domingo, 8 de junho de 2008

Onde a carta ao director passa a crónica de última página

Senhor Director

Juro que esta é uma vez sem exemplo, palavra que eu não torno. Vosselência sabe bem que eu não me meto na política, que a minha política é o trabalho. Mas esta semana, vez sem exemplo, palavra que eu não torno, sinto este irresistível apelo de escrever sobre política.
Não pretendo, creia-me, substituir-me a Vosselência, nem competir com V. ilustres confrades desse género difícil e ingrato que é análise política, tanto mais que tal tarefa exige muitos conhecimentos, excelsa perspicácia, grande isenção e informação actualizada (à qual nem sequer disponho de acesso).
O meu impulso, esta semana, seria contribuir através do espaço que Vosselência me concede para fazer uma sugestão que provavelmente pode não ter ainda ocorrido a quem de direito. Não queria, portanto, alinhar na crítica a este Governo do professor Cavaco, nem tão-pouco fazer coro com aqueles que, por razões igualmente respeitáveis, o apoiam. O que eu gostaria, Senhor Director, era que Vosselência me autorizasse a fazer aqui a minha sugestão para o bem do nosso querido Portugal.
É certo que o Executivo actual pode muito bem arranjar um novo fôlego neste intervalo que vai até ao fim do campeonato do Mundo de Futebol. Poderão o professor Cavaco e seus rapazes fazer o que entenderem, que as pessoas só vão dar por isso em Outubro. E nessa altura vão ficar entretidas com o entra-não-entra do general Eanes no PRD e o Governo poderá dar uma segunda demão na sua maquilhagem para disfarçar as rugas que hoje já começam a aparecer.
No entanto, não é nada disto que quero dizer. Em política não me meto, a minha política é o trabalho. Eu só pretendo fazer uma sugestão a quem de direito, para bem do nosso querido Portugal. E palavra que é uma ideia que me ocorre há muito, mas que, face ao Campeonato do Mundo, ganhei coragem de apresentar a Vosselência.
Já reparou, Senhor Director, em quem treina a selecção de Marrocos? Anotou, Vosselência, quem diz ao Abder Karim como deve rematar? Pois claro que Vosselência reparou - é o meu amigo José Faria, um brasileiro, que em árabe nem é capaz de dizer «Salaam alekum».
E notou também, Senhor Director, quem treina a selecção do México? Claro que sabe que é um jugoslavo.
E pensou Vosselência onde jogam o Platini da França, o Boniek da Polónia, o Madjer da Argélia e o polaco dos bigodes que é guarda-redes, além dos dinamarqueses todos da Dinamarca?
É evidente que Vosselência sabe. Eles jogam na Itália, na Bélgica, em França e no Porto e em tudo que é sítio menos nos países deles.
Claro que aqui podia haver críticas, inspiradas na Administração Reagan, que não poupa aos cubanos que jogam em Angola, ou aos soviéticos que reforçam a equipa em Cabul no Afeganistão. Mas não há. Para disfarçar, estes jovens futebolistas vão de cooperantes para outros países, mas com contratos melhores do que aqueloutros pagos pelo PNUD, pela UCTAD, UNICEF, UNESCO, FAO e outros organismos internacionais.
Portanto, deste modo, estão afastadas as suspeitas de internacionalismo proletário, que ficam só para os cubanos e soviéticos, e é bem feito, para eles não se meterem onde não são chamados.
Mas de política eu cá não percebo nada, nem quero perceber, a minha política é o trabalho. O que eu quero é fazer uma sugestão a quem de direito para bem do nosso querido Portugal.
Reparou também o Senhor Director que nós por cá vamos buscar estrangeiros para nos ajudarem no desporto. Temos americanos no basquetebol, todas as nacionalidades no futebol, exportamos hoquistas, enfim, aderimos com naturalidade a esta prática universal.
A minha ideia, portanto, Senhor Director, para Vosselência aproveitar como melhor entender e fazer chegar a quem de direito, é a seguinte:
Se importamos quem nos faz falta no desporto, porque não fazemos o mesmo na política?
Com um bom contrato, por dois anos, que os governos também não duram mais do que isso, nós podíamos cá ter quem nos ajudasse a superar as nossas dificuldades, e trabalhasse para o bem do nosso querido Portugal.
Dependeria da Assembleia da República limitar, ou não, o número de estrangeiros. Mas poderíamos assim permitir ao professor Cavaco Silva que, quando os Portugueses acordassem, em Outubro, encontrassem um novo elenco.
Quero eu dizer - que não percebo de política, a minha política é o trabalho - que, se o professor Cavaco aproveitasse esta ideia, poderia estar a preparar-se para a próxima época.
Que me diz o Senhor Director a uma remodelação que metesse no Governo, como vice-primeiro-ministro, Adolfo Suárez, de Espanha, e como ministro dos Negócios Estrangeiros Henry Kissinger, dos Estados Unidos, tendo o ministro das Finanças e do Plano Helmut Schmidt, da RFA?
Ou se preferir, porque não poderíamos abusar do número de estrangeiros, Giscard D' Estaing vice-primeiro-ministro - o primeiro-ministro seria sempre o professor Cavaco, bem entendido -, Pierre Trudeau nos Negócios Estrangeiros, Willy Brandt na Cooperação, James Carter na Agricultura?
Não acha o Senhor Director que esta é uma boa ideia?
É ou não é uma ideia construtiva, que só poderia beneficiar o nosso querido Portugal? Cá por mim não hesitava. Mas isto é com quem de direito. Eu destas coisas não percebo nada. A minha política é o trabalho.

