- Estás louco, põe-te bom. Vais ficar bom e vamos tentar de novo.
A cabeça parecia estalar ao homem, com dores e pressões internas que não o deixavam quase pensar, sentindo-se unicamente melhor com os olhos fechados e com a cabeça na almofada, o corpo aquecido sob as cobertas da cama.
- Para que sirvo eu, assim?
- Homem, porque estares a mortificar-te e a fazeres-me sofrer a mim?
A ideia ganhara forma na sua cabeça dorida. Apetecia-lhe ficar assim, de olhos fechados, a dor a latejar, as têmporas a estalar, o calor da cama, sozinho, sem ruídos em casa, sem crianças a fazerem barulho, sem o toque do telefone, sem os saltos altos da mulher a matraquearem o soalho envernizado. Queria que o deixassem sofredor, dorido e abandonado.
- Deita-me fora e arranja um gajo em condições, amanhã.
O dia crescia em horas desde que estava doente. As dores não permitiam que dormisse, a vida passava diante dos olhos cerrados e encovados e os dias escoavam-se inúteis, sem vida nem objectivo, sem amor nem esperança.
- Porque não me internas tu?
- Parece que não sabes como estão os hospitais.
- Parece que não sabes como estão os hospitais.
Para o bem e para o mal, na saúde e na doença, dissera muitos anos antes o padre. Mas hoje, nada disso fazia sentido. A mulher arranjava-se de manhã, cuidadosamente, e saía para o trabalho, perfumada e atraente, depois de horas sofridas ao lado do seu corpo sem utilidade. E ele ficava a roer-se, de ciúmes e de dúvidas, de interrogações, de vontade de não ser enganado, de nada ter que ver com ela, livres os dois para o que cada um entendesse.
- Não estás melhor?
- Não, não estou melhor.
- Vamos ver o que o médico diz amanhã. É dia de consulta, amanhã.
- Não, não estou melhor.
- Vamos ver o que o médico diz amanhã. É dia de consulta, amanhã.
Mas os dias e as consultas iam passando e não estava melhor. Pelo contrário – cada vez mais lhe apetecia fechar os olhos e deixar correr. «Abandonem-me aqui», pensava «deixem-me aqui a apodrecer, como um grande desgraçado, com a barba a crescer, os olhos a encovarem-se, o sorriso a rarear, os ombros a responderem cada vez mais a todas estas perguntas estúpidas que me fazem e a que não me apetece responder.»
- Amanhã arranjas um gajo em condições e deitas-me fora, tá bem?
- Homem, não me castigues assim... Sabes que te amo, que te quero bom depressa, e que vivamos os dois até ao fim dos nossos dias sempre juntos.
- Homem, não me castigues assim... Sabes que te amo, que te quero bom depressa, e que vivamos os dois até ao fim dos nossos dias sempre juntos.
A ofensiva que desencadeara não resultava. A mulher não o deixava, as dores não abrandavam, o ciúme não se desvanecia, os dias arrastavam-se cada vez mais inúteis, mais estéreis, mais sem sentido ou justificação para o que quer que fosse.
- Deita-me para o caixote do lixo, arranja um gajo em condições, para ti!
- Deita-me para o caixote do lixo, arranja um gajo em condições, para ti!
Era uma insistência estúpida e sem nexo. Era uma contradição para com os desvelos quase maternais que a mulher desenvolvia, diariamente para que pudesse sentir-se melhor. Era um insulto para a mãe dos seus filhos, uma mulher de trabalho que se sacrificava desde as seis e meia da manhã, todos os dias, deixando tudo feito em casa e partindo fresca para o trabalho.
O médico veio no dia seguinte. Respirou fundo, tossiu, arregalou os olhos sob a luzinha da lâmpada, mostrou a língua e estendeu-se de novo na cama. O médico interrogou a mulher e foram os dois para a sala de jantar, passar receitas, discutir sintomas, essas coisas. Ficou deitado a apertar o pijama, os dedos a tremerem nos botões, um formigueiro na nuca, um desejo de se deitar e ficar só, de novo. Tacteou o chão com os pés, em busca dos chinelos, a fim de poder ir à casa de banho. Levantou-se trémulo, segurando-se aos móveis, sem ruído. Quando, no corredor, olhou para a sala de jantar viu a mulher e o médico. Ficaram os três a olharem-se uns para os outros, sem palavras. Acabou por ir à casa de banho e regressou à cama, apagou a luz e ficou quieto, sem mover um músculo. Olhou o tecto sem o ver. Pela primeira vez em muitos meses não sentia dores, nem pressões sobre os olhos nem a nuca a latejar.
O silêncio, na casa abandonada, era completo. Pela primeira vez em meses longos e seguidos se sentiu bem e adormeceu convencido de que ao fim do dia ninguém regressaria àquela casa onde, finalmente, poderia apodrecer em paz.
O médico veio no dia seguinte. Respirou fundo, tossiu, arregalou os olhos sob a luzinha da lâmpada, mostrou a língua e estendeu-se de novo na cama. O médico interrogou a mulher e foram os dois para a sala de jantar, passar receitas, discutir sintomas, essas coisas. Ficou deitado a apertar o pijama, os dedos a tremerem nos botões, um formigueiro na nuca, um desejo de se deitar e ficar só, de novo. Tacteou o chão com os pés, em busca dos chinelos, a fim de poder ir à casa de banho. Levantou-se trémulo, segurando-se aos móveis, sem ruído. Quando, no corredor, olhou para a sala de jantar viu a mulher e o médico. Ficaram os três a olharem-se uns para os outros, sem palavras. Acabou por ir à casa de banho e regressou à cama, apagou a luz e ficou quieto, sem mover um músculo. Olhou o tecto sem o ver. Pela primeira vez em muitos meses não sentia dores, nem pressões sobre os olhos nem a nuca a latejar.
O silêncio, na casa abandonada, era completo. Pela primeira vez em meses longos e seguidos se sentiu bem e adormeceu convencido de que ao fim do dia ninguém regressaria àquela casa onde, finalmente, poderia apodrecer em paz.