- Homem, estás mais novo uns dez anos! - disse ao encontrar um amigo.
- Tenho a mulher e as miúdas fora de Lisboa - respondeu-me ele com um sorriso de totalista solitário do totobola.
Comecei então a trabalhar.
«Que vantagem encontra no facto de estar sozinho em Lisboa?», perguntei a diversos casados, temporariamente solteiros, em virtude das férias das consortes.
«Bom, compreende, não é... um homem sempre pode... percebe? Não é verdade?...», responderam oitenta por cento dos entrevistados.
«A principal vantagem é poder estar-se só, em casa, ir nu da sala para a casa de banho, não ouvir o ruído das crianças e... gastar menos dinheiro no cinema», declararam-me doze vírgula um por cento.
«Não vejo qual seja a vantagem», afirmaram seca e inquietadoramente um vírgula quatro por cento.
Os restantes seis e meio por cento foram categóricos: «Ter a família fora é uma maçada! O pó acumula-se, a casa desarruma-se mesmo com uma empregada a cuidar dela, as refeições dos restaurantes estão cada vez mais caras e dão cabo do estômago a uma pessoa e, ainda por cima, temos que estar em casa a horas certas para receber o telefonema da mulher. Fartos! Estamos fartos!!!»
Informaram-me, entretanto, que se está a pensar, algures, na criação da Associação dos Homens Pacatos com Família em Férias (AHPFF), a qual teria por principal objectivo distrair os espíritos e arrefecer os ânimos com filmes culturais, saraus literários, livros morais, capilé, salsaparrilha e cigarros mentolados.
Quem foi que disse que estes homens são felizes? Parece-me antes que estes homens de cara alegre são, pelo contrário, profundamente infelizes. Saem de casa com a alegria de todos os momentos disponíveis, mas quando voltam para o lar vazio e se deitam, sozinhos, ainda com menos dinheiro, cansados, os pés a doer, devem murmurar: «Amanhã à noite vou fazer as coisas mais bonitas que um homem...»
Sonhos. Sonhos antecipadamente adiados.