Mesa para dois

SENTA-SE MUITO DIREITO, raramente sorri quando o servem, sejam empregados ou mesmo o patrão. Alisa com grande cuidado o casaco, puxa as calças no sentido de proteger os vincos irrepreensíveis e, com um toque, certifica-se de que o nó da gravata está no seu sítio. Estuda a descrição dos pratos do dia com a atenção de um general a analisar uma ordem de batalha, apesar de almoçar naquele restaurante vai bem para trinta anos. Lê a lista dos vinhos, embora sempre queira o mesmo, determinada meia garrafa de branco, e faça sempre a mesma recomendação:
- Gelado, mesmo muito gelado.
E depois de dizer essas palavras sábias, encosta-se ao espaldar da cadeira com a força de quem espera que alguém venha tentar arrancá-lo dali.
- Duas pessoas, não é verdade, senhor Domingos?
- Duas pessoas, evidentemente. Mas eu não espero.
Há quase trinta anos que almoça neste restaurante todos os dias úteis. Sozinho, hirto, saboreando pequenos goles do vinho, maduro no Inverno, verde no Verão. À sua direita, jaz sempre um talher, um copo e um guardanapo que em todo este tempo nunca foram utilizados.
- Podemos servir, senhor Domingos? Senão o peixe arrefece...
- Amigo não empata amigo. Sirva, que, se entretanto chegar as desculpas são-me devidas.
Quando um empregado começa a trabalhar naquele restaurante explicam-lhe, invariavelmente, quem é o Sr. Domingos, o que come, que é sempre ou linguado grelhado ou filetes de pescada. E explicam-lhe que bebe sempre branco, maduro no Inverno, verde no Verão. E baixando a voz pedem ao novo empregado que não preste demasiada atenção ao talher que o Sr. Domingos exige vai para trinta anos, naquela mesa para seis pessoas, junto à janela, onde acaba sempre por comer sozinho.
Invariavelmente às doze e quarenta, o Sr. Domingos entra no restaurante. É uma hora estratégica, pois cinco minutos mais tarde a casa começa a encher-se e deixa de haver mesas vagas. O Sr. Domingos nunca fez uma reserva.
- Um aperitivo, senhor Domingos?
- Pode ser o costume. Um porto seco
- Duas pessoas, senhor Domingos?
- Duas pessoas, evidentemente.
Pode pensar-se que gosta de comer sozinho. Mas se esse é o caso, já não se entende que não recorra a um jornal, livro ou revista para afastar os importunos.
Poderia explicar o dono do restaurante, onde há quase trinta anos o Sr. Domingos almoça, que este é o dono de uma ourivesaria. Foi o Sr. Domingos, aliás, quase engenheiro. Estudava no Instituto Superior Técnico, quando o pai, fundador da ourivesaria que se dizia pertencer ao Sr. Domingos, se finou. Segundo a mesma fonte, ou seja, o dono ao restaurante, na sua crónica para entreter secos e molhados diz à boca pequena que o pai do Sr. Domingos, o ourives, teria falecido no supremo esgotamento de um coito pós-cozido à portuguesa, portanto a uma quinta-feira, num escândalo logo abafado, como a moral impõe, ao qual terá sobrevivido uma extrovertida manicura de uma barbearia da Baixa.
