história. O meu protagonista era notário forçado, porque a família a isso o obrigava, casado e pai de filhos, e estava ali porque se tomara de amores por um jovem travesti, ao qual, aliás nada de carnal o ligava, pois ele nem bissexual era, tudo se passando, portanto, no plano platónico.
Só que o efebo, cuja diferença de uma mulher é só a daquele pormenor que todos conhecem, porque em tudo o mais é uma mulher perfeita, é exactamente igual a uma menina que fora brutalmente afastada dos sonhos de adolescente do meu protagonista.
Daí, todas as noites, o meu protagonista jazer imóvel entre as idas e vindas da figurinha loira, delicada, de biscuit que, de táxi ou em grande turismo anda a edulcorar a virilidade do macho peninsular.
E nos intervalos encontram-se e falam, trocam presentes e dão as mãos e falam do Pat Boone e do Billy Halliday, que eram os temas favoritos do meu protagonista e da sua bem-amada, naquele amor proibido de trinta anos atrás antes de a família transformar um rapazinho sonhador e apaixonado num triste tabelião, cuja única alegria é a de hoje, às escondidas, a coberto da noite, ter a inocente aberração de namorar, como os adolescentes da sua juventude, com um travesti que é igual à namorada que foi forçado a abandonar, e com quem fala de Pat Boone e de outros temas que os jovens de há trinta anos tinham para conversar quando namoravam em festas, no cinema ou quando se esperavam às portas dos liceus ou à saída da missa.

Banda desenhada

FOI GANHANDO SUCESSIVOS COMBATES. Para cada um deles entregava-se a uma longa preparação, suava dentro de plásticos, saltava a corda, corria, dava murros no ar. Depois, descansava, lia ou cortava lenha como um doido, agarrando com as duas mãos cavacas, do tamanho que a cozinheira gostava para o fogão.
Travava quase diariamente longos combates de catorze assaltos, contra os mais díspares adversários, brancos ou pretos, que invariavelmente não chegavam ao fim. KO, KO técnico, abandono - era o registo quase constante da sua carreira, feita a murro, quase sempre na América.
Um alemão, uma vez, resistira-lhe até ao fim, mas a diferença de pontos deu-lhe, na mesma, uma vitória confortável.
A avó, normalmente, dizia que ele havia enlouquecido.
«Não sei onde este rapaz vai buscar estas coisas Ele lá sabe, é assim que se entretém.»
E ele, saltitando da ponta de um pé para a do outro, com um enigmático sorriso, pensava. «Hei-de chegar ao Madison Square Garden. Hei-de ser campeão. E a minha namorada e a minha avó hão-de estar na plateia, e a vizinha que é muito gira estará sentada, sozinha, sofrendo com os golpes que eu apanho, muito bem vestida, com um casaco de peles que eu lhe comprei.»
Imaginava essa vizinha igual à namorada do Mandrake, enquanto a sua própria namorada era a mesma do Luís Euripo. O treinador é que já não pertencia aos quadradinhos - era o senhor Adolfo, do Café Pérola, que sabia de boxe, fora campeão quando era novo e que ele decidira que passava a ser polaco.
Tinha, depois, longos monólogos a duas vozes. Normalmente eram longos diálogos com o seu manager, desabafos com o seu «segundo», confidências de homenzinho à namorada, propostas desonestas à vizinha. No fundo, era a representação do mundo adulto tal qual os quadradinhos lho mostravam, sob a forma de monólogo, com trabalho, ambição, amor, lealdade, pecado e infidelidades.
De uma semana para a outra, fizera quase uma temporada. Viajara nos comboios de costa a costa, combatera uma vez em Paris, descansara, vestido de branco, uns dias de Inverno em Miami, partira lenha como um doido cada vez mais impaciente pelas quintas-feiras, dia de semana em que se publicava a revista dos quadradinhos, onde lia histórias, via bonecos, mas, sobretudo, de onde copiava estilos, apanhava tiques e decorava frases inteiras.
Foi na pesagem para um dos seus combates, pesagem e apresentação à imprensa, que a grande oportunidade lhe surgiu: «Queres combater para o título mundial, com uma bolsa de um milhão de dólares?»
Dissera que sim, sem hesitar, sem consultar ninguém, sem esperar por coisa nenhuma. Afinal, era a primeira e a única grande oportunidade: os avós iam ao cinema, ficava apenas a velha empregada na cozinha, a passar a ferro e a ouvir rádio.
Despachou rapidamente o adversário que tinha que despachar, porque há coisas que têm que ser feitas, partiu para a quinta onde fazia a sua preparação física, deu duas entrevistas, tudo isto das sete às nove da noite, fechado no quarto, onde esperou que os avós saíssem para jantar fora e irem ao cinema, para, depois, ele poder enfrentar o combate que era o desafio da sua vida.
Deu a volta à chave da vetusta sala de jantar, que permanecia encerrada na penumbra ou nas trevas, apenas se animando nas grandes datas, com o seu lustre de mil e uma lâmpadas, os seus cristais, os seus espelhos, as suas pratas - um templo. O único local que poderia para ele representar o Madison Square Garden.
Acendeu apenas uma parte do pesado lustre, tocou devagarinho o gongo de chamar a criada, apenas para verificar se o seu som servia, de facto, para separar cada assalto e foi equipar-se. Voltou com uma cadeirinha algarvia minúscula, de assento de palha e flores amarelas pintadas em fundo vermelho, a qual colocou sobre um dos cantos da mesa de carvalho. Foi para a casa de banho, onde vestiu os calções de ginástica do liceu, pôs as velhas luvas do avô forradas a pele de coelho, calçou um par de meias e pôs pelas costas um roupão turco.
Foi nessa altura que um gangster lhe fez uma oferta para ele perder.
Furtivamente, partiu para a sala de jantar, onde, ao acender todas as luzes do lustre, uma multidão gritou o seu nome. Viu a namorada e sorriu à vizinha, as duas em sítios diferentes na plateia, olhou de esguelha o adversário antes de subir ao ringue e, quando subiu, a grande mesa de carvalho empinou-se lentamente do outro lado, muito lentamente para acelerar de súbito, e ele, numa náusea de quem leva um directo no fígado, já em desequilíbrio, a agarrar-se ao lustre e o lustre a despenhar-se em milhares de vidrinhos, e a mesa a estrondear ao voltar à sua posição, e a instalação eléctrica a estoirar, e a casa nas trevas, e a criada a gritar, na cozinha: «Ai valha-nos Deus!»
Quando o avô voltou do cinema, apanhou uma tareia monumental. Foi a sua primeira derrota: perdeu a bolsa e nunca seria campeão. Fora derrotado por KO, ao primeiro assalto.

O chofer de praça

FICAVA MUITO CONTENTE sempre que no seu táxi apanhava alguém de quem gostasse. Fazia por isso, imaginando o tipo de pessoa que lhe convinha transportar, em conformidade com o diálogo que gostaria de travar no trajecto seguinte e o itinerário que fazia questão em percorrer.
Era delicado. Antes de colocar o taxímetro em funcionamento, de espreitar se poderia acelerar de junto do passeio e perder-se no meio do tráfego, cumprimentava quem se tivesse sentado no banco de trás, perguntava se a música não incomodava, fazia um comentário ao estado do tempo e arrancava.
Guiava sempre com suavidade. Entendia, de resto, que da delicadeza e da economia dos seus gestos beneficiava ele próprio e imaginava que um dia uma jovem haveria de lhe perguntar:
- Porque é que você é chofer de praça?
Tinha tudo estudado para a eventualidade de isso lhe suceder. A resposta e aquilo que seria a sua parte do diálogo estavam firmemente memorizadas. Quando ele desejasse que essa situação se materializasse sabia que isso sucederia.
John, Chauffeur Russo impressionara-o muito quando o lera, e seria assim que gostaria de dar a volta a uma mulher. A alguém que nada soubesse a seu respeito, que o visse num estatuto inferior e a quem pudesse vir a conquistar primeiramente pelo seu aspecto e maneiras, depois pela sua educação e cultura, finalmente pelos seus atributos inquestionáveis.
Desistiria depressa, receando a rotina de dia após outro a trabalhar para a mesma família, o patrão ao escritório, a patroa a casa de amigas, os dois à ópera e os filhos à escola e aos concursos hípicos. Decidira não ser nunca chofer particular.
A praça fascinara-o. A possibilidade de correr toda a cidade, as hipóteses de ouvir conversas interessantes, as oportunidades de conhecer permanentemente gente nova e diferente, de ser livre nos seus percursos fizeram-no decidir-se pela praça, definitivamente. E foi com entusiasmo que uma tarde preparou o carro que sempre imaginara e, aproveitando não estar ninguém em casa a quem tivesse de dar satisfações, partiu para as suas aventuras avulsas, como vingador solitário de banda desenhada ou herói romântico de fotonovela.
Como todos os motoristas de táxis de Lisboa, adorava serviços para o Estoril. Para ele era o destino que contava, pouco importava a rentabilidade do serviço ou o pagamento do retorno.
Adorava correr pela Marginal, preferia fazê-lo com sol, os olhos nas curvas suaves da estrada, por vezes a despistarem-se para o rio até ao Bugio, quando havia pouco tráfego.
«Um dia», pensava consigo próprio, «aparece-me uma judia rica, de Nova Iorque, que veio jogar no Casino, ficamos noivos, casamos e vamos viver no estrangeiro.»
Não sabia explicar a razão, mas sempre que pensava numa mulher que valesse a pena tratava-se sempre de uma Judia de Nova Iorque.
O carro entrou na subida ligeira para Caxias e Paço de Arcos.
Transportava um inglês idoso que apanhara na Baixa, bem vestido de tweed verde-oliva. Sorriu, o comboio corria com ele, paralelo, às vezes desaparecia para voltar a aparecer mais próximo, como se brincasse às escondidas e ao toca-e-foge. Meteu uma mudança e acelerou, deixando a composição para trás, condenada a seguir o capricho dos carris, por entre alas de casas e de árvores. Do outro lado, do seu lado, como se estivesse parado na água, enorme e preocupante sob a chapada de sol que o deixava em contraluz, um petroleiro de grande porte parecia perigosamente próximo de terra.
- Quando chegar ao Estoril, eu indico-lhe o resto do caminho - disse-lhe lá de trás o inglês, envolto numa nuvem de John Players e de alfazema.
- Okay! Eu abrando para não me enganar. Não conheço as ruas do Estoril.
Imaginou o seu passageiro nos anos da guerra a beber vinho do Porto no bar do Hotel Palácio. Podia ter sido um agente ao serviço de Sua Majestade e ter regressado agora de férias ou para recuperar uma arca de barras de ouro que enterrara num quintal. Abrandou e encostou-se bem ao passeio para ser ultrapassado por um grande Mercedes bege. Reduziu ainda mais a velocidade, sorrindo para o petroleiro gigantesco e disse com o melhor sotaque que ouvira no cinema:
- Lovely day!
- Yes, lovely day - respondeu o inglês, que não disse mais nada até chegarem às palmeiras do Estoril.
Foi no regresso, já depois de largar o passageiro, que a sua vida profissional sofreu um estrago irreparável, que teve consequências nefastas que se prolongaram até hoje.
Ouviu um pequeno ruído atrás de si. O retrovisor não assinalou nada que não devesse. No entanto, de repente, num fragor muito maior do que qualquer desastre, num rompante que não chegara a imaginar sequer em qualquer operação stop:
- Salte já daí!!! Que julga você que está a fazer? Logo, vamos conversar!!
O jantar foi pior do que o auto de apreensão de carta.
A mesma voz acusava, por entre garfos e pratos e copos, testemunhas mudas daquele julgamento sem defensor oficioso:
-... E imagina que o apanhei, com as pernas dentro da cristaleira, onde guardamos o serviço de Limoges, sentado numa de quatro cadeiras muito juntinhas, duas à frente e duas atrás, a olhar para o espelho do alçado, a fingir que guiava com uma tampa de marmita de tupperwear e a fazer mudanças com o desentupidor da retrete!!!
Todo o seu sonho desabara. Deixara de soprar ali a brisa fresca da Marginal, o esconde-esconde com o comboio, os mistérios insondáveis dos seus passageiros, o petroleiro perigosamente próximo da terra.
Antes que a mesa toldada e trémula desaparecesse por completo dos seus olhos e o prato se desvanecesse da sua frente, de modo a que a colher nada encontrasse, decidiria que, não podendo fazer mais alegres corridas com o comboio do Estoril, iria dar rumo novo à sua vida: apanharia o próximo paquete, com destino a Nova Iorque.
E foi antes que as primeiras lágrimas lhe caíssem na canja que resolveu qual seria a sua próxima profissão.
Uma vez chegado a Nova Iorque, iria ser barman. E jurou a si próprio que, quando fosse grande, teria um bar, um táxi e uma jovem judia.

