terça-feira, 26 de janeiro de 2010

À ESPERA, PELOS JARDINS

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O VELHO OLHOU, tranquilamente, para o outro extremo do jardim. Era um olhar certo, que sabia antecipadamente o que ia encontrar. Era o olhar de um velho.

As crianças que brincam naquele jardim não notam os velhos. Brincam entregues a si próprias e só elas contam, entre si; os velhos não brincam com as crianças, naquele jardim, nem reparam nelas demasiadamente. As crianças importam-se apenas consigo próprias e com as brincadeiras. Os velhos importam-se com coisa nenhuma. São apenas velhos a aquecerem-se ao sol. São velhos à espera da morte.

O miúdo louro, de quatro anos e de bola na mão, foi apanhado pela retina que fixava aquele extremo do jardim. Ria. De três em três passos, dava um pulo, na corrida. O braço levantou-se mais alto do que a cabeça e a bola foi arremessada.
O velho não seguiu a trajectória da bola e os seus velhos olhos apenas piscaram mais demoradamente mas não mais do que o necessário. Ficou-se a olhar a criança e logo a seguir o sítio onde ela estivera.

(Têm pernas nuas as crianças dos jardins e os velhos vestem pesados sobretudos e têm cachecóis de malha caseira à volta do pescoço, de peles por barbear.
Naquele jardim sossegado, diariamente, as crianças brincam por entre árvores e velhos à espera da morte, sem o perigo dos automóveis).

É curioso e estranho que estes velhos escolham um jardim para gastar os dias secos. Há velhos que são apenas velhos. Mas estes são velhos à espera da morte. Um velho que não espera mais do que acabar procura quase sempre um jardim, e é quase o único que sabe tirar todo o prazer da tranquilidade relativa do lugar.
Os velhos que não pensam ainda em acabar deixam os jardins vazios para as crianças e para os namorados e ficam-se a ver a laranjinha ou a sueca, no botequim ou no clube do bairro.
Mas os velhos que se sentem um peso morto para a família, que perderam as companheiras, que arrastam os pés e se sentam próximo dos urinóis, esses olham tudo e todos com aquela certeza antecipada do que vão ver e ficam-se, estaticamente confundidos com as árvores de grande porte.

- Como vai isso, amigo, como vai isso?
- Comé qu 'há-de ir, isto agora já não vai. Só um balde de cal e três badaladas.
- Oh, e eu nem me diga, amigo. Prà qui penamos. . .
É um dos típicos diálogos destes velhos, nos jardins que fazem lembrar cemitérios de elefantes.

Conversas destas e frases como «A morte anda cega» e «Já falta pouco para tudo se acabar» podem ali ser escutadas por qualquer curioso do quotidiano.
Não sei se foi encontrado algum velho morto, num jardim público. Mas acho que sim. «Ir ao jardim» é, afinal, a resposta à vida que se obrigam dar quando se sentem mais perto da morte. Um velho distraído, num jardim, é o balanço de uma existência; é uma soma de amarguras.
Quando um não aparece, os outros pensam que foi do frio ou, talvez, do reumático. Mas se passam mais uns dias, um há que vai perguntar. Então uma vizinha diz. «Morreu, coitadinho. Morreu na semana passada.» O velho, que foi saber, volta mais tarde do que o costume e conta ao primeiro dos outros velhos o que ouviu. A notícia vai assim correndo. Mas não a comentam em grupo, embora a possam repetir a alguns já avisados. E ficam-se por aí, porque sabem que aquilo é o que acontece em todos os casos. Pensam, então, que estão a ganhar mais uns dias ou, pelo contrário, que o camarada lhes ganhou a corrida.

(Tenho visto muitos cadáveres e entre estes os de muitos velhos. São os que apresentam no rosto rígido uma certa felicidade. Não estou a dizer nenhuma irreverência São, de facto, os «velhos-que-esperam-a-morte» que aparentam a maior tranquilidade depois de acabados, mesmo que o fim tenha sido violento.
Têm todos o ar de que não restou nada para fazer e o de a quem aconteceu, simplesmente, aquilo aguardado com a frieza das certezas antecipadas. Não se pode falar com um morto. Mas um cadáver de velho diz-nos muita coisa, serenamente.)

Se se fizesse a média dos velhos que todos os dias se finam, concluir-se-ia que, em breve, não haveria ninguém à espera da morte nos jardins públicos. Mas não se pode esquecer que, diariamente, nascem velhos; e há também jovens à espera do fim de uma «vida provisória».

Sim. Mas, e as crianças? Pois. As crianças...
Passemos-lhes a mão pelos cabelos, numa promessa. Uma promessa mútua: para elas e para nós. Porque se não soubermos dar-lhes uma vida definitiva, então, amigos, não haverá, quando o nosso tempo também chegar, velhos nos jardins. A menos que não sintamos vergonha ao encararmos com as crianças.

7 comentários:

Diogo Dias disse...

bem, que texto belo. eu vi o excerto noutro blog e comentei lá, mas o texto completo está ainda mais poderos, forte, certo.

Anónimo disse...

Pois é.
Na minha aldeia/vila, no concelho do Fundão, é no adro da Igreja que esperam.
Ou num lar ali perto.
Jmonteiro

Anónimo disse...

Gostei do texto mas substituiria o termo “velhos” por ... por exemplo, idosos. É um termo mais suave. “Velhos” já caíu em desuso aqui nos meus lados...

Anónimo disse...

Gostei do texto mas substituiria o termo “velhos” por ... por exemplo, idosos. É um termo mais suave. “Velhos” já caíu em desuso aqui nos meus lados...

Carlos Medina Ribeiro disse...

Estas crónicas de JL foram publicadas em jornais, e mais tarde em livro, em 1987 (editado por «O Jornal» e pelo «Circulo de Leitores».

Anónimo disse...

Assim está justificado o termo em desuso.

Divino C. R. Leitão disse...

Prezado Joaquim,

Por mero acaso encontrei seu Blog e não pude deixar de ler um monte de posts antes de poder voltar as minhas atividades.

Gostaria de pedir que habilitasse algum dos plugins do Blogger para permitir o acompanhamento de seus textos, porque os adorei e estou recomendando-os em meu Blog.

É um grande prazer deparar com alguém que sabe cuidar das letrinhas e se expressar tão bem quanto voce... e adorei a ironia de dizer que são para ler e deitar fora, embora prefira o título de que é para chorar por mais.

Parabéns, estarei sempre por aqui e já ganhou um admirador de além mar.

Um 2010 dourado a você.

Divino Leitão