Figuras simpáticas sulcam as salas a uma velocidade de cruzeiro constante, extremamente manobráveis, com braços e sorrisos sincronizados, respectivamente para o uísque e para as pessoas, quer dizer, sorrindo à direita enquanto o braço esquerdo apanha na passagem um copo do tabuleiro que vem em sentido contrário.
Sabem conviver telegraficamente: sete palavras a este antes de arrancar para aquele, passando pelos croquetes, com respectiva pausa posterior para deglutir o primeiro e engolir o segundo com tempo no caminho para limpar os dedos ao cortinado.
São perfeitos e eficientes. Trata-se, sem dúvida, duma arte difícil: sorrir enquanto se mastiga, gargalhar enquanto o caviar desliza pelo esófago e principalmente conseguir comer relativamente bem sem que se dê por isso. Parece evidente que escrevo estas linhas por despeito, mas, no fundo, trata-se duma inveja que não consigo esconder.
E sabem porquê. É fácil, nos cocktails só consigo comer pinhões, o que para além de engordar reconheço não ser maneira de estar em sociedade.
As mais das vezes, uma pessoa chega cansada, atrasada, contrariada, apressada. Metem-lhe um copo na mão, um bolinho de camarão no outro, acertam-lhe com um sorriso e desaparecem duma forma que é como quem diz «governa-te!».
Uma pessoa penetra em todo aquele abafado ruído dentário, navega à bolina por entre pãezinhos de leite e olhares acusadores. Quando a confiança começa a regressar, invariavelmente a dona de casa diz.
- Ainda não o vi comer. Não faça cerimónia. Faz favor de estar à sua vontade.
E lá se vai essa confiança, na eloquência dos nossos «hum, hum», com o folhado a saltar-nos da boca para a carpeta, com o sorriso transformado em esgar violáceo, com a consciência a perguntar sobre quem vai pensar e acreditar que aquela era a primeira empada?
- É por causa destas e doutras que admiro e invejo a actuação de quem pratica com à-vontade as regatas do rissol.
E é com tristeza que só consigo comer pinhões descascados. Minto: às vezes também como amendoins ou castanhas de caju.
1 comentário:
Um verdadeiro gentleman, o JL!
Leio o texto e na competição náutica só consigo vislumbrar homens. O uísque não estará lá por acaso. É a bebida deles!
A única senhora é a dona da casa... simpática, atenciosa e de boca vazia como convém a quem tem que saudar os convidados e ordenar aos empregados.
Meter senhoras nos barcos obrigalo-ia a falar de malinhas de mão que engordam ao longo da recepção. Tornava-as humanas como nós.
Mas elas são Deusas... não têm defeitos. Também é assim que eu gosto de pensar nelas :-)
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