Isto é o jornal a falar com os seus botões

CRONISTA DE JORNAL tem destas coisas.
Reparem: a gente mete-se neste quadradinho e fala do que lhe apetece. Chegamos a escrever sobre o que nos vai na alma, acreditem, às vezes falamos de coisas simples, despretensiosas, que estão à vista de todos, está-se-mesmo-a-ver-não-está-se, outras vezes vamos às traseiras do nosso cérebro e tiramos coisas complicadas, que estão alapadas na nossa vida, e que disfarçadamente partilhamos com os outros.
Cronista de jornal tem destas coisas.
A gente escreve para os leitores, os estimados e queridos leitores que devem ser a razão de ser de quem escreve. Mas não resistimos, por vezes. Reparem: deitamo-nos nesta página e elegemos os leitores, os estimados e queridos leitores, em invisíveis psicanalistas estilo vejam-lá-esta ou então vocês-não-querem-lá-saber.
Cronista de jornal tem destas coisas.
Reparem: a gente atira as palavras ao vento como quem cospe para o ar e elas não voltam a cair-nos em cima. Podemos ficar com a dúvida legítima de saber se alguém as apanhou. Ou sermos tão convencidos que imaginamos o país inteiro a devorá-Ias. A verdade é que escrever para os leitores, estimados e queridos leitores, é escrever sem destinatário. Esta é uma questão que se deve pôr, porque assim como nós pensamos connosco próprios, que razão válida impedirá um jornal, que é um objecto inteligente, feito com cabeça, coração e muito nervo, de falar com os seus próprios botões?
Cronista de jornal tem desta coisas.
Reparem: eu, por exemplo, julgo que o jornal tem o direito de falar com os seus botões. E é isso que me inquieta, por uma razão muito simples: que pode este jornal pensar a meu respeito? E quando nos preocupamos com o parece-mal, então a gente cuida-se.
Ficamos portanto entendidos: daqui para a frente, nesta crónica, é o jornal a pensar.
Reparem: oferecem um quadradinho destes meus quadradinhos a este tipo para que ele o encha com palavras.
E ele desata a escrever, sem mais aquelas, sem eu perceber para quem. Instala-se com banca própria, e nem um «bom-dia» a oficiais do mesmo ofício.
Quando a gente se muda, para vizinhança certa de atestado de residência antigo na junta, que deve a gente fazer? Sim, que mandam as regras, as boas maneiras, que se faça? Bater à porta, cumprimentar na rua, anunciar a chegada e oferecer os préstimos. É o mínimo. E este, aqui deste quadradinho, que fez? Nada. Absolutamente nada. Ou melhor, instalou-se e começou a escrever.
Falou ele ao Teixeira Neves, inquilino antigo desta página, tirou o chapéu e agradeceu o que dele tem aprendido, do tempo do Militão Ribeiro e dos nossos dias? Desceu ao rodapé e foi àquele quadradinho do César Príncipe, um quadradinho tão pequeno que parece um quartinho em edifício de apartamento, pequenino mas limpo e independente, e apresentou-se? Bateu ele à porta do Baptista-Bastos e disse-lhe homem, então agora moramos na mesma página? Vivemos nós em Lisboa e vimos passar o fim-de-semana nesta página do Porto? Não, meus amigos. Não fez nada disso E podia ter feito mais, muito mais. Com o Baptista-Bastos, podia falar dos doces bares, discutir as questões que o Teixeira Neves levanta, a da necessidade de civilizar a Polícia, por exemplo, falar das palavras de Berlim a que se referia o Príncipe. Qual quê?! Nada. Chega aqui, escreve o que lhe dá na gana, não saúda ninguém e fica assim a falar sozinho. Uma página séria de gente honrada sem o menor respeito deste cavalheiro pelos senhores que aqui conquistaram direito de alforria.
Aqui o cronista intromete-se para escrever o que se vai seguir.
Até aqui, claro, era o jornal a falar.
Agora sou eu outra vez, para discordar.
Cronista de jornal tem destas coisas.
Reparem: se os que assinam neste jornal, os domingueiros e os dia-útil, começassem a falar uns com os outros, era capaz de ter piada. Talvez os leitores, os estimados e queridos leitores, pudessem mesmo gostar, porque tem que se aceitar que a generalidade das pessoas adora ler a correspondência dos outros. Carta aberta é invenção de desmancha-prazeres. Mas há que ter presente igualmente que os anónimos artífices que fazem um jornal, o compõem, o imprimem, o distribuem, o escrevem, desastre em Afife, corpo no Douro, aviões americanos na Líbia, talvez não gostassem. E têm razões para isso, mesmo que os leitores, estimados e queridos leitores, gostassem.
Reparem: escrevem eles, com palavras simples, coisas que dizem respeito a todos nós. E ficávamos nós para aqui diante de toda a gente a falar uns com os outros. A nossa sina não é essa. Pode ser desculpa minha, mas não é de mau pagador. O nosso destino não é esse. Ficar para aqui, a falar sozinhos, é o que nos compete.
Até que haverá leitores, estimados e queridos leitores, que dirão hoje que aquilo que me faltou esta semana foi assunto para a crónica. Podia defender-me dizendo que não senhor, que o que tenho é imaginação a mais. Mas não vou dizer nada. É melhor assim. Tenho destas coisas. Reparem: coisas de cronista de jornal.

Prémio e castigo

NÃO SOU DE IR A CASAMENTOS, baptizados, funerais ou prémios. No entanto, no outro dia, senti-me na obrigação de ir dar um abraço a um escritor que estimo e respeito porque foi premiado e é meu amigo.
Escrever bem tem riscos. Agora tem mais este: o de ganhar prémios. Sei, por experiência própria, que quando se escreve não se pensa em prémios. E acredito que prémios não se pedem nem se agradecem. Se vêm, tudo bem. A gente guarda-os. O pior é que, para os guardar, é preciso recebê-los. E aí é que está o castigo, porque por detrás de cada prémio há sempre um castigo.
O castigo do prémio é a sua entrega. Se o prémio é pecuniário, ele bem podia chegar pela posta, com o cheque em nome próprio, para não haver falhas nem extravios, permitir registo e solicitar na volta do correio o envio do recibo e do número de contribuinte.
Seria mais próprio. A gente juntava-se com amigos, comíamos em celebração, bebíamos umas garrafas e acabou-se, viva o prémio sem castigo.
Mas se se entendesse que já que alguém ganha um prémio tem que ir a um castigo, ainda que simbólico, poderia enviar-se um ofício para o qual, caso haja interessados, se deixa esta minuta.
«Exmo. Senhor(a), vimos pela presente solicitar a sua presença na sede dos nossos serviços a fim de tomar conhecimento do prémio que foi decidido atribuir-lhe. No caso da sua concordância, que muito apreciaríamos registar, poderá ainda V. no local proceder ao cumprimento das formalidades legais que lhe possibilitará entrar na posse imediata do numerário a que o prémio em epígrafe diz respeito, bem como das respectivas insígnias. Sem mais de momento, aproveitamos o ensejo para apresentar a V. os nossos melhores cumprimentos. Atenciosamente.»
Agora, se se deseja penalizar um criador pelo facto de ter cumprido bem a sua missão de criar, então comunica-se-lhe que ganhou o prémio e que este vai ser entregue em cerimónia pública.
Desejando-se impor o castigo máximo, organiza-se uma sessão solene, de preferência fora da cidade onde se vive, convida-se o Presidente da República, alguns membros do Governo, inclui-se um almoço a seguir à cerimónia e dá-se conhecimento disso aos profissionais de cerimónias deste tipo. Não falha. Serve-se como prato tradicional, acompanhado de suculentos discursos.
Autocarros cheios de conhecedores, pouco conhecidos, muitos familiares e inúmeros desconhecidos convergem para o ponto de encontro que é a cerimónia, o acontecimento.
As forças vivas da terra aguardam que todos estejam presentes, meninas com soquetes de renda branca enfiados em sapatinhos de polimento vão-se descompondo à passagem do tempo, enquanto não chega Sexa, os bombeiros voluntários da guarda de honra transformam-se em acalorados cidadãos uniformemente mal prontos, emissários correm entre os limites do concelho e a sala engalanada a gritarem «vêm já aí», e o premiado, sem ninguém se aproximar, olha espantado tudo aquilo enquanto alguns, mais ladinos, se colocam em locais estratégicos para serem vistos no Telejornal.
«Sexa está atrasada», garante o mestre-de-cerimónias, «mas vem aí», tranquiliza. E o premiado, laureado, ou jubilado, mais se vai sentindo envergonhado, animado pela síndroma do fugitivo e à espera do fiscal das Finanças ou com receio de que o cheque não tenha cobertura.
Nisto de entrega de prémios há sempre um surdo que grita duas oitavas acima do coro: «O que é que eu disse?». E há sempre duas velhas que avançam para os rissóis e dão cabo de várias travessas neste chega-não-chega de antes de começar.
Neste momento, o premiado está quase a chorar. Se os invejosos fossem às entregas, não teriam raivinhas por causa de nenhum prémio. Pelo contrário, batiam os pezinhos de contentes.
Entrementes, já uma menina daquelas que escrevem versos num caderno escolar e tratam toda a gente por tu se enrolou com o crítico que, certo do seu encanto, se interroga por que razão o oftalmologista insiste em dizer que ele é estrábico.
Finalmente chega Sexa, acompanhado de sexas em caixa baixa, como se diz nos jornais, ou que aqui podemos traduzir por letra pequena, como já viram que está a acontecer. E chegam os encómios, os discursos, os apertos de mão, o envelope, o troféu, tudo entregue em duas ou três poses para os fotógrafos, como se fosse um replay de TV em golo bonito do programa desportivo.
Há também o casal discreto que mete na mão de Sexa, ou de qualquer das outras sexas, um papelinho. Não é gorjeta, descansem. Normalmente é pedido. E o professor, ou o Jurista, também não falta para se fazer lembrar a sexas se por acaso lá no ministério...
E, por último, há a salva de palmas e a procissão para a mesa, em U, já ocupada, ou se calhar defendida, pela GNR de farda de gala e pelos motoristas de Sexa e de sexas.
Se o prémio for merecido, faltarão neste ponto da narrativa duas coisas: a primeira é o premiado, que, alegando inadiáveis afazeres, normalmente uma entrevista ou um avião a apanhar, se desculpou e disse que não podia ficar; a segunda são os rissóis e os pastéis de bacalhau que as duas velhas e o surdo exterminaram inexoravelmente.
O prémio, meus amigos, acreditem que vos falo por experiência própria, é um castigo. Um castigo que ninguém merece, por melhor que seja naquilo que faz.

Era uma vez uma baleia

DEVE-ME TER FICADO DE PEQUENO esta ideia de ter um esconderijo. Não propriamente um sítio esconso, onde dantes se via fotografias de meninas em fato de banho, ou mesmo nuas, ou onde se brincava e escondia pistolas de madeira. Refiro-me, sim, a um local onde possa fazer o que me dá na gana, fora das vistas de todos, onde possa levar pessoas de quem gosto e com elas lá passar o tempo que eu possa ou entenda.
Tenho um esconderijo.
Não tem tesouros escondidos, nem arcas enterradas, nem meninas com véus a saltitarem nas pontas dos pés, nem flibusteiros ou náufragos perdidos, embora, com alguma imaginação, se possa lá ter tudo isso porque o meu esconderijo está situado entre grutas e a maré vazia ou a preia-mar. É um esconderijo meu e de mais cinco famílias, duas de pescadores e três de apanhadores de algas, dezenas de gaivotas em dias de temporal e mais ninguém, se não contarmos com um guarda-fiscal que nunca percebi se anda à procura de contrabandistas ou a ver a paisagem porque, ainda que apareça diariamente, arriscando o pescoço na descida dos penhascos, nunca gastou um «bom dia» com esta estranha comunidade de poucas falas, que já não pára com o que está a fazer para o olhar, em sinal de receio ou de respeito.
Nos últimos dias tenho andado fugido, neste meu esconderijo. Mas sempre muito ocupado e entretido porque, entre mergulhar e sair de madrugada para a pesca, há sempre uma lagosta ou uma santola que se apanha, e algum álcool de confiança que decilitrar, com estes homens e estas mulheres, à conversa mole, com as crianças à escuta, para já não falar das minhas releituras à luz do petromax.
Subitamente, esta rotina de saúde foi interrompida por um acontecimento que naturalmente nos mobilizou a todos. Foi um apanhador de algas que, apontando o seu barco ao meio da praia, de pé, ainda com o fato de mergulhar e fazendo gestos com a mão livre do leme, gritou.
- Está uma baleia nas rochas a seguir à praia!
E estava, de facto, encalhada na baixa-mar, muito quieta, connosco todos a olhar, sem lhe fazer mal, ou antes pelo contrário, preocupados em como a safar, apreensivos sobre se o animal estaria ou não doente.
Durante mais algumas horas, a maré vazaria ainda mais. Só depois começaria a encher e, lá para a noite, deveria haver água suficiente para a baleia e o seu esguicho partirem; pelo Atlântico, talvez direito aos Açores, ou onde mais lhe aprouvesse. E lá andámos, numa roda-viva, de barco a remos ou de fora-de-borda, para cá e para lá, a ver a baleia, muito quieta, cinzenta, a olhar-nos, e certamente a pensar o que todas as baleias pensam nestes apuros.
À noite, fui também ver a partida da baleia. Com três crianças e os seus pais, num barco de borracha, como se fôssemos um pequeno e furtivo grupo de combate de fuzileiros, mas sem desembarque previsto. Havia também os outros barcos, mais um que era o do faroleiro, que também viera ver o animal, informando-nos que já há dois dias o vira andar por ali.
No frio da noite, ficámos quietos, a olhar aquelas toneladas de carne, esperando que a comporta da maré lhe desse água para o seu calado. Mostrava, então, o animal, alguma impaciência, assim julgo eu, que por tal tomei os seus grunhidos entre dois esguichos. Por fim, começou a mover-se, nós nos barcos próximos mas a uma distância prudente, e a baleia lá se virou, mergulhou e voltou à superfície, e quando esperávamos que se fosse embora mudou de posição mas não se afastou, para surpresa de todos e desespero de alguns, em especial dos pescadores que haviam perdido uma maré, e dos apanhadores de algas também, que não haviam mergulhado para os laboratórios que lhes compram as algas secas e cujas administrações se não compadecem com histórias de baleias. A pouco e pouco, viemos todos embora, certos de que o animal não estava ferido e era livre de partir, ao que não assistiríamos por não haver lua naquela noite. Eu, cá por mim, só perdera as notícias que sempre escuto nas ondas curtas, Londres, Paris ou Washington, no meu pequeno transoceânico, e que são as novidades por que espero interessadamente quando estou no meu esconderijo.
Por isso, cedo na manhã seguinte, sintonizei para uma estação portuguesa, em onda média, e fiquei uns minutos à espera para ser informado do que se passaria no Médio Oriente, depois da visita de Shimon Peres a Marrocos, como iam as conversações EUA-URSS sobre o desarmamento, o que se passava com as sanções económicas a Pretória, que estavam os Verdes a fazer na Alemanha, o que acontecia com as taxas de juro na América e como se comportava a bolsa de Nova Iorque.
Psicologicamente, fiquei preparado pelo sinal horário. Aumentei o volume do receptor, dispus-me a escutar as notícias, naquela estação portuguesa. E tudo o que fiquei a saber, palavra, foi que um cachalote andava perdido no Mar da Palha, e uma jibóia estava à solta em Carnide, depois de fugir dum circo quando tomava banho; disseram-me também que o primeiro-ministro tinha não sei quê e que a Assembleia da República ia fazer não sei quantos.
Estava eu a interrogar-me a mim próprio, «Mas afinal o que acontece neste país e neste mundo?», quando a notícia chegou. O mais madrugador dos apanhadores de algas, de bordo do seu dinggy, gritava para nós, histérico, gesticulando:
- Voltou! Ela voltou!
A baleia tinha voltado. Não estava encalhada, estava semi-submersa, fazendo o seu repuxo e olhando-nos na nossa praia deserta, com os seus olhos marotos.
Suponho que ela nunca ouviu a história do capitão Jonas, nem nunca lhe contaram a vida da Moby Dick, nem deve ter escutado a notícia do cachalote, nem se assustou com a jibóia que fugiu do circo em Carnide, e seguramente que não sabe qual e o ano chinês em que vivemos. Acho que ela voltou somente para nos manifestar o seu agradecimento pela nossa preocupação da véspera. Voltou para nos visitar.
Eu é que, com tudo isto, fiquei na dúvida de ter acordado num livro da Beatrix Potter e estive quase para me atirar ao mar e nadar até encontrar um navio que me recolhesse, não importa sob que bandeira.

O caçador de cabeças

IMPECAVELMENTE VESTIDO, como se tivesse chegado do casamento de um filho, com o cabelo sal-e-pimenta cortado à francesa, a cheirar a Aramis a dois quilómetros e meio de distância, não perdoa e raramente falha sempre que salta sobre a vítima seleccionada.
- Oh pá, como é que tu vais? Não te lembras de mim? Vê lá bem, sou o Bento, a última vez que estivemos foi em Viseu, andámos nessas guerras todas, os anos é que não perdoam, mas tu lembras-te de mim, diz lá se não lembras!!!
Aturdida pela violência deste primeiro embate, receando ficar em falta, revolvendo milhares de caras na memória subitamente confusa, a vítima, normalmente uma figura pública da política, do desporto ou do espectáculo, hesita e cede.
- Oh pá, agora estou a ver. Desculpa, isto é tanta gente... Mas claro que me lembro, agora, como vais tu?
- Claro que havias de te lembrar. Quem vi no outro dia foi fulano.
E salta, assim, entre os dois, o nome de outra figura pública, neste caso notoriamente conhecida como adversária da vítima.
- Oh pá, agarrei-o pelos gorgomilos e dei-lhe um par de estalos à frente de toda a gente. Malandro! Sabes que me enganou a mim também? Estes gajos têm de começar a aprender. Mas isso agora não interessa. Tu o que fazes agora?
A cumplicidade, a camaradagem da mesma trincheira, acaba de ser implicitamente estabelecida. Então, lento, paciente, sinuoso mas pouco subtil, começa o discreto interrogatório.
- Mas tu estás bem, não precisas de nada? Quanto é que ganhas naquela coisa onde estás agora? Precisas de alguma coisa?
Obviamente que a presa diz que não. E ainda está a dizer que nunca esteve tão bem quando outro golpe lhe é desferido, tipo coice frontal no fígado.
- Ouve lá, tu não alinhas com os comunas, pois não?
- Eu?! Nem pensar!!!
- Claro, eu sabia, eu sempre disse isso. Oh pá, ainda no outro dia tive uma discussão lá em cima por tua causa. Eu é que te defendi, e disse-lhes que eu é que te conhecia, que tínhamos andado juntos nestas guerras todas e sabia muito bem que eras um gajo porreiro.