Instado pela mãe («E agora, filho, quem toma conta do negócio, o que vai ser de nós?»), o Sr. Domingos deitou as propinas às malvas, nunca mais pôs os pés no Instituto Superior Técnico e atirou-se às escravas, medalhas, anéis, correntes de relógio, brincos e outros pequenos objectos que são minúsculos sinais exteriores de desafogo, ou títulos de aforro, e que ele pacientemente também vende através de pequenos pagamentos mensais.
Ninguém se atreve a falar ao Sr. Domingos.
Todos se ficam pelo cumprimento de cabeça e só quem trabalha naquele restaurante ou crianças que vendem pensos ou lotaria ousam dirigir a palavra ao Sr. Domingos.
- Duas pessoas, senhor Domingos?
- Duas pessoas, evidentemente.
Um dia passou pelo restaurante um empregado que ali pouco tempo trabalhou mas que deixou uma dúvida profunda, que permaneceu para além da sua efémera estada.
Um dia de calor, às quatro e meia da tarde, à mesa com todos os seus colegas, incluindo as carnes distendidas e suadas das cozinheiras, servindo-se de mais grão, esse ladino empregado lançou inquietações que sobreviveram anos. Referindo-se ao Sr. Domingos, a quem pela primeira vez servira nesse dia, o jovem perguntou:
- Mas afinal o gajo está à espera de um homem ou de uma mulher?
Naquele calor húmido, à volta dos restos concentrados do bacalhau com todos, do chispe à transmontana e do arroz de tomate, pairou uma grande inquietação. Nunca ninguém pensara nisso, e logo ali as opiniões se dividiram. Para uns, o desprendimento com que O Sr. Domingos dizia não esperar mais levava-os a ter a certeza, nascida naquele instante, de que se tratava de um homem. Para outros, que julgavam por suspiros que garantiam ter escutado, era irremediavelmente uma donzela quem há perto de trinta anos faltava, todos os dias, ao almoço com o Sr. Domingos.
Esta semana, o mistério ficou deslindado. E, ainda ontem, os empregados e até o proprietário do restaurante sorriam para o Sr. Domingos.
A descoberta ficou a dever-se à entrada de uma velha senhora, que, muito digna, mas envergonhadamente, procurava vender pequenas rosas vermelhas aos homens que ali almoçavam acompanhados por mulheres. Mas nem a doçura da companhia lhes adoçava o gesto seco e sem apelo com que afastavam a velha senhora que vendia pequenas rosas, digna mas envergonhadamente, no restaurante onde o Sr. Domingos almoça, todos os dias úteis há perto de trinta anos.
No meio de um silêncio súbito e de muitos olhares cruzados, o Sr. Domingos disse alto e bom som:
- Deixe ver uma rosa dessas para a minha amiga que pode ser que apareça hoje.
E ontem já o empregado perguntou ao Sr. Domingos:
- Mesa para si e para a sua amiga, não é verdade senhor Domingos?
- Claro, como sempre. Nunca se sabe quando ela vai aparecer. E dois copos para o branco gelado. Mesmo muito gelado.