Lentamente, vai também impondo o seu discurso e através deste a sua desinteressada amizade. Mas o sorriso que a vítima agora esboça logo se esboroa face à próxima pergunta, um directo ao nariz!
- E o partido, como é que está? Aquilo vai para a frente, ou quê?
- Qual partido?
- Tu não estás lá? Eu bem dizia! Ainda ontem eu dizia que o gajo, desculpa lá que o gajo és tu, mas a gente fala assim, tás a ver, mas ainda ontem eu dizia que o gajo é demasiado honesto para se meter naquela bodega
.
Quase não dá tempo de resposta. Pergunta, responde, tacteia, procura obter informações que utilizará em outros assaltos futuros a outras presas seleccionadas. Esta, que se encontra agora nas suas garras, tenta iniciar o movimento de fuga:
- Bom, tenho de ir andando. Tenho gente à espera.
- Homem, também eu. Olha para ali, é a carrinha lá da fábrica e trouxe aqueles macacos todos, que me pediram para eu lhes dar boleia. Íamos a passar quando eu disse: «pára que tenho ali de dar um abraço àquele meu amigo.»

A medo, a vítima olha para o carro designado. Várias cabeças, todas de gente sorridente, espreitam das janelas e chegam a acenar quando o sacrificado olha. Há mesmo um que salta, vem junto dos dois homens especados e diz à presa seleccionada:
- É só para o cumprimentar. Amanhã, lá em cima, já posso dizer que estive consigo.
Ríspido, altivo, Bento, o assaltante de figuras públicas, diz com voz forte:
- Eu não dizia que éramos amigos? Tás a ver agora?
E para a vítima:
- Desculpa lá este gajo. Vêm da província, vêem um tipo conhecido e vêm logo chatear. Queres tomar um uísque?
- Não, hoje não posso
- resiste a vítima -, tenho gente à espera.
- Homem, um uísque velho!?
- Não, sinceramente que não hoje não posso. Fica para outra vez.
- Houve
(*)
lá uma coisa: lembras-te da minha miúda mais velha, a Mira, assim de grandes olhos azuis como a mãe? Oh pá, está um traçalhão, mas é uma miúda afinada, e uma estampa, da cabeça aos pés, não é nenhuma dessas galdérias que andam por aí. Tu não sabes de nada para ela? Fala línguas e escreve à máquina.
- Não, não sei de nada. As coisas, como sabes, estão muito difíceis.
- Houve
(*)
lá, mas achas que se eu a mandar falar com sicrano e disser que é da tua parte, ele não desenrasca nada? Se for preciso, a miúda até pode entrar para o partido...
- Experimenta. Tenho de ir agora. Experimenta. Diz que mandas a miúda da minha parte e adeus.

Liberta, finalmente, a presa. Estuga o passo, acelera, perde-se na multidão, murmurando de si para si que tem de perder aquela mania de andar a pé, cansada de desconhecidos impertinentes.
Já na carrinha, com os conterrâneos, o caçador de cabeças senta-se, muito empertigado, puxando o casaco brilhante, de alpaca, esticando-o atrás para não se amarrotar. E olhando em frente, pelo pára-brisas, sem se dirigir a ninguém em particular, diz alto e bom som:
- Eu não dizia que conhecia o gajo? De ginjeira! O caramelo ficou à rasca quando me viu, mas recompôs-se e ainda não foi desta que me pagou os cinco contos que me deve.

(*) A razão destes dois “Houve” (em vez de “Ouve”) está explicada numa outra história, intitulada «Os agás mudos são uma gaita», a publicar em breve.

A surpresa da velhice

ENTROU NO HOTEL com passo firme, sem ser apressado, porque sabia que estava adiantado ainda uns minutos. Atravessou o lobby e foi à tabacaria, comprou um maço de cigarros, espreitou os títulos dos jornais estrangeiros do próprio dia, acabados de chegar, leu-os mais em pormenor com aquela estranheza de sempre. «Por que razão o que acontece no mundo e diz respeito a todos não acontece em Portugal, ou porque é que os jornalistas portugueses entendem que nada tem que ver connosco?». Efectivamente, nenhum dos jornais portugueses falava, em primeira página, daquilo que os seus congéneres de outras capitais, à mesma hora e no mesmo continente, entendiam que podia dizer respeito aos seus leitores.
Acabou por comprar a edição de Zurique do Herald Tribune e foi sentar-se numa poltrona do átrio do hotel, tendo o cuidado de escolher a que ficava de frente para os elevadores de modo a que pudesse ver e ser visto, com facilidade, quando o seu filho saísse de mais uma sessão de squash.
Combinara encontrar-se ali com o filho e levá-lo a jantar, de modo a que pudessem com tranquilidade, como dois bons amigos, conversar da vida em geral e da vida de cada um, de filmes e de exposições, de livros, de touros e de futebol, de aulas, de profissões e do primeiro emprego. No fim de contas, uma conversa normal entre dois homens amigos, um nos quarenta e outro nos dezoito, com muito de comum entre si, para além do facto de serem pai e filho.
Começou por ler a primeira página, e depois a última, e reparou que passavam quinze minutos sobre a hora combinada. Antes de abrir o jornal, conferiu o seu relógio de pulso com o do hotel, cujo mostrador ficava sobre as portas dos elevadores. Foi nesse instante que reparou na rapariga.
Era loira, bem lançada, tinha as pernas bronzeadas e os olhos verdes. E sem dúvida que tinha um belo sorriso, porque não havia hipótese de se enganar quando teve a certeza que era para ele que ela sorria.
Retribuiu, abriu desajeitadamente o jornal e procurou a página das histórias aos quadradinhos. Por cima da margem superior do jornal, meio centímetro apenas, para não ser notado, procurou a figura delicada e saudável, simpática e despretensiosa que lhe sorrira momentos antes.
E quando os olhos lhe acertaram, zás - ali estava de novo o sorriso, simpático, simples, comunicativo, um «olá» de quem gostaria de conversar.
Mergulhou numa sucessão de rápidos pensamentos sobre o que, na surdina cerebral em que cada um fala consigo próprio, classificava genericamente, de «porca de vida».
Porquê, interrogava-se, haveria de ter uma sorte daquelas logo na noite em que esperava o filho, para o levar a jantar, no hotel em cujo ginásio jogava squash com colegas e amigos? «Porca de vida» era a interjeição que, sem explicar nada, lhe dava a resignação para o azar em que aquela sorte, dadas as circunstâncias, se transformava. Aquele maldito sorriso convidativo era o pior que lhe poderia acontecer para acabar um dia como aquele.
Assaltou-o um pensamento maldoso. Poderia, talvez, avançar, ir ter com a jovem, convidá-Ia a sair, deixar um recado na recepção com uma desculpa para o filho. Mas receou ser apanhado em pleno acto de sedução pelo rapaz, ainda com o cabelo molhado do duche, saco e raqueta na mão. Portanto, resignou-se a continuar a esperar. Mas antes de voltar ao jornal atirou-Ihe de volta com mais um sorriso, que era um misto do «tenha paciência» que se dá aos pobres e de «que quer você que eu faça?».
Leu duas notícias, acendeu mais um cigarro, voltou a olhar para o seu próprio relógio e para o do hotel e começou a impacientar-se - passavam quase vinte e cinco minutos da hora combinada com o filho para se encontrarem e irem jantar.
Olhou à sua volta, observou, noutro jogo de sofás, uns suecos que conversavam, um casal de velhos americanos, ele com umas calças de fortes quadrados vermelhos, seguiu com os olhos o groom que levava um nome num quadro preto de alguém que era chamado ao telefone e, sem mais para onde olhar, acabou por fixar a jovem.
Esta não lia, olhava ao redor, mais com um ar de disponibilidade do que propriamente com o aspecto de quem espera alguém. Tinha uma linda linha de pescoço, com o cabelo apanhado num elegante carrapito, tinha um corpo flexível onde nada estava a mais nem a menos, tinha as pernas mais lindas que vira nos últimos tempos e, sobretudo, tinha aquele sorriso luminoso que o encandeava novamente. Voltou a retribuir o sorriso, pouco resignado.
Poderia voltar mais tarde, pensou então, depois de se despedir do filho, gratificar o boy ou o recepcionista para que lhe dissessem em que quarto a poderia encontrar, que nome tinha, quando se ia embora. Achava que esta seria a melhor solução. Faria isso!
Foi nessa altura que as pernas bronzeadas se destraçaram, aquele corpo se desenrolou e aquele sorriso de holofote se começou a mexer na sua direcção.
Baixou o jornal sobre os joelhos e ficou num misto de êxtase, quer olhando o animal, meio pantera meio gazela, a caminhar para si, quer olhando o elevador de onde a qualquer momento o filho poderia sair.
- Olá - disse o sorriso que também tinha voz.
- Olá - respondeu, sem encontrar nada para dizer.
- Olhe, eu sei que você é o pai do Pedro. Quando ele vier, diga-lhe que a Susana esteve aqui e que o espera onde ele sabe, depois de vocês jantarem. Ciao.
Não respondeu. Ficou-se a vê-la sair pela porta giratória, com a sensação de ter sido atropelado pela fanfarra a cavalo da Guarda Republicana.
- Desculpa lá o atraso - disse-lhe o filho poucos minutos depois.
- Estás com uma cara esquisita, que é que tens?
- Nada, não tenho nada. Estava só a pensar que a velhice nos apanha, de facto, de surpresa.
E lá foram jantar à pressa, porque, a seguir, o filho tinha muito que fazer.

A vingança dos Telles

EM 25 DE ABRIL DE 1974, soube que estava em curso um golpe quando o filho lhe telefonou, alarmado, às oito e dez da manhã. Informou do facto a mulher, benzeu-se e rezou duas ave-marias e dois padre-nossos por intenção de alguns amigos que tinha no Governo e de outros que trabalhavam na Polícia. Depois, ligou o rádio, vestiu-se e ficou de colete, corrente de ouro atravessada no ventre chato e pérola na gravata negra, a ouvir as notícias da telefonia, sem dizer uma palavra, balançando o sapato bem engraxado e feito à mão, por medida, ao compasso das marchas militares. Só voltou a falar quando a mulher, subitamente apreensiva, lhe perguntou em lágrimas e com tremuras na voz:
- E a ti, a ti que irão estes malandros fazer?
- A mim, nada querida. Que hão-de eles fazer? Sim, que hão-de eles fazer?! Sou um empregado bancário irrepreensível, com uma discreta posição na Legião, nada mais... Que queres tu que eles façam, filha?! Sim, que hão-de eles fazer?!
Calou-se ao pensar que até ali, desde o telefonema do filho às oito e dez da manhã, e já eram quase horas de almoço, não tinha sequer pensado em ir ao banco ou apresentar-se na Legião.
Por um momento, ficou na dúvida se deveria ir ou não ir à Legião. Se os revoltosos ganhassem, seria pior a emenda que o soneto. Mas se perdessem, poderia prejudicar-se.
- Ó Telles, onde raio se meteu você quando foi preciso lutar pela causa?
Não. Não iria ao banco. E decididamente, também não poria os pés na Legião. Os rapazes da DGS lá estariam para resolver a situação e, sem dúvida, que a Senhora de Fátima os não iria desamparar em mais aquele momento de aflição.
Foi com estes pensamentos reconfortantes que vestiu o casaco, pôs o chapéu e saiu para a mercearia que ficava a duas portas da sua casa, naquela rua esconsa de bairro social pacato. Comprou conservas e outros géneros que lhes durariam até ao Natal daquele ano da Graça do Senhor, simultaneamente ano I da revolução que não chegaria a consumar-se, segredo que não seria estranho, naquela hora, à Senhora de Fátima mas que ele, Justino Telles, não podia na altura adivinhar.
No dia 11 de Março de 1975, quase um ano depois da data dramática vivida junto ao aparelho de rádio, com as persianas corridas, Justino Telles, sessenta e três anos, funcionário superior de um respeitável banco que acabava de ser nacionalizado, tomava uma decisão que comunicaria à mulher no momento em que ambos puxavam até aos ombros as cobertas da cama D. João VI, com rosários de madre-pérola e crucifixos de prata a protegerem o alçado da cabeceira. Com a voz dramática das resoluções irreversíveis, Justino anunciaria, inabalável:
- Cristina, vou reformar-me.
Um suspiro cansado, mas de alívio, antecedeu a resposta da senhora de Telles, que, com os olhos a brincarem nas sombras projectadas no tecto pelas franjinhas do abat-jour, concordaria:
- Ó filho, ainda bem que o queres. É o melhor que fazes.
No dia seguinte, pela manhã, silencioso e discreto, reverente e obrigado, Justino Telles, alegando um coração fraco e uma vida de dedicação, saía as portas de bronze pesado que atravessara durante trinta e cinco anos, estugando o passo miudinho até à esquina da Rua do Comércio, onde, finalmente liberto dos pesadelos dos plenários e do sobressalto das reuniões, não resistiu a enfiar melhor o chapéu na cabeça, afirmativamente, ao mesmo tempo que por entre dentes e em surdina gritava:
- Bolchevistas!
A 25 de Abril de 1975, Justino Telles, apesar de instado por alguns amigos e até pressionado por um telefonema de seu filho, que lhe ligara do Brasil, recusou-se a votar. Não entendia nada disso dos votos úteis, não percebia como velhos companheiros de ideais queriam agora que ele votasse nos socialistas. Por isso, naquele dia em que todos gritavam ser o dia das primeiras eleições livres no último meio século da história portuguesa, em colete, de corrente de ouro atravessada sobre o ventre chato e pérola no negro da gravata de seda, Justino Telles decretou:
- Hoje não saímos. Com esta cambada à solta pode acontecer alguma bernarda.
Era o dia 25 do sombrio Novembro de 1975 quando, na salinha de naperões, xailes e Última Ceia de casquinha, Danny Kaye sorriu a Cristina e Justino Telles. Ambos ganharam alma nova. Seria aquele o Dia do Juízo, finalmente se ajustariam as contas em atraso por todos os desmandos, confusões, desacatos que haviam sido cometidos até àquele santo dia no País, por indivíduos que não mereciam ser portugueses, a soldo de inconfessáveis desígnios do estrangeiro.
Foi de mãos dadas e com um sorriso de paz nos rostos que Cristina e Justino, os Telles, se beijaram-até-amanhã e apagaram a luz, protegidos por um recolher obrigatório que impedia os lobos de andarem à solta.
No dia seguinte, no entanto, Justino apagaria o televisor num rompante, proclamando alto e bom som a conclusão filosófica que ainda hoje o norteia e a que chegara naquela data:
- Malandros! Estão todos feitos uns com os outros. Isto foi apenas uma dissidência, não é mais do que uma luta entre bandos rivais. Mas estão todos feitos uns com os outros, ai isso é que estão. Não há dúvida que estão feitos uns com os outros, não senhor! São todos uns bolchevistas!
E até hoje, leitor fiel de um único matutino e atento perscrutador de perspicaz semanário que Justino Telles considera, acertadamente, ambos nascidos na resistência à fúria que o comunismo internacional fizera desabar sobre a sua tranquila existência, aquele pacífico, impoluto e respeitável cidadão se recusou a participar em qualquer acto que tenha que ver com o que uns chamam democracia mas que ele se recusa a classificar de outra forma que não seja «esta grande palhaçada», segundo suas próprias palavras. Palavras suas, mas prudentes, que apenas se arrisca a proferir, bem sonantes, entre as quatro paredes de sua casa, ou a trocar com o barbeiro que há perto de quarenta anos, todas as semanas, lhe faz um caldinho.
Mas a sua vingança máxima é religiosamente cumprida (quando), no televisor, surge a imagem de um qualquer primeiro-ministro, dos muitos que neste país tem havido, e que sempre entendem ter algo de importante a comunicar aos Telles, daquela rua esconsa de bairro social pacato.
Felino, saltando do sofá sobre o televisor e fazendo abater o seu punho, rápido sobre o botão que desliga o aparelho, fulminante e temível, como num golpe de caraté, o velho berra:
- Vai para a Sibéria, bolchevista!
Fica, depois, tranquilo, triunfal como um toureiro à saída dum passe de peito, mas serenando à medida que encontra e decifra o sorriso suave com que sua mulher, Cristina, comemora a vitória e lhe aplaca a ira.
E assim, governo após governo, primeiro-ministro após primeiro-ministro, Justino Telles grita e actua, tonitruante, cortando-lhes, cerce, o pio.
Até hoje, inclusive, nenhum primeiro-ministro lhe escapou.

O mordomo

O OLHAR NÃO SE FIXA EM NADA e raramente é possível encontrá-lo. Vagueia pelas pessoas, ao nível do peito, escorre pelos móveis, não se detém num único objecto. Fala impessoalmente, como se se tratasse de coisas que interessam a todos em geral menos a quem as diz, que resta distante, cumprindo uma formalidade ou sujeitando-se a uma obrigação.
Um agradecimento não encontra qualquer aviso de recepção. Parece desconhecer pró-formas como «não tem de quê», «ora essa», «por amor de Deus». E como se outra coisa não se pudesse esperar, sendo o agradecimento muito mais correspondido por um registo de crédito do que por qualquer outra coisa.
Indispensável a qualquer hóspede de passagem, ou visitante breve daquela residência que serve há trinta anos, aquela figura austera e amaneirada, esguia e escorregadia, sempre que possível hostil, constituiu-se numa ameaça permanente e, simultaneamente, numa aliança indispensável.
A verdade é que se pensa sempre, pelo menos, duas vezes, antes de recorrer aos serviços daquele mordomo, seja para o que for.
Sorriso é substantivo que traduz um estado de espírito que nunca ninguém se recorda de lhe encontrar, nem jamais foi confundido com o esgar de superioridade que nunca se esquece de assumir, arrogante e impiedoso, olimpicamente displicente, como quem se encontra em posição de onde se não pode perdoar.
Há três décadas que serve embaixadores que passam, com os seus móveis, as suas fotografias, os seus quadros, as suas famílias, por aquela bela casa de elegante avenida de uma das mais importantes capitais da Europa. Sabe que os embaixadores passam, e que ele fica.
Por vezes os embaixadores voltam, de visita ou de regresso, e sempre ali o encontram, na mesma postura, à mesma distância, sem um frémito, cortês tanto quanto mandam as regras, mas mais nada do que isso, pronto para o que for possível ou para os seus convenientes esquecimentos, movendo-se e falando o mínimo indispensável. Dir-se-ia que sempre atento; diria eu que nunca venerador e muito menos obrigado.
Embaixadores são, em regra, homens de servir. Servem os que estão hoje, depois de terem servido quem esteve e antes de servir quem vai estar. Não é este parágrafo uma crítica. Apenas se trata de uma constatação sem a qual não seria fácil estabelecer raízes ou razões no comportamento do mordomo. Também ele sabe que essas são as regras dos seus temporários senhores. Também ele sabe, como os seus amos passageiros, que, afinal, patrão é apenas um: o Estado e mais nenhum.
E o Estado nunca o mordomo ofenderá, ao contrário de alguns embaixadores mais dados aos fogos-fátuos das paixões políticas e menos açaimados que não possam, quando a oportunidade se lhes depara, morder a mão que os alimenta.
Mas o mordomo fascina-me. Já vai para quatro embaixadores que nos conhecemos, se o tempo assim se pode medir, e nunca nele encontrei o mínimo deslize à caracterização que procurei fazer nos primeiros parágrafos deste texto.
No entanto, um destes meus amigos embaixadores contou-me uma história que penso que nos proíbe de admitir quaisquer deslizes, muito menos dislates, no futuro deste nosso querido mordomo, servidor estrangeiro do nosso Estado apenas no que respeita a ménage já se vê.
Ocorreu o episódio quando a Europa olhava para Portugal como uma república popular e pensava que as suas embaixadas seriam perigosos antros disseminadores do marxismo-leninismo. Houve, então, uma manifestação da extrema-direita que passou diante do portão da embaixada, assinalada por reluzente placa de latão na elegante avenida onde se encontra.
O mordomo, ao que me diz o meu amigo embaixador, pelo que lhe iria na cabeça, e no coração, possivelmente lamentaria no seu íntimo a impossibilidade de se incorporar na manifestação - tanto mais que, ao que dizem as más-línguas, é ele dado a jovens viris, fora das horas de serviço, é bom de ver. Possivelmente foi em alvoroço que cumpriu a ordem do embaixador:
- Vá lá baixo e certifique-se de que o portão está bem fechado e os carros cá dentro.
Ao se encontrar junto às grades, um pequeno grupo de manifestantes que saiu do corpo central do cortejo gritou palavras antiportuguesas e anticomunistas, ao mesmo tempo que ofendia gravemente a dignidade do seu compatriota, que tomavam por português.
Diz o meu amigo embaixador que nem nessa ocasião algo de humano aconteceu, saiu de dentro daquela figura esguia e negra. Conta-me o embaixador – que a tudo assistiu protegido pelas venezianas duma das janelas do rés-do-chão – que nem uma palavra, gesto ou sorriso aquele homem libertou.
E só se apercebeu de como os impropérios tanto tinham magoado afinal um correligionário de quem os proferiu quando finalmente o encontrou, nas águas-furtadas, penteando repetidamente o galgo afegã da filha do embaixador, com os óculos embaciados e as lágrimas a correrem-lhe pela cara.

Sorriso de virgem birra de arcanjo

É UM BOM QUADRO, embora não tenha uma qualidade por aí além e o seu valor esteja necessariamente diminuído pelo facto de não estar assinado. A olho nu, pode ver-se que é da Escola de Madrid, do século XVIII – em numeração romana, como sempre convém quando se escreve sobre pintura ou qualquer das outras artes.
A cena representada é uma Virgem com um arcanjo e a curiosidade reside no pormenor que, para nós, deixa de ser um detalhe quando passa a dominar todo o quadro – com as suas rosquinhas de carne cor-de-rosa muito perfeitas, com as suas mãozinhas papudas a segurarem um arco e flechas, o arcanjo está a fazer beicinho, desfazendo em lágrimas as suas bochechas ruborizadas.
O contraste entre a expressão dolorosa do arcanjo e a serena beleza sorridente da Virgem é notável – e como o quadro não tem nome, ou título, é praticamente impossível compreender o que representa, o que pode constituir um interessante desafio à imaginação de quem o possa admirar em casa do meu amigo que o adquiriu num adelo de Segóvia.
Convidamos, assim, o leitor a acompanhar-nos num exercício que, sem dar prémio, pode ser um excelente passatempo – encontrar um título para aquele quadro de um anónimo espanhol do século XVIII, em numeração romana, como convém.
Cá por mim, estou com uma ideia fixa – o arcanjo está com uma birra dos diabos ou apanhou uma palmada por alguma coisa que não devia ter feito. Imagino também que a Virgem o proibiu de atirar setas a quem ele queria, possivelmente por ter partido algum vidro, ou ainda que não o tenha autorizado a voar naquele dia com as suas asinhas, talvez por ter feito chichi na cama.
Penso que os arcanjos têm caminhas, como todos os outros bebés, e que, apesar de não terem sexo, terão qualquer coisinha que sirva para fazer chichi. As caminhas obviamente que não têm grades, porque os arcanjos podem, com as suas asas, suspender uma queda, mesmo que esta ocorra em pleno sono. Mas se me recuso perder tempo discutindo o sexo dos anjos, já me detenho a imaginar a razão de ser do choro e da atitude contrariada do arcanjo, que, por se tratar de quem se trata, não pode deixar de estar com o demónio no corpo.
Para mim, o quadro é uma surpresa, tanto mais que sempre ouvi dizer que os mortais como nós se devem dar bem entre si, «como Deus com os anjos», o que é um exemplo a seguir, tipo norma de execução permanente, e que neste quadro ou foi esquecido pelo pintor ou desrespeitado pelos protagonistas.
Naturalmente que o quadro põe igualmente em causa os métodos pedagógicos do Paraíso ou os processos educativos da Sagrada Família. Mas que naquele infantário divino há arcanjos que choram, não restam quaisquer dúvidas.
O sorriso da Virgem é tolerante sem deixar de ser em nenhuma circunstância firme. É um sorriso tipo «chora menino chora, que o pirolito vai-se embora» ou uma legenda género «de pequenino é que se torce o pepino».
Uma outra hipótese – que o arco e as flechas sugerem, – é a de o arcanjo ali representado ser o Cupido, e que uma das flechadas deste irrequieto personagem não tenha levado o melhor caminho, espetando-se contra a moral vigente.
Enfim, o mistério do quadro é de difícil dissipação. Impossibilitado de investigar, não procedo, cá por mim, a mais especulações. Por isto ou por aquilo, não restam dúvidas que o arcanjo está a chorar, e a ter de se dar um título àquele quadro de anónimo espanhol do século XVII, (em, romano, sempre, sempre) eu ia por este Madona Sorri a Birra de Arcanjo.
Ou será que não pode haver, também, anjos mal-educados?

A senhora do WC (*)

SEMPRE EM SILÊNCIO, exerce o seu mister onde os outros se aliviam ou se refrescam. Cabisbaixa, faz um eterno tricô e só o interrompe quando ouve, ou pressente, passos na escada de mármore. Espera, depois, pacientemente, que se aprestem para estender um toalhete de linho imaculado às damas e cavalheiros que o requerem.
É a senhora do WC.
Utilizando para tal uma viuvez súbita e pós-menopausa, a vida atirou-a para aquele lugar, para aquela bata negra de cetim, para o ar composto e recatado, quase monástico de olhos no chão, que as circunstâncias exigem .
Inicialmente, custou-Ihe. Horas longas de choro acompanhavam-Ihe as noites solitárias e o filho com o curso por acabar era a sua anfetamina, o pai da sua coragem.
«Roubar é que é pecado», repetia muitas vezes a si própria, quando chegava ao ponto de buscar algum conforto e certa dignidade no trabalho que lhe deram. E nas vizinhanças de sua casa procurava não dar explicações sobre o trabalho que tinha, mesmo quando os preconceitos acicatavam a curiosidade alcoviteira sobre o porquê dos tardios regressos a casa, diariamente.
A pouco e pouco, os anos foram-Ihe aliviando o fardo e a necessidade envergonhada. Gradualmente, por iniciativa própria, e para alargar os proventos das gorjetas, começou a passar por uma florista barata, de mercado, e a comprar rosas e cravos, pois sempre havia um interessado - não para pôr na botoeira, que é hábito banido entre nós - numa flor para uma dama em jantar ou almoço de estreia.
Depois, com autorização do patrão, arranjou a sua caixinha do tabaco, com maços nacionais e estrangeiros, que sempre encontravam quem os quisesse. E ainda que a prudência e a decência lhe aconselhassem os olhos baixos e gestos comedidos, que ainda hoje utiliza, soltou os ouvidos e a imaginação e começou a viver com deleite os sonhos dos outros que à frente do espelho lhe começaram a confiar, quer em relatos, desabafos ou queixas próprias e directas, quer em conversas de discurso indirecto, antes de retomarem o palco que era o piso atapetado onde brilhavam luzes e cristais daquele restaurante, por cima da cabeça da senhora do WC.
Muitas mulheres lhe fizeram confidências, muitos homens lhe comentaram namoros e arrufos, amigos, sócios, adversários. Com o silvo permanente das torneiras e as suas intermitentes descargas, à meia-Iuz e com um eco marmóreo que convidava ao sussurro, aquela sua sala, a cheirar a desinfectante, a alfazema e a flores, convertera-se, a pouco e pouco, num confessionário, onde os gestos reprimidos, os sorrisos contidos, as palavras comedidas acabaram por conquistar confiança, com a vantagem de ali ninguém impor penitência a ninguém.
Houve mesmo uma altura em que gostou do seu trabalho. A malha que tricotava a duas agulhas, o calor ou o fresco, aquela ausência permanente de luz que não dava indicação das horas, lhe acabavam, por constituir uma concha a que se remetia, protegida de tudo quanto de mau havia cá em cima e lá fora.
No entanto, sempre que se proporcionava, repetia para quem a quisesse ouvir que só ali estaria até o filho acabar o curso. Depois, ele tomaria conta da mãe. Dizia isso para si mesma, também, mas principalmente para os outros, para que não deixassem de a tratar com consideração, ainda que sabendo que estava ali às gorjetas e aos almoços e jantares quentes, além de uns restos que sempre levava para o filho, e da margem de lucro dos cigarros e flores. Era um cenário de ameaça que perfilava para os outros na sua vida sem estratégia.
Hoje, o filho teve tempo de concluir três cursos seguidos, com mestrados e pós-graduações. A senhora ali continua, já completou as bodas de prata a estender toalhetes e a vender rosas e cigarros, que cravos já ninguém leva. A pouco e pouco, deixou de falar no filho, nunca falou em netos nem em ninguém que lhe seja chegado. Passou a fazer conversa de circunstância, com o cuidado de não cruzar desabafos e inconfidências que ali, no seu banquinho, continua a escutar.
No outro dia, com a confiança respeitosa ganha ao longo dos anos, com a necessidade de ser alguém que no nosso íntimo não se abafa facilmente, olhou um velho cliente e, orgulhosa que só visto, disse:
- Sabe o que aconteceu ao meu filho? Está no Governo! - E um longo sorriso silencioso respondeu à estupefacção.
E ao lhe ser perguntado sobre quem era o filho, apenas declarou:
- Ora, não interessa. Ele tem vergonha de ser o filho da senhora do WC.