Pela hora da morte

TODA A GENTE DIZ que a vida já não é o que era. Mesmo aqueles que vivem bem, na abastança, assim o entendem, o que impede que este desabafo possa constituir privilégio dos humildes.
A vida já não é o que era. É um facto. Mas a morte também não.
Quer nos confortos e nos pormenores que nos dão os mimos da vida, quer nas alegrias e nas dores que nos temperam a existência, ou nas pompas e nas circunstâncias com que antecedemos o fatal desenlace, que será o «grande final» de todos e cada um, se perdeu, irrecuperavelmente, a qualidade.
Morrer, hoje em dia, além de estar pela hora da morte, já não é o que era.
Morremos mal e depressa. Os nossos amigos nem sabem bem do que morremos e os nossos inimigos lançam facilmente insidiosos boatos na maior impunidade, por meio de melífluos sorrisos que parecem querer dizer tudo e não dizem nada, mas que são mortíferas certidões de óbito da nossa virilidade, da dignidade dos nossos herdeiros. Definitivamente, não se pode morrer em paz.
Os testamentos são raros. Essa celebração hipócrita, de negro irrepreensível à volta de um notário de voz trémula e solene, de olhar perscrutador perseguindo todas as reacções da assembleia, praticamente desapareceu.
Resta aos vivos a emoção instantânea e sem glória do totoloto ou a pinderiquice de um carro no «Um, dois, três». Resta aos mortos deixarem dívidas sem honra ou andares de juro bonificado.
Amigos do peito, daqueles para todas as ocasiões a ponto de porem gravata preta no dia em que nos acompanham à última morada, já não há. Hoje, o traje para um funeral ou é ditado pelo acaso ou envergado em consonância com a caracterização dos acompanhantes.
Morre um amigo, pintor de arte. Vai-se de camisa branca, dois botões abertos, fio de ouro grosso, blazer azul-marinho, jeans, sapatos de pala, de preferência com elástico verde e vermelho, a imitar Gucci.
Morre um amigo, gestor de empresa pública. Vai-se de príncipe-de-gales cinzento, camisa azul Oxford, gravata azul-escura a contrastar, preferivelmente de seda pura e adamascada.
Morre a mãe de um amigo. Não se vai. Manda-se telegrama e espera-se junto à pia da água benta a saída da família em missa do sétimo dia.
Morre uma actriz que se admirava. Vai-se para que toda a gente pense que teria havido coisa em que se não deve pensar, muito menos em tal momento, e envia-se um bouquet de rosas Baccarat.
De flores, nem falar se deve. Dispendiosas e importadas, quase inodoras, não deixam mais aquele cheiro típico de enxerto em cera de círio que se consumia lentamente nos tempos dos velórios a sério.
Coroas. É bom nem referir. Toda a gente sabe que quase não há.
Os necrófilos foram extintos como libelinhas. A necrofilia erradicada, como a varíola, e nem se manifesta nas formas mais suaves e benignas, cujos sintomas eram facilmente detectáveis nos olhos gordos que escorriam para o negro acanalhante de um vestido de viúva, ou para o brilho cintilante e convidativo de um par de alianças ostentado no mesmo dedo branco e leitoso de carnuda viúva, ou de esguio e austero viúvo.
O respeito de um cortejo automóvel, de marcha pesada, longo comboio negro reluzente a atravessar a cidade que respeitosamente tirava o chapéu à sua passagem, que silenciosamente encomendava almas ao Criador, cedeu lugar à buliçosa gincana de carros vermelhos ou cinzento-metálicos, japoneses, com prova de perícia final junto ao cemitério, onde as badaladas se confundem em ritmo alucinante de última volta de corrida de atletismo. As três badaladas e o balde de cai converteram-se em imagem literária, reduziram-se ao pó da liberdade poética.
As carretas puxadas por três parelhas de cavalos ajaezados de negro e prata, de grandes palas sobre os olhos com cocheiros e trintanário, mestre-de-cerimónias e carpideiras, são recordações nostálgicas de meninos dos anos 40, a embaciarem com o bafo húmido as vidraças das tardes de Novembro, trémulos de medo do quarto escuro.
Hoje, viaja-se para a última morada em Mercedes panorâmico, com rádio-telefone e bancos de autopullman tipo familiar.
Da promiscuidade post mortem é melhor nem falar.
Quem se lembra do tempo em que também na morte todos sabiam o lugar que lhes pertencia? Onde vai o tempo em que, nos jazigos, as prateleiras de cima se deixavam para os avós, as do meio para os pais, as rés ao chão para os filhos, que deveriam morrer em seu tempo, e no subsolo havia sempre lugar para um velho criado sem família, ama de leite ou caseiro dedicado?
Como se pode ser indiferente a esses mausoléus que albergavam urnas de bom: mogno incrustado, com fotografias sorridentes em molduras de laca, madrepérola e prata, anjinhos de canteiro, ou mesmo de escultor, tocando trombetas dos dois lados do nome de família honrada, de preferência soletrado com duas consoantes, e tudo isto dominando as classes mais desfavorecidas, alinhadas onde lhes competia, no pó a que regressavam, cruz, sim, cruz sim?!
Sobretudo, como se pode não fazer o sinal da cruz perante a promiscuidade em que cada um cai hoje, depois de morto, esse festim de urnas acolchoadas em jazigos onde já nem se respeita a tia morta no Caramulo, de tuberculose; onde se tem dúvidas sobre qual é a urna do pai, onde se chega sem que a opinião pública, aqueles que contam, leiam uma coluna necrológica como deve ser, como as de outros tempos, em que havia extintos benfazejos, famílias beneméritas e senhoras muito esmoleres?
Na impossibilidade quase certa de, no que respeita à liturgia da morte e suas indústrias subjacentes, acompanharmos o que de bom se pratica lá por fora, onde os cemitérios parecem greens sem golfistas e cuidadosos caracterizadores nos maquilham extremadamente para que repousemos sem olheiras; na certeza de que os bons tempos ora aqui evocados não voltarão para todos nós que ainda não fomos a Deus chamados a servir em Sua presença, resta-nos a reconfortante conclusão, reconfirmada na paz deste domingo, que a única coisa a fazer é viver o mais e o melhor possível. Ainda que saibamos que a vida já não é o que era.