(*) Esta história é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

O técnico da electrónica

AQUELE QUE MAIS IMPRESSÃO LHE CAUSAVA era o empregado de café, não lhe conhecia bem a história, mas sabia aquela que corria e conversava com ele todos os dias. Durante horas seguidas, o rapaz era normal, correcto, simpático, inteligente, divertido. De repente, sem pré-aviso, ora por fracções de escassos minutos, ora por períodos longos, a cabeça disparava-se-Ihe.
-... E fiquei assim porque a rapariga me deitou uns pozinhos no café e mos deu a beber. A minha mãe é que tinha razão e bem me avisou. E logo ela vem ver-me e traz-me cigarros. E enquanto não vem, deixa-me a fumar um dos seus...
De repente, sem alteração de voz ou de expressão, normalizava e falava com ponderação e vivacidade de todas e quaisquer coisas do nosso mundo.
Havia, também, a menina dos cosméticos. Durante todo o dia, pintava-se, vendo-se num espelho minúsculo, vestia e despia pequenos e miseráveis casacos de malha, e devagar, saracoteando-se, passeava pelo jardim ou pelo pátio, como se fosse uma miúda, caricaturando uma mulher provocante. Também lhe falava e, normalmente, ela dirigia-se-Ihe quase sempre com uma pergunta a que acabara por se habituar:
- Queres ser meu namorado?
Fingia que não percebia e entregava-se, afincadamente ao seu trabalho técnico, montando a máquina electrónica que a sua empresa lhe mandara pôr a funcionar naquele manicómio.
Distraía-se, também, do seu trabalho para observar o bailarino. Velho, calvo, com o cabelo que lhe restava, muito preto das tintas, e caindo em farripas sobre os ombros. Com os olhos cheios de rímel e a boca em coração de bâton, passeava pelo recreio tomando balanço para se lançar em sucessões de piruetas e de tesouras que o seu corpo pesado falhava, sem que os movimentos correspondessem aos passos que a sua imaginação persistia em criar, sem par, nem palco, nem público, e sem alguém que se preocupasse com ele, velho bailarino, retirado, perdido e patético no meio de pacíficos tontos entretidos com as suas coisinhas.
Detestava os velhos. Pareciam um quadro. Esquálidos, mal vestidos, sentados em bancos, batiam com os pratos de alumínio nas mesas dos refeitórios ou ficavam horas perdidas balançando os corpos para trás e para a frente, num vaivém absorto, com um olhar de quem não está cá.
Sentiu-se estranho, pela primeira vez, ao terceiro dia. Montara fios e mais fios, experimentara uma secção da máquina electrónica de cuja firma era técnico, tivera o seu tempo de observação dos loucos, saíra para tomar café ali próximo e sentia aquela angustiosa confusão, quedando triste e acabrunhado durante o resto do dia. Na rua, onde ao redor do hospital passeavam os mais inofensivos, descobrira a sua incapacidade de distinguir entre loucos e sãos. À medida que se afastava do hospital, ia fazendo esse teste. Fixava esta ou aquela pessoa e não conseguia distinguir a diferença dela para aqueles com quem passava o dia.
Nessa noite não conseguiu dormir.
Um enfermeiro desafiou-o a acompanhá-Io ao pavilhão de segurança:
- Venha ver um gajo que matou a mãe e os três irmãos.
Sentado no catre, em pijama, era um menino forte e louro, simpático e inofensivo.
- Estrangulou todos. A mãe, matou-a na cozinha. Os irmãos mais pequenos, na cama – explicou o enfermeiro.
Não conseguiu trabalhar mais nessa tarde. A cena do rapaz louro e louco a assassinar a família não o abandonou. Nem as piruetas do bailarino ou as provocações da menina dos cosméticos ou as conversas do empregado do café o distraíram. À noite, quando depois de jantar fixou a mulher, sem falar também, não encontrou qualquer diferença entre ela e as mulheres que durante o dia passavam por ele no hospital. Quando se despiu para se deitarem ele não estranhou estar na cama a observar e à espera do corpo da menina dos cosméticos.
Foi um grande dia no hospital. Dois ministros, dois, visitavam aquilo que persistem em classificar de complexo, inaugurando os melhoramentos naquilo que não desistem de descrever como estabelecimento hospitalar. Eram melhoramentos várias vezes inaugurados, mas que estes dois ministros, dois, não desistiam de reivindicar para o seu Governo.
O director guiava a visita, mostrando os aparelhos, explicando as secções, descrevendo sumariamente um caso ou outro.
Estavam, agora, no pavilhão de segurança. Com curiosidade mal disfarçada, espreitavam o menino que matara a família. E, de longe, riam-se da menina dos cosméticos que alguém se esquecera de fechar e que insistia em provocar tão Iuzida comitiva.
- E agora – disse o director – um caso interessantíssimo. Um homem que enlouqueceu aqui. Matou um enfermeiro e deixara a mulher estrangulada na cama. Era o técnico de electrónica que estava a montar a máquina que voscelências viram há momentos. De pijama, com os pés nus a baloiçar, sem tocar no chão, sentado de través no catre, sorriu para os olhos que se sucederam no óculo da porta. Era, de facto, impossível dizer a diferença.

A vida de Maria

QUANDO MARIA ALVES SAIU DA IGREJA pelo braço de seu marido, toda a gente entendeu que ela se havia casado bem, apesar de três ou quatro sorrisos irónicos e outros tantos olhares maliciosos de quem não acreditava que pudesse dar bom resultado uma jovem fresca e bonita, como aquela, desposar um homem mais velho do que o próprio pai.
As mulheres, já sem ilusões, todas elas mais ou menos mal-amadas, aplaudiam o casamento por verem nele a segurança, o bem-estar e a importância social que não haviam recebido em troca de uma ninhada de filhos e de umas carícias mal-amanhadas que eram, afinal, muito diferentes das que haviam sonhado.
Os homens, mais maliciosos, ficavam-se pela inveja surda daquele corpo seco e flexível, daquele sorriso branco e doce, daqueles olhos que nem sempre escondiam uma curiosidade que muitos gostariam de satisfazer.
Só os mais jovens da aldeia, homens e mulheres, tentavam antecipar as frustrações e ânsias, que, convertidas em suspiros, seriam quase gemidos, largados no leito matrimonial; esses não agoiravam nada de bom a quem, pensavam eles, merecia os instintos bem tratados e o corpo satisfeito, com carinho, mas também com vigor.
Durante anos, o pai de Maria Alves negociara aquele casamento. Ele e o futuro genro falariam dela, observando-a, seguindo-lhe os gestos e apreciando-Ihe as atitudes inocentes como quem acompanha, enternecidamente, as evoluções de uma potra prometida.
Solteiro impenitente, ganhando cada vez mais dinheiro na compra e venda de terrenos, na construção civil, nas madeiras, macambúzio em casa, mas de ostentação fácil, o noivo tinha uma única paixão – beber e dançar, se possível, até às tantas.
Por isso, a pouco e pouco, Maria Alves foi-se encontrando sozinha, nas noites da casa grande à beira da estrada que o marido fizera construir para estrearem uma vez casados.
A mãe dava-Ihe conselhos, recomendava serenidade, fazia-Ihe ver as vantagens e garantia-Ihe que os homens eram todos iguais, razão pela qual ela não deveria recriminar em exclusivo um homem, que era seu marido, que não lhe faltava com coisa alguma e lhe dava uma vida que ninguém mais lhe poderia dar.
Mas Maria Alves deveria, certamente, ter dúvidas quanto à igualdade dos homens, porque por vezes o seu olhar se demorava mais num ou noutro jovem da sua idade, a quem, sempre que possível, espicaçava com a sua desenvoltura até à fronteira do permitido pela mentalidade de uma povoação onde ainda há irmãos que se matam à sacholada, vizinhos que se guerreiam a tiros de caçadeira e amantes que assassinam com veneno para os escaravelhos.
Uma noite, dormia de bruços, com uma perna nua fora das cobertas ligeiras porque se estava no Verão, quando o telefone tocou naquela estridência insultuosa das desoras.
«É para informar que o marido da senhora foi transportado para este hospital com um ataque de coração», disse uma voz grosseira e impessoal.
Ficou quieta, sentada na cama, com as pernas cruzadas, sem saber que fazer. Telefonou à mãe e, ainda antes de o Sol nascer, partiu com os pais para a cidade próxima, em cujo hospital distrital o marido destilava o resto do uísque da véspera e secava as coronárias que haviam dado de si.
Maria fora, no meio dos pais, com o aspecto de uma órfã, porque os seus poucos anos assim transformavam a precoce atitude de viúva que sua mãe recomendara. O que mais a surpreendera durante a viagem, e ao longo daquela noite, foi não ter sentido pena do marido, antes pelo contrário, ter chegado a pensar que aquilo que lhe sucedera fora bem feito.
O homem recuperou lentamente, com os médicos a recomendarem prudência nos esforços e a exigirem o fim das noitadas, no que foram bem sucedidos, porque o medo de morrer do paciente foi aliado precioso dos cuidados clínicos. E, na sua rotina, a vida recompôs-se.
Um certo fim-de-semana, houve baptizado na família. Um sobrinho do marido de Maria Alves com velas mais altas do que um homem, pia baptismal, copo-d'água de arromba cheio de cup, de peru, de fios de ovos, de garrafas de espumante e um conjunto a tocar até à noite, ficou apto a aumentar a estatística da mortalidade infantil sem correr o risco de não ir para o céu.
Maria, naquela tarde, dançou com quem lhe pediu, comeu, bebeu, brincou e sentiu-se feliz. Quando o marido a levou de regresso a casa, Maria pôs a cabeça de fora da janela do carro, riu-se ao vento, soltou o cabelo e tirou os sapatos, esfregando os pés um no outro.
Na sala, pôs um disco com o volume quase no máximo e, rindo-se, disse para o marido:

- Vamos dançar.
- Olha que eu não posso abusar.
- Um dia não são dias e o médico diz que o exercício te faz bem...

Rodopiaram, dançaram afastados e agarrados e a mulher que por vezes saltava dos olhos de Maria começou, lentamente, mas a saber o que fazia, a esfregar-se no homem, até os dois, afogueados, subirem para o quarto do casal.
Ainda não era meia-noite quando Maria estava sentada na cama, com as pernas cruzadas como gostava, nua e com um sorriso indecifrável, olhando o toucador e os objectos espalhados sobre o seu tampo, sem saber se deveria ou não telefonar à mãe a comunicar-lhe que o marido que lhe arranjaram, também nu e com um braço tombado para fora da cama, de olhos fixos no tecto, acabava de a promover à condição da viúva mais cobiçada daquele concelho.

Praia com pôr do Sol e corpo ao fundo

O SOL ERA UMA BOLA VERMELHA e o céu, junto ao mar, estava também incandescente. Sabia que, quando escurecia assim, o dia seguinte era de muito calor, bom para a praia. Depois, achava também que era muito bonito, aquele pôr-do-sol, a tarde a acabar quase sem vento, o mar a desfazer-se em murmúrios na areia, manso e transparente. Os pescadores puxavam os últimos barcos, metendo chulipas debaixo dos costados e empurrando, enquanto outros homens e algumas mulheres remendavam as redes, segurando as malhas com os dedos grossos dos pés.
Foram os miúdos quem deu o alarme.
Correram, em bandos, do outro extremo da praia, junto às rochas, seminus, escuros e a gritar:
- Está ali um homem morto!
As poucas famílias que observavam o pôr-do-sol correram também, com os pescadores, para onde os miúdos regressavam sem nunca terem deixado de correr, igualmente. Lembra-se que o avô, que sempre ajudara os pescadores a puxarem os barcos, dentro duns grandes calções de caqui coloniais, foi ver se era verdade o que os miúdos diziam ter descoberto. Esquecido, ele também foi, sem que ninguém procurasse impedi-lo. Só quando espreitava, por entre as pernas dos homens e das mulheres, o vulto na areia, deram por ele e o avô lhe disse com secura, como nunca lhe falara:
- Vai para casa. Vá já para casa!
Conseguiu, no entanto, ver que era um homem, ainda novo, vestido, sem um bocado da cara, com a barriga cheia de água, inchado e com a roupa rebentada, olhando de olhos abertos a roda que se formara, olhando-o também a ele, enquanto todos lançavam hipóteses ditas com grande certeza, mas todos falando só por falar, tentando decifrar que azares atiraram com aquele corpo, morto, para ali, num pôr de Sol vermelho, que por norma antecede sempre mais um lindo, brilhante e quente dia de praia.
Choramingou, ao regressar a casa, mas não deu explicações. Não entendeu porque ninguém se preocupara com os outros miúdos da praia, que lá haviam ficado a olhar o homem morto e, a ele, o haviam mandado embora. Na cozinha, a avó rezingou:
- O teu avô ainda não acha que são horas de jantarmos?
- Ele mandou-me embora, – choramingou.
-Vai chamá-Io. O jantar vai já para a mesa.
- Ele não vem!...
- Vai chamá-Io, anda, tás parvo, ou quê?
- Ele não vem. Está a ver o homem morto.
O jantar já não foi para a mesa. A avó e as outras mulheres puseram todas casacos de lã pelos ombros e partiram, apressadas, para o círculo que havia engrossado, de pessoas na areia, todas a olharem para o homem morto. No grupo estava, nessa altura, também o cabo-do-mar. Acompanhou as mulheres e ficou, de longe, sem se atrever, junto a um barco, a ver o que todos faziam. Dali, o homem morto podia ser só um monte de roupas ou de algas, como os que se formavam na altura das marés vivas.
Jantaram todos muito tarde, naquela noite. E, à mesa, a conversa foi sempre sobre o aparecimento do homem morto. A tia queria saber se o homem era, ou não, um pescador. Se tinha caído de um barco, o que é que o cabo-do-mar dissera, se alguém o tinha morto e depois o atirara a água, e onde é que o corpo ia ficar. O avô, de poucas falas, ia esclarecendo o que sabia explicar. Acreditava que o homem estivesse na água há diversos dias, não era daquela aldeia, ninguém o conhecia, mas não devia ter caído de um barco, porque se assim fosse tinha-se ouvido falar. Ele atreveu-se a fazer uma única pergunta:
- Avô, porque é que o homem não tinha um bocado da cara?
E a resposta, seca, dera-Ihe arrepios de febre e fizera-o perder a pena que tinha dos peixes, sempre que os via, ainda vivos, a saltarem nas redes que puxavam para a praia
- Foram os peixes -que o comeram – dissera o avô.
Quando se deitou, não conseguiu adormecer. O vulto, de costas, vestido, a olhar para cima, sem um bocado da cara, não lhe saía da cabeça e pensava que nunca tinha visto antes um morto e que nem todos deviam ser assim. Pelo menos, nos filmes, os mortos não faziam impressão e, quando alguém morria, a avó explicava-lhe:
- Morreu, foi para o céu.
Dizia sempre isto com o ar de quem invejava quem tinha partido para a vida melhor, mas este, se foi desta para melhor, tinha sofrido muito e ele quase chorou, com pena do morto, que mal observara, rodeado de pés e de pernas por todos os lados.
Foi nessa altura que ouviu um grande alarido em casa, gritos de medo e choros, das mulheres e, depois, grandes gargalhadas do avô e as mulheres também a rirem, nervosas. Levantou-se, com muito medo mas com mais curiosidade, o que era natural porque aquela era a primeira noite do seu primeiro morto.
A tia e uma amiga choravam e riam, ao mesmo tempo, os corpos nus e morenos soltos, dentro das camisas brancas até aos pés. O avô ria-se, agarrado a uma vassoura e a dobrar uma toalha branca. A avó recriminava-o:
- Nunca mais tens juízo, homem...
E ele soube, então que o avô decidira brincar com a filha e a amiga da filha, metendo-lhes um susto com a toalha branca a agitar-se na janela do quarto, embrulhada na vassoura. E que as duas raparigas, que dormiam juntas na mesma cama de ferro, com colchão de palha, se haviam levantado com o susto, pois estavam naquela altura ainda a conversar sobre o morto quando sentiram, primeiro, e viram, depois, a vassoura vestida de branco abater na janela do quarto de ambas.
- Elas julgavam que era o fantasma – ria-se para ele o avô.
- O que é um fantasma? - perguntou, e como resposta mandaram-no deitar.
- Não são horas de um menino da tua idade estar acordado – sentenciaram.
E ele foi-se deitar, mas não dormiu, como certamente as duas raparigas também não dormiram, com os dois corpos morenos agarrados um ao outro, e só de manhã, depois de o Sol ter nascido na praia, os olhos se Ihes fecharam.
Durante muitos anos, ao entardecer, não foi capaz de ir junto das rochas atrás das quais o Sol se punha, e onde havia visto o seu primeiro morto, sem um bocado da cara que os peixes haviam comido.

Um exercício de solidão

DURANTE CERCA DE TRÊS HORAS, os dois homens conversaram em voz baixa e pausada. Abriam pacientemente as ostras com uma espécie de espátula e bebiam flautas de champanhe, guardando ambos um ar compenetrado de quem discute importantes questões.
As conchas vazias eram lançadas em baldes de plástico negro que silenciosos empregados substituíam, com regularidade, por outros vazios.
- O Poder não se partilha, o Poder não se cede. Quem detém o Poder deve conservá-Io, quem não detém o Poder deve tentar conquistá-Io – disse aquele que dos dois era seguramente o mais velho e que, bebericando aquele rosé fin de siècle era, decididamente, o anfitrião.
- A questão é saber o que fazer do Poder – retorquiu o outro, mais jovem, nos primeiros anos da casa dos quarenta. - O que fazer do Poder quando este se detém, de modo a reforçá-Io e, através dele, transformar as coisas da melhor maneira, para que a maioria disso possa beneficiar, se esse é o objectivo.
O mais velho, hirto no seu fato cinzento de risca branca estreita, levantou-se e caminhou vagarosamente até à balaustrada da varanda, com passo mais jovem do que se poderia esperar dos sessenta e tal anos que aparentava; olhou o jardim, que ficava em baixo, abriu os braços para pousar as mãos afastadas sobre o mármore ainda quente do sol do dia, e de costas para o seu interlocutor disse:
- O Poder, meu caro, é solidão. Nada mais do que um penoso exercício de solidão.
- Certo – retorquiu o mais jovem, levantando-se e agarrando no seu copo esguio. - Também viajar é um exercício de solidão, é como se nos movêssemos numa cápsula transparente à volta da qual gravitam seres de outros sistemas. E mesmo quando há contacto, estamos sós.
- Mas viajar é deixar os amigos em alguma parte. É separarmo-nos deles por um tempo limitado. Exercer o Poder é outra coisa: é sacrificar amigos, desconfiar de amigos, não contar com ninguém que nos possa ser leal, senão por qualquer dependência ou interesse. Exercer o Poder é atravessar um oceano sem instrumentos e sem valer de nada olharmos para trás.
- Nem recorrer às estrelas... – murmurou o mais jovem com um sorriso céptico. Pousou o copo na balaustrada, fechou a mão e ficou-se a olhar para as unhas cuidadosamente polidas, absorto nos seus pensamentos
- Vamos comer agora um pouco de carne, vamos para dentro e comemos um pouco de carne? - perguntou o mais velho, dispondo daquela casa magnífica.
- Não. Vou deitar-me. Tenho um avião a apanhar amanhã cedo e ainda um longo voo num dia que também vai ser longo.
- Homem, só um pouco! Tenho uma reserva de quarenta e oito...
- Peço-Ihe que me desculpe. Mas não conseguiria beber mais e se bebesse não sei como acordaria de madrugada. Agradeço-Ihe a oferta, mas a resposta é não.
- Vê como Poder é solidão?
Riram os dois e, a par, abandonaram, o terraço entrando no amplo salão de belas tapeçarias flamengas, a cobrirem as pedras rugosas da parede.
- O Poder também é isto – disse cinicamente o quarentão –, e isto custa largar.
- Não é só isso. É isto que conforta o recluso. Deixa de ser bom gosto e inteligência para se transformar em liturgia. A solidão arrefece-nos, o rito acaba por nos dar força, perante os outros, mas sobretudo perante nós próprios.
- Este é o meu corpo, este é o meu sangue.
- Até amanhã.
- Até amanhã e obrigado.
O seu motorista agarrou-lhe a pequena mala no fundo da escada do avião, sob a chuva miudinha.
- Fez boa viagem, senhor?
- Óptima. Vamos para o gabinete. Vou trabalhar até tarde. Deixe-me depois lá o carro pequeno, para eu regressar a casa, e amanhã não preciso de si.
A sala, austera, estava semiobscura. Apenas o candeeiro da mesa de trabalho iluminava os papéis e, por baixo da porta, entrava uma barra mais clara de luz branca, da sala da secretária, onde se ouvia a surdina do teclado electrónico da máquina de escrever.
Acendeu um pequeno charuto, olhou o óleo pesado que na parede mostrava uma cena de batalha naval, puxou para os ombros os elásticos dos suspensórios e, a caminho da casa de banho, disse para a sala do lado:
- Carimbe todas as folhas com «Multo secreto». Dói-me muito a cabeça. Este fim-de-semana deixe na telefonista os números onde a posso encontrar em caso de necessidade. Quando terminar, envie um estafeta nosso com isso. Vou sair da cidade, mas fico na quinta o tempo todo. Até segunda-feira se não houver nada antes.
Desceu directamente à garagem, o carro pequeno e anónimo tinha as chaves na ignição, o depósito atestado. Quando saiu o portão, o guarda fez-Ihe a continência e a cinza do charuto caiu-lhe nas pernas das calças.
Acordou com o cheiro de café fresco e de mel.
- Liga-me o rádio. Está quase nas notícias.
- E agora as notícias... primeiras Informações indicam a possibilidade de um golpe de Estado em... os aeroportos estão fechados e todas as comunicações com o exterior cortadas. Últimas notícias conhecidas numa capital de um país vizinho indicavam que o presidente se encontraria em poder dos rebeldes.
Desligou o rádio, sem tomar banho ou barbear-se, vestiu um fato de treino que tirou do armário, desceu a escada a dois e dois, passou pela empregada no átrio, assobiou pelo cão, abrindo a porta da rua.
- Se telefonarem, chame. Estou lá fora a correr com o cão.
E segurou carinhosamente a cabeça do setter irlandês contra o seu peito, retribuindo a amizade dos saltos do animal, sorriu e disse-Ihe baixinho, soprando-lhe o focinho húmido.
- Vamos brincar, Tom. De facto, ele tinha razão: o Poder é um exercício de solidão.

O príncipe incógnito

DESCERAM OS TRÊS pelas escadas exteriores do prédio de apartamentos sobre a praia. O mais pequeno adiantou-se, alargando o passo, segurando uma pequena bolsa de couro, e afastou-se na rua, para o lado esquerdo, onde havia um pequeno largo sem saída, em que havia estacionado o grande Mercedes azul-metálico, com matrícula espanhola de turismo. O segundo virou para o lado direito, para o fim da rua, onde parou junto à cabina telefónica, enquanto o terceiro esperou, sozinho, em frente ao prédio que juntos acabavam de abandonar.
O carro avançou pela rua, recolhendo um, primeiro, depois o outro, e acelerando ao chegar junto à ponte, com os vidros escuros cerrados e os três homens dentro, todos de óculos escuros, sem uma palavra, e muito menos um sorriso, entre si.
O dono do prédio, que alugava à semana aqueles apartamentos de Verão, viu-os passar quando comprava melões de uma camioneta estacionada no princípio da rua. Ao vê-los, comentou para uma dona de casa, já de fato de banho e um roupão aberto no fresco da manhã que sempre faz àquela, hora, muito antes das oito:
- É um príncipe estrangeiro. Alugou-me uma semana. Anda incógnito. Vem só com o secretário e um guarda-costas.
A fazer fé nas palavras do senhorio, o príncipe era o mais alto dos três Não teria ainda cinquenta anos, mostrava uma aparência distinta, era esguio e moreno, tinha bigode, usava o cabelo puxado para trás com creme, vestia uma elegante goiabera e segurava uma pasta de couro fino e cantos de metal dourado. Não sorrira, parado no passeio, nem quando observara atentamente duas meninas de dez anos que andavam já por ali de bicicleta.
O Mercedes tomou agora a estrada principal, ganhando velocidade nos quinhentos metros de recta, visíveis sem qualquer outro veículo à sua frente. No seu interior, o príncipe olhava pela janela, enquanto os outros dois homens também não proferiam palavra nos assentos da frente.
Entraram vagarosamente na cidade até abrandarem num largo sem movimento. Sem uma palavra, o príncipe saiu, continuando a segurar a pasta elegante de cantos dourados, e dirigiu-se a um pequeno carro utilitário, de matrícula portuguesa, ali estacionado, pondo-o em marcha. Ao rodar pelo largo, certificou-se pelo retrovisor de que o Mercedes o seguia com os dois homens dentro. Acelerou então e, saindo da cidade, voltou à estrada que haviam abandonado para irem buscar mais aquela viatura. Voltaram a ganhar velocidade, ainda que sempre conduzindo os dois carros cuidadosamente, respeitando até o uso dos indicadores luminosos sempre que tinham de fazer uma qualquer ultrapassagem.
Ainda não eram oito e meia quando lentamente os dois carros estacionaram cada um em sua direcção, virados para os dois extremos da rua, numa urbanização de grande luxo, próximo do mar, com árvores a ensombrarem belas casas escondidas em jardins bem tratados.
O portão verde devia abrir-se electronicamente, porque não se ouviram vozes nem se viu ninguém quando o grande Volvo branco saiu da casa que os dois carros estacionados flanqueavam, apontados em direcções diferentes, de modo a que qualquer deles pudesse seguir um carro que abandonasse aquela propriedade, fosse para que lado fosse. Havia dois homens no Volvo, ambos sentados à frente, e viraram para onde o Mercedes estava apontado, pelo que este se pôs silenciosamente em marcha, acelerando quando deixaram de ver o carro que perseguiam. Quando ambos os carros desapareceram, o príncipe pôs também em marcha o pequeno utilitário, fez inversão de sentido e, sem pressas, seguiu o mesmo caminho.
Avistou os outros dois carros ainda na estrada secundária, a seguir a uma curva em cotovelo, e notou que o Mercedes já ia à frente do Volvo. Nesse momento acelerou. Foi quando o Mercedes travou, atravessando-se na estrada e obrigando o Volvo a fugir para a berma e a travar precipitadamente. O passageiro do Mercedes saiu do seu lado e correu para o utilitário, o qual, com serenidade, aparentando lentidão, o príncipe abandonara, caminhando até chegar à janela do condutor do Volvo com o braço estendido. A mão estremeceu-lhe várias vezes, na ponta do braço estendido, ao mesmo tempo que meia dúzia de «pofs» se escutavam, tão baixo que não chegaram a espantar nenhuma ave das árvores. Quando o príncipe voltou ao pequeno carro, o outro homem, já ao volante, arrancou e passaram pelo Mercedes, que os seguia. O Volvo ficou quieto, sobre a berma da sua mão, sem movimentos no interior muito antes da estrada principal e a cerca de dois quilómetros da casa do portão verde, que abria electronicamente.
A poucos minutos das nove horas, os dois homens arrumaram cuidadosamente o pequeno automóvel no sector de carros alugados do parque de estacionamento do aeroporto de Faro. Depois de tirar um saco do porta-bagagens, o príncipe dirigiu-se à aerogare, e pôs-se, pacientemente e aparentando despreocupação, atrás de dois únicos passageiros que faziam o check-in no balcão da classe executiva, do voo para Lisboa. Entretanto, o outro homem certificava-se de que tudo estava normal no aeroporto e entrava depois no Mercedes, segurando a elegante pasta do príncipe.
Às nove e trinta, o Mercedes atravessava a fronteira sul com a Espanha com os seus dois passageiros, o príncipe sorria à hospedeira e preparava-se para aterrar dentro de minutos em Lisboa. Ninguém havia passado pelo Volvo branco, aparentemente vazio e estacionado na berma da estrada secundária, e, em frente ao pequeno prédio de apartamentos sobre a praia, uma senhora em fato de banho dava as torradas ao marido, a quem perguntava com ar de triunfo:
- Sabes que temos aqui mesmo em frente um príncipe incógnito?
Na rua, duas meninas de dez anos andavam de bicicleta passando tangentes à camioneta do homem dos melões.
Lisboa, 1987

A sessão contínua

HAVIA UM GRANDE INCÊNDIO, os ratos, as ratazanas desciam as escadas em manada, saíam de todas as retretes e desciam as escadas do prédio em chamas, enquanto pequenos ratinhos saíam dos canos dos lavatórios e as pastas de dentes se desfaziam em lombrigas. O homem, imobilizado, face ao avanço das ratas, grandes como coelhos, que passavam sobre ele em tropel como vacas em estampido, não aguentou mais e, enchendo os pulmões e escancarando a boca, soltou um berro que lhe saiu da alma. Foi um urro tão forte e tão autêntico que acordou. Tinha o pijama colado ao corpo, com o suor, o corpo doía-lhe, as mãos tremiam-Ihe e os olhos, inchados e encovados, davam um aspecto tão sombrio àquele busto arfante e despenteado, desalinhado, a cor da pele da cara magra era tão esverdeada, que a mulher, despertada por aquele monumental grito, assarapantada, disse, peremptória:
- Amanhã, queiras tu ou não, vais ao médico!
E atirou-se para o travesseiro, virada para o outro lado, dando as costas ao marido desinteressado e apavorado, também ela sem conseguir pregar olho, desconsolada e mal-amada de meses.
O médico foi peremptório: mudar de comprimidos, experimentar outra terapêutica, já que a terapêutica do clínico anterior não dera outro resultado senão o de as ratas saírem das retretes mais devagar e a cores. Cinematograficamente falando, o progresso verificado pelo doente foi deixar de sonhar a preto e branco e com a respiração e a suspensão do Hitchcock, e passar a sonhar a cores e com mais ritmo, mas também com aterradores efeitos especiais, tipo Spielberg. As personagens, no entanto, pareciam adaptadas por Fellini e Pasolini de quadros de Bosch. O realismo dos efeitos especiais era tal que o pobre do sonhador chegou, por duas vezes, a acordar o prédio com os seus gritos.
A mulher foi falar com o médico. As vezes que entendeu necessárias ao desabafo da sua preocupação e da sua insatisfação. Os sonhos continuavam. Os berros eram agora mais frequentes, o ciclo dos pesadelos mais intenso, os sobressaltos quase permanentes. Nem aos fins-de-semana havia um sonhozito cor-de-rosa, uma comédia, para alegrar o pobre do homem, cada vez mais cadavérico e mais verde. Um sonho erótico, mesmo soft, isso é que nunca, para desespero da pobre mulher, que nem numa creche perderia tantas noites como naquele caso, sem pregar olho ao lado do corpo agitado e inútil do marido.
Segunda-feira imediata a um fim-de-semana de terror, o casal foi ao médico, depois dum telefonema para o consultório a garantir que era urgente e necessário serem atendidos naquele dia.
Foi nessa consulta que ficou decidido o internamento.
Era uma casa de repouso, muito silenciosa, como seria de desejar, com muitas flores e cheia de cortinados floridos nas janelas. O homem chegou com um pequeno saco, como se estivesse em viagem e contasse com o necessário para uma breve estada, pelo braço da mulher esperançada e convincente.
- Vais ver que só te vai fazer bem!
O director da casa de repouso já estivera em contacto com o médico assistente e haviam decidido que, para começar, não havia melhor do que uma cura de sono.
- O senhor vai sair daqui como novo!
E o homem deitou-se, com o seu pijama térmico, um sorriso triste e os olhos mortiços. Foi a última vez que lhe viram os olhos. Nunca mais acordou.
A mulher foi chamada por um lacónico telefonema. A explicação que lhe foi fornecida foi a que se tratara duma inesperada paragem cardíaca.
Nada faria prever tão trágico desfecho, diziam os médicos, porque o estado cardiovascular não justificava qualquer alarme e não haveria outra explicação para o triste desenlace senão a de mais um insondável mistério do organismo.
Paragem cardíaca foi o que ficou a constar da certidão de óbito. As causas não foram explicitadas. Mas essas sabemo-las nós. O homem não aguentou. Aquela cura de sono foi uma verdadeira sessão contínua de atrozes pesadelos que o mataram de terror.
Lisboa, 1987

A escada

O GUERRILHEIRO ESTAVA SENTADO no bidão amolgado no meio da pista de terra batida e olhava os cães famélicos que cheiravam os papéis que o vento levava e trazia nos intervalos das chuvadas em cordão... Outros quatro guerrilheiros andavam por ali e já não tinham mais onde espreitar depois de terem devassado o que havia para ser visto quer no hangar quer no barracão prefabricado, coberto a lusalite.
Os cinco jovens africanos tinham recebido ordens para chegar até ali, de onde os iriam transportar para a cidade. Haviam passado cinco dias e os guerrilheiros estavam ali, certos de que não se iriam esquecer deles, vivendo ainda a excitação do primeiro voo, da primeira vez numa cidade.
O acaso juntaria aqueles cinco jovens africanos, armados e fardados, confiantes na sua espera, a um repórter que, também como eles, ali tinha encontro marcado, não com um avião mas com um helicóptero.
Durante as três horas que o repórter ali passou esperando transporte, este fizera com os guerrilheiros uma roda alargada e, sentados na pista, de pernas cruzadas, falaram de cidades, seguindo as corridas, sem destino, dos cães sem dono e as piruetas das folhas de papel no meio das nuvens de pó que, subitamente, sopravam, em remoinho, dos lados da pista.
Com idades entre os dezoito e os vinte anos, os guerrilheiros tinham nascido no mato, crescido no mato até Ihes meterem uma AK nas mãos e mandado lutar. Não conheciam mais do país que seria o seu do que mata num raio de quatrocentos quilómetros onde nunca tinham visto uma casa ou observado um automóvel, e avião sabiam o que era porque os ensinaram a esconder-se sempre que um passava.
Ali sentados, conversaram sobre coisas para todos nós normais como se falassem de uma civilização e de uma cultura que pertencessem a outro planeta. Como são as casas, o que é o vidro nas janelas, quantas casas há numa cidade, porquê tantas, porquê casas em cima de casas, como subir para as casas de cima e todas as perguntas que se possam imaginar.
O repórter explicou, explicou. E depois, quando chegou à cidade para onde se dirigia, e que não era a mesma que os soldados demandavam, despachou o seu serviço para a Redacção, que ficava noutro continente, e no final, aproveitando a linha aberta do telex, não resistiu a escrever uma pequena nota impressiva sobre cinco guerrilheiros, sentados há dias, à espera de transporte para a capital do país que iria ser o seu. Guerrilheiros que nunca tinham visto um automóvel («porque são os automóveis às cores?») nem conheciam uma casa («mas como se sobe para as de cima?») e iam pela primeira vez andar de avião.
É possível que a memória pregue partidas às pessoas. Talvez tenha sido isso que aconteceu quando esta semana, de repente, quase doze anos volvidos, aquele repórter se sobressaltou em Lisboa a pensar nisto tudo, sem razão visível, e ficado preocupado, «Terão chegado a ir buscar os rapazes?», e a cena revivificou-se como um velho filme a preto e branco, com o vento, as chuvadas, os jornais velhos a voarem, os cães a mostrarem as costelas e os cinco rapazes sentados na pista, a rirem-se sem ter que comer.
É de crer que os tenham acabado por levar, de alguma forma, e que hoje, uma dúzia de anos passados, eles nem notem o que é uma casa e nem dêem por que andam de elevador, que tinham sido uma novidade cuja descrição de um repórter desconhecido, há muitos anos, os havia excitado.
Possivelmente estarão hoje completamente ambientados, passearão de Volvo e nem notarão as utilidades das coisas estranhas que uma cidade tem. Mas, sobretudo, terão encontrado resposta para uma questão que de repente ali se colocou, doze anos atrás, na pista deserta uma questão nessa altura insolúvel: explicar e perceber o que é uma escada.
Perceber, eles não perceberam. Mas explicar, eu não fui capaz.
Lisboa, 1987

A finada

SOBRAÇANDO UM RAMO DE CRISÂNTEMOS, entre os quais estreitava um par de gerânios, com o chapéu de feltro mole às três pancadas e deixando descair o peso do corpo sobre a bengala grossa, o velho arrastava pela rua fora a ostentação da sua dor no grito desgarrado com que varria aquela hora matutina do Dia dos Mortos, primeiro de Novembro.
- Noémia!!! Ah, Noémia, minha Noémia!!!
Ninguém veio vê-Io à janela. Poucos eram os que com ele se cruzavam sob o sol morno do primeiro de Novembro de Verão tardio, carregado da luminosidade que no Outono só Lisboa possui, mesmo num dia de mortos.
- Noémia! Ah, minha Noémia!
A bengala era silenciada por uma grossa cunha de borracha. A manga do fato cinzento mostrava uma larga faixa preta de fumo que indicava luto carregado. O chapéu tinha as abas descaídas sobre o rosto mal barbeado, mas pouco ensombrado, porque a barba que despontava era toda branca.
Três ou quatro miúdos que conversavam sobre livros de aventuras e jogos de futebol pararam de falar quando o velho passou e riram-se, dobrando o corpo, quando ele largou mais um berro.
- Ah, Noémia, minha Noémia!!!
O cemitério ficava a cerca de dois quilómetros. Da rua onde está o rés-do-chão em que o velho mora pode lá chegar-se numa lenta viagem de carro eléctrico, que sobe uma calçada íngreme, no fim da qual se tem de apear para tomar outro transporte, se não se quiser caminhar os seiscentos metros que vão dali ao portão de ferro forjado, com sineta coplada, através do qual se passa para as ruas e ruelas dos jazigos, gavetões e campas rasas.
O velho preferiu caminhar, percorrer os quilómetros que o separavam do local onde repousa a ossada da sua Noémia, nome de mulher que percorre a cidade todos os primeiros de Novembro, libertando-se de um molho de crisântemos com um ou dois gerânios à mistura.
- Noémia!!!
As pessoas, primeiramente, sobressaltam-se ao ouvir o berro. Depois, percebem; e então, ou ignoram o velho, a bengala, os crisântemos, ou têm de dirigir um quase obrigatório aceno de simpatia e comiseração que, obviamente, ele agradece.
Os dois quilómetros, mais coisa menos coisa, que vão da casa do velho ao cemitério, foram este ano percorridos, com calçada íngreme e tudo, em hora e meia. O grito foi largado cada cem metros, o que significa que o nome da defunta foi pronunciado vinte e cinco vezes, para ser rigoroso, ao longo do penoso percurso, devendo ter sido escutado por não mais de quarenta pessoas à vista, que corresponderam ou fingiram ignorar; isto, claro, sem contar com aqueles que em suas casas deram por uma Noémia desconhecida a entrar-Ihes pelo quarto dentro, sem perceberem do que se tratava, não só dado o atrasado da hora mas também por tudo isto ocorrer na manhã de um feriado sem obrigações.
O velho atravessou o portão do cemitério, mais curvo sobre a bengala, com as flores a escaparem-Ihe já sob o cotovelo do outro braço e sem qualquer gritaria. Os seus olhos fixavam as poucas pessoas que àquela hora já andavam pelo cemitério, mas sem dúvida que parecia ter deixado ao portão a dor lancinante que transformada em berros se não percebia qual a origem: se da alma, se dos ossos.
Sem dúvida que no cemitério o comportamento do homem mudou. Estava agora entre pares – seres vivos a homenagearem mortos. E os mortos, ali, andavam por toda a parte, pressentiam-se nas portas abertas dos jazigos, viam-se nas prateleiras, escorriam dos naperões sobre o mogno das urnas ou atiravam-nos sorrisos das fotografias emolduradas, ou encastoadas por baixo, ou por cima, da «profunda saudade» que o canteiro escrevia na pedra como tipografia põe morada em cartão de visita.
Ali, definitivamente, o homem não gritou mais. Se alguém o observasse, notaria talvez que procurava mesmo passar despercebido. Inclinou-se junto a uma campa, largou sobre ela as flores que trazia, teve breves instantes de recolhimento e saiu do cemitério como se não tivesse nada a ver com o homem que momentos antes apregoara o nome da defunta pelas ruas da cidade.
Regressou a casa visitando as capelinhas, uma a uma. E assim fez, devotadamente, ao longo do dia, até à noite parar defronte do seu rés-do-chão, rebuscando as chaves pelos bolsos. Dois vizinhos, conversa mole sobre a mulher do próximo, observaram-no:
- Ouviste aquele, esta manhã? É preciso lata! Moía a mulher de porrada, dava-Ihe tareias de caixão à cova e agora berra por ela que nem um vitelo desmamado.
E o velho, antes de fechar a porta:
- Com licença, meus senhores. Vou recolher-me. Vou rezar por vocês e por todos os nossos vizinhos. Passei o dia com a minha Noémia e foi ela quem me pediu que rezasse por todos vocês. Muito boa noite, meus senhores.
A quatro portas e oito algarismos dali, os miúdos que, de manhã, se tinham dobrado a rir quando o velho por eles passeou o seu berro juntaram as cabeças, com as mãos por cima uns dos ombros dos outros, e gritaram em coro:
- Oh, Noéeeeeeemia!!!
E puseram-se a milhas, dado o pira, cada um para sua casa, ala que se faz tarde.

Lisboa, 1987

Era uma vez uma menina que tinha um galo...

A MENINA CORRIA PELOS CAMPOS, ou ficava sentada no chão, com os joelhos afastados e os pés juntos, a olhar o longe.
Era fácil olhar o longe, lá onde a menina morava.
Os campos eram rasteiros, sempre iguais, sem um sobressalto, e os olhos perdiam-se até onde conseguiam ver. Só duas vezes por ano havia diferenças - meses de terra lisa, loira, doirada, até se perder no amarelo do fundo; meses de terra verde, verde-claro e verde-escuro, rente mas desigual, com ondas e redemoinhos que o vento arrepiava como uma cabeleira de menina, como aquela que saltava e pulava, entre verde ou doirado, ou ficava sentada, de pés juntos e joelhos afastados, a olhar o longe.
O verde e o loiro nos campos correspondiam, no fundo, às únicas mudanças de vestuário que aquela menina conhecia. Quando a terra era verde, a perder de vista, a menina tinha um vestido espalmado ao corpo, leve, pobre, bonito e digno e por cima vestia um grosso casaco de lã que a mãe tricotara pelas noites dentro; quando a terra era loira até onde se conseguia ver, a menina usava só o vestido, aquele mesmo vestido, que era lavado de noite para voltar a ser usado na manhã seguinte.
A menina não tinha bonecas. Brincava com as pedras, com os ninhos, com as flores e com os pássaros. Às vezes, antes de regressar a casa, a menina brincava também com outras meninas da escola.
A escola ficava a um par de quilómetros, que a menina percorria, para cá e para lá, bocados ao pé-coxinho, bocados como se jogasse à malha, pedaços a correr, pedaços aos pontapés às pedras. Depois, jogava a saca que a mãe lhe fizera de um pouco de manta para guardar os cadernos, e onde fora bordado «A minha pasta» juntamente com as iniciais do nome da menina, que naquela família se preparava para inaugurar a geração dos que sabiam ler, jogava a saca para um canto, e ia brincar.
Viver com pai, mãe e sem irmãos, num ermo daquele campo todo, não era fácil para uma menina do tamanho daquela. Sem saber porquê, ela tinha de se acompanhar a si própria. E naquela paisagem que parecia desenhada por uma criança, e pintada a lápis de cor, com uma casa de duas janelas e uma porta, uma chaminé e uma estrada quase direita, com uma igreja ao fundo, e sem carros ou só com tractores de homens que levantavam uma das mãos quando passavam por outros, a menina juntava-se a outras meninas e meninos que só existiam na sua imaginação e brincava com eles, como se existissem de facto, a ponto de Ihes falar em voz alta.
Um dia, o pai trouxe um pintainho para casa.
Era pouco maior do que um ovo e muito amarelo com uma cabecita assustada e careca. Naquela noite, a menina não deixou que pusessem o pinto na capoeira e quase não dormiu, espreitando-o aninhado na roupa da sua cama de ferro.
De dia, a menina levava o pinto a passear com ela pelo campo. E, uma vez, chegou mesmo a levá-lo para a escola e foi repreendida pela professora, mas valeu a pena porque todos quiseram brincar com o pinto e alguns chegaram a ficar cheios de inveja.
O pinto foi crescendo, já tinha crista e muito menos graça, mas a menina nunca o abandonava e brincava com ele todos os dias. O pinto ficava na capoeira e a mãe dizia que ele era já um franganote, mais pequeno do que o galo velho que galava e bicava as galinhas que punham os ovos que a mãe vendia a quem procurava ovos frescos ou galinha de campo, também às vezes, quase sempre para mesa de doente, de boda ou de baptizado.
Mesmo quando o frango chegou a galo, a menina brincava com ele. Dera-lhe um nome, chamava-lhe Evaristo, e depois das cópias e das contas conversava com o galo e metia-Ihe as mãos nas penas azuis e cor de fogo, tal qual como as meninas brincam com cães ou com gatos, nas cidades.
Enquanto a terra esteve verde, a perder de vista, o pinto fez-se galo. Depois, a terra começou a ficar amarela, loira, doirada, vieram as férias, e a menina dedicava o dia todo, todos os dias, ao Evaristo, o galo.
Estava a terra a começar a escurecer quando a menina voltou à escola, para a classe seguinte. Quando mostrou em casa a lista de livros e cadernos que precisava para aquele ano, a menina ouviu o pai falar com a mãe sobre o preço dos livros. E durante muito tempo foi à escola sem livros, até a professora fazer cara de má e dizer que assim não podia ser.
Em casa, tal como lhe dissera a professora, a menina declarou que assim não podia ser.
E os pais voltaram a falar do preço dos livros enquanto a menina brincava com o seu galo Evaristo, bonitão, azul e cor de fogo, com crista a dançar no alto da cabeça.
- Diz à professora que amanhã levas o livro que mais falta faz - disse-lhe o pai.
Na escola, a menina disse à professora que no dia seguinte levaria o livro que mais falta fazia. Voltou a casa a saltar, metade ao pé-coxinho, metade ao jogo da malha.
Atirou a saquinha dos cadernos para o canto de sempre e foi à capoeira para brincar com o seu galo.
O galo não estava lá.
- O Evaristo onde anda, mãe? - perguntou a menina.
- O teu pai levou-o para vender e ajudar a comprar o livro - disse, simplesmente, a mãe.
A menina largou um berro que fugiu pelos campos rasteiros e escuros da tarde, que já morria cedo. E saiu de casa, a correr, atrás daquele berro, pela terra mole e lisa e correu, correu, sem apanhar o berro que dera nem nenhum dos outros gritos que a seguir também lhe tinham fugido, sempre à sua frente, pelos campos fora.
Os olhos da menina, sentada no chão, de pés juntos e joelhos afastados, encheram-se de lágrimas. E já era noite escura quando ela começou a chorar, e chorou tanto, tanto, que inundou aquela paisagem, que parecia um desenho infantil, com uma casa com duas janelas e uma porta, uma chaminé e uma estrada quase sem curvas.
Quando perguntam à menina «Sabes ler?», ela chora em silêncio e ninguém percebe porquê.
Lisboa, 1987

Agruras e alegrias do anúncio classificado

É UMA VELHA mesmo velha. Vive sozinha no casarão que estreou ao se casar nas primeiras décadas do século, apesar de estar acompanhada por um casal sem filhos, com serventia de cozinha e direito a um banho por semana, bem como por um cavalheiro de posição a quem alugou o quarto independente.
Dizem dela, velha mesmo velha, que vive triste e sozinha, apesar de partilhar a casa grande e escura com o casal sem filhos e com o cavalheiro de posição.
A velha, o casal sem filhos e o cavalheiro de posição vivem todos sob o mesmo tecto, mas na verdade sozinhos, como deles dizem quem os conhece, porque é compreensível que embora coabitando se possa considerar que viva sozinha uma velha mesmo velha, que viu morrer toda a família e todos os amigos, um casal sem filhos com serventia de cozinha e direito a um banho por semana, e um cavalheiro de posição que ocupa um quarto independente, com lavatório de esmalte, a condizer com o bidé e com o balde para a água, por detrás da porta para a escada.
Dizem, portanto, de todos e de cada um deles, que vivem sozinhos – mas não é inteiramente verdade porque, de facto, estão a acompanhá-Ios os espíritos, os fantasmas, ou as almas penadas dos desaparecidos naquele casarão, e que assim podem ser chamados consoante a crença ou a credulidade de cada um.
Os espíritos, fantasmas ou almas penadas despertam sobretudo sons nocturnos, rangidelas e estalidos, toques de cristal no aparador e sarrabulhos inexplicáveis de que ninguém fala na manhã seguinte, nem nunca, naquela casa.
Quando estão todos em casa – a velha mesmo velha, o casal sem filhos e o cavalheiro de posição - não falam entre si, ou apenas se limitam, muito raramente e por motivos práticos, a trocar algumas palavras uns com os outros. Actualmente, nem sequer falam quando ouvem os risos risinhos e gargalhadas que, ao princípio, não entendiam donde vinham nem percebiam o que significavam. Uma tarde, a mulher do casal sem filhos perguntou à velha mesmo velha o que era aquilo, e o cavalheiro de posição veio num alvoroço à cozinha a saber do que se tratava, mas nem a um nem a outro a velha deu qualquer explicação, refugiando-se na posição definitiva de que ela não ouvia nada nem sabia a que se estavam a referir.
Mas a velha sabia do que se tratava. Fora ela quem descobrira o mistério dos risos, risinhos, gargalhadas, estertores, sussurros e gritos. Identificara subitamente a voz duma antiga porteira de Benfica que costumava passar algumas matinées com um construtor civil no quarto independente, muitos, muitos anos atrás.
A pouco e pouco, uns após outros, a velha mesmo velha fora reconhecendo os sons, identificando as vozes, recordando as situações que muitos anos antes tinha ouvido daquele quarto maldito com porta para a escada. Situações que, num caso ou noutro, a tinham deixado até perturbada.
A velha não contou nada a ninguém. Quando a mulher do casal sem filhos lhe perguntou, por uma última vez, esbaforida, o que era aquilo, e num sábado à tarde o cavalheiro de posição apareceu na sala de jantar em pijama a dizer que não aguentava aquela gritaria, a velha mesmo velha desfez um sorriso enigmático e com a frieza distante e intrujona que só os velhos sabem ter disse, duma vez por todas, que não sabia do que estavam a falar e que quem não estivesse bem que se mudasse. Ponto final.
Desde então deixaram todos de fazer perguntas e convenceram-se uns aos outros que aqueles sons saíam das paredes, que as casas conservam vida própria e que, umas mais do que outras, têm as suas próprias recordações. Aqueles sons, diziam uns para os outros, deviam ser isso – recordações da casa, vidas a escorrer das paredes como a humidade no Inverno, enfim, coisas tão antigas que nem a velha mesmo velha sabia.
Ao certo, ao certo, só a velha mesmo velha é que sabia, de facto. E até hoje não o revelou a ninguém. Mas na sua manha, que lhe dá para o que lhe convém, ela sabe que os gritos e gritinhos, os risos e risinhos, todas aquelas gargalhadas, eram de quem há muitos anos passou tardes e noites de amores rápidos ou fortuitos no quartinho com porta para a escada.
Ela não diz a ninguém, como também esconde que quem mexe no aparador é a alma do seu tio Ernesto que se enforcou na nespereira do quintal. Mas sabe que os murmúrios e gritinhos eram de quando aquele quarto se destinava a casais que vinham a Lisboa, antes de passar a ser alugado a cavalheiros de posição.
Lisboa, 1987

Cor de Púrpura

PEPETELA CONHECE UM CÃO que não gosta de buganvílias. Eu conheço um menino que não gosta de buganvílias por causa de um cão.
Quando o menino cresceu, gostava de admirar aquela cascata cor de púrpura que descia pelo tronco velho da árvore que fazia sombra no jardim das traseiras. A avó olhava pela janela da marquise e rejuvenescia sempre que a árvore começava a dar flor.
Mas, apesar de gostar muito da avó, o menino ficou contente quando um dia o avô disse.
- Vou arrancar a buganvília. As raízes dão cabo de tudo no jardim.
A avó chorou ao ouvir estas palavras, o menino ficou de repente triste por pensar que não ia ver mais aquela cascata cor de púrpura, mas sentiu o calor bom da vingança, sem dizer nada porque sempre lhe haviam ensinado que a vingança era uma coisa muito feia.
Quando se deitou na sua cama, o menino pensou que coisa iria o avô pôr no sítio da buganvília, porque alguma coisa tinha de pôr para cobrir o pavilhão do fundo do jardim das traseiras, que ia ficar sem aquela cabeleira cor de púrpura, que lhe caía para os olhos sempre abertos, sem persianas.
E, ao adormecer, o menino sonhou.
Apareceu-Ihe uma senhora que lhe perguntou:
- Porque estavas tu contente por o teu avô ir matar a buganvília?
- Porque um dia a buganvília enganou-me - respondeu o menino.
- Como te enganou a buganvília?
E o sonho do menino fez como os filmes no cinema e, cheio de medo, o menino voltou a estar junto da buganvília que o enganara, como se fossem aqueles o dia e a hora em que tudo acontecera.
O menino viu a menina por detrás dos vidros a olhar os rapazes que jogavam à bola na rua sem trânsito. Jogava a guarda-redes, no meio dos postes, que eram duas pastas, daquele grupo que faltara à escola.
E por ter visto a menina, o menino começou a fazer grandes defesas e a apanhar todos os remates e a atirar-se aos pés dos adversários como os guarda-redes a sério.
Quando a bola subiu demasiado, e passou por cima do muro, para o quintal da casa que ficava em frente daquela atrás de cujos vidros a menina espreitava, os rapazes ficaram por momentos sem saber o que haviam de fazer.
Decidiram-se, por fim, a tocar à porta e a pedir, por favor, a bola que, sem querer, ali tinha ido parar Ninguém respondeu. Voltaram a tocar a campainha. Nada.
Então, ficou decidido que era preciso saltar o muro e recuperar a bola.
O rapaz escolhido chegou ao cimo do muro, depois de, pé aqui, mão ali, e de (?) o terem ajudado a subir, e quando lá chegou ouviu-se uma corrente arrastar pelo chão e ladridos fortes.
- Oh, pá! É um pastor-alemão! - disse o «alpinista», com os olhos muitos abertos pelo medo.
Resolveram então tocar outra vez. Nada.
O menino olhou então, disfarçadamente, e viu que, por detrás dos vidros da casa silenciosa, que ficava mesmo em frente, continuava a menina a tudo observar.
- Eu vou – disse o menino.
No meio do jardim, por detrás do muro, havia de facto uma buganvília e um cão que tinha uma corrente ao pescoço, que arrastava e, portanto, devia estar preso atrás da árvore e logo não haveria razão para os medos que o companheiro tivera momentos antes.
- Eu vou - repetiu com uma mão nos olhos para, disfarçadamente, se certificar de que a menina ainda lá continuava. E continuava.
Escalou o muro depois de ter estado em pé, em cima dos ombros de um colega. Deixou-se cair para o outro lado e ficou quieto. Não tardou a ouvir a corrente que arrastava, como se pertencesse a uma alma penada.
O cão era grande e cinzento e parecia um cão que vira uma vez, num filme de guerra. O animal formou o salto e, à primeira, as mandíbulas levaram a parte da frente da camisola do menino, que caiu de costas, segurando a cabeçorra e a gritar tão forte, tão alto, que ainda bem que a menina estava por detrás dos vidros para não ouvir toda aquela vergonha.
Menino e cão rebolaram. Uma porta da casa abriu-se Uma Voz gritou:
- Quieto Tarik. Ah, meu malandro que o cão mata-te!
Humilhado, segurando o que restava dos calções com a pasta, olhou, à passagem, para a casa em frente e, detrás da janela, a menina sorriu-lhe.
Nesta altura, como no cinema, ou talvez ainda mais como na televisão, reapareceu a senhora, que devia ser uma locutora de continuidade dos sonhos, e perguntou ao menino:
- E porque não gostas de buganvílias?
- Porque se não fosse a árvore eu tinha sabido que o cão estava solto.
E adormeceu.
No outro dia, a avó pediu-lhe:
- Vê se convences o teu avô a não matar a nossa buganvília.
Quando a avó morreu, nesse Inverno. sentiu um grande remorso por não ter tentado salvar a buganvília. Ainda hoje não gosta muito da árvore. Mas quando vê uma, fica perdido a olhar aquela cascata cor de púrpura.
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Lisboa, 1987

Volta ao Redondel sem Arrimanços nem Desplantes

Litri, o pai, é um velho matador que já despachou centenas e centenas de touros em momentos de suprema verdade, com praças em profundo e respeitoso silêncio. Há dias, dizia Litri que «o touro é um animal nobre, inteligente e com sentimentos. De tal maneira que quase sempre os vejo chorarem durante a faena. E a um de tal modo lhe tombavam as lágrimas que por isso mesmo o poupei».
É bonito ouvir-se falar de um adversário, seja ele quem for, com esta dignidade e com este respeito, desde que o inimigo o mereça, bem entendido. E é tão raro acontecerem ambos os factos à nossa volta que não pude hoje deixar de pensar nas palavras de Litri, o pai, proferidas para andaluza gazeta. E aqui as trago, deste modo, à colação, no que se pretende um breve comentário sobre ideias gerais, que não uma crónica tauromáquica, género aliás dos mais nobres no nosso jornalismo, ao longo dos tempos, cultivado por brilhantes penas e competentes observadores.
Só que a corrida – o respeito que lhe tenho impede-me de usar o vocábulo tourada, este mais conforme com o triste espectáculo produzido e interpretado apenas por humanóides –, por ser uma luta de morte, muito deve contribuir para que se fale e honre a vida.
Litri, o filho, que de êxito em êxito segue as pisadas paternas em ruedos onde se respeita quem combate, dizia também a um Jornal de Huelva que «o touro tem medo do toureiro. Por isso, este deve permanecer junto dele, e impor-se, para além do momento da sua morte».
Em Portugal, terra de brandos costumes, poucos são os que respeitam adversários e a sua morte; talvez assim suceda porque igualmente poucos são os que conservam amigos e os que vivem a vida tal como se deve viver; tão-pouco é raro que se assuma o mal que se pratica, de preferência e sempre que possível à porta fechada, ou à boca calada, qualidades que nos devem restar da herança dos inquisidores e dos cristãos-novos, de quem descendemos, sobrevivendo com a histórica paciência do cá-vamos-andando, preferindo esmagadoramente a resignação e dando privilégio de minoria à resistência, na esperança de virmos a ganhar, quem sabe, o reino dos céus, ora-nunca-se-sabe, pois-podia-ser-bem-pior, sempre, sempre com o credo na boca.
Mas se ao não se pretender que este breve comentário se converta, por inadvertência, em crónica tauromáquica, igualmente urge evitar a queda em filosóficas reflexões, à volta do redondel, que nem agradecimento aos tércios mereceriam. Impõe-se, portanto, que o texto consiga ficar cingido ao vago tema impreciso e suscitado por respeitosas palavras de dois toureiros dignos desse nome, por acaso pai e filho.
Ter-se-á, então, que passar pela distância que medeia entre a verdadeira corrida que só existe em Espanha e na Hispano-América e aqueles espectáculos pobres com infelizes e trôpegos novilhos forçados a coxearem atrás de bem ajaezados cavalos de não menos elegantes senhoritos. É que sou do tempo em que a cavalo e a sério havia Simão da Veiga e João Núncio, que como bem podem imaginar nada tinham que ver com os modernos Fittipaldis das vacas taurinas. E sou também do tempo em que a pé, que é como de verdade se vê quem manda, quem tem arte e outras coisas en su sitio, havia Ordoñez e Dominguin, já que um Carlos Arruza ou uma Conchita Citrón eram o qualificado prenúncio dos desplantes e dos descabelos que hoje avassalam as nossas pobres praças, nessas touradas propriamente ditas, em que até os animais chegam a ser corridos mais de uma vez, e com os cornos tão limados e embutidos com tal perfeição que a virilidade lusitana ficaria em perigo de sério desprestígio se não tivesse o apoio do fado de Lisboa e de Coimbra, que a cobre, e a canta, para satisfação da sua proverbial fanfarronice.
Enfim, também nos touros, onde nunca fomos multo assumidos, se perdeu a qualidade e a exigência, a frontalidade e o rigor, a nobreza e o carácter. As touradas com curro mais parecem, por cá, os velhos combates da Bom-Boxe.
De corrida, cada vez mais só conhecemos a das ratazanas, que é corrida traiçoeira, com fintas e tarrascadas, sem regras nem preceitos, mas obviamente ornamentada com as cortesias das falsidades e das infidelidades, ao som (em pasodoble) das traições. Para além de cada vez mais se cuspir no prato onde se come, é bom também que se diga que o queijo é cada vez mais tipo e menos serra; e o traque das ratoeiras é de tão intensa cadência que mais parece uma rajada.
Às apalpadelas e às escorregadelas tem de se avançar, prudentemente, mas sem medo e também atento ao veneno para o escaravelho, recusando até ao fim o movimento de rastejar. Enfim, tudo isto são bichezas.
Bichezas de quem é incapaz de pegar a vida de caras.