O crucifixo da tia Alícia

ADORAVA IR LANCHAR a casa da minha tia Alícia. Patinava no corredor, jogava hóquei em patins com a bengala dela, bebia chocolate quente até me doer a barriga e, no regresso a casa, enquanto esperava o eléctrico no Largo do Carmo, enchia os pulmões de cheiro a cavalo, que, a partir do quartel da GNR, me dava a sensação de que as ruínas do convento eram despojos de batalha acabada de travar.
Eram poucas as vezes, no entanto, que ia àquele casarão pombalino, cheio de sombras, de rangidos e estalidos. Talvez por lá ir muito espaçadamente, ficaram gravados na minha memória todos os momentos que ali passei.
Tudo me era permitido por aquele anjo protector que sempre foi a minha tia. Recordo-me da tarde em que, numa jogada fulminante, entrei na área dos espanhóis e rematei, imparável, a «stickada» que deu a Portugal o golo da vitória no Campeonato do Mundo. Foi um estrépito enorme que acolheu aquela minha triangulação com Jesus Correia e Correia dos Santos. Em cacos, o bengaleiro de louça de Coimbra desfez-se, no tapete de Arraiolos.
- Deixem lá, coitadinho - dizia sempre a minha tia -, se ele não faz estas coisas agora, quando querem vocês que ele as faça?
Só a vi triste quando lhe deixei cair da janela das águas-furtadas, de onde tentava ver um par de pombos a acasalar, os binóculos prismáticos que tinham pertencido ao meu defunto tio Alfredo. Pesados, longos, negros e frios, os binóculos com que o meu tio se munia para assistir às regatas, despenharam-se nas pedrinhas da calçada, transformados em inúteis caleidoscópios a preto e branco e que, na queda, podiam, ter morto alguém.
- Pronto, não se fala mais nisso - dizia a minha tia -, isto são coisas que acontecem.
Mas não conseguia disfarçar a tristeza que devia sentir quando acariciou o corpo, frio e inútil, do instrumento que a velha criada fora apanhar à rua, trazendo-o na mão como um par de maracas, chá-chá-chá, abanando a cabeça e suspirando «Ai, menino, ai menino.»
A minha tia e a criada pareciam duas meninas, embora ligadas entre si por mais de quatro décadas de doenças e de mortes, de cautelas de penhor clandestinas, de encontros sub-reptícios e saídas furtivas, de ave-marias e padre-nossos em comum, a duas vozes, na penumbra do oratório.
O oratório era uma pequena antecâmara do quarto da minha tia. Tinha um enorme Cristo na cruz, quase em tamanho natural, e eu não resisti, um dia, a ir estudar-lhe as chagas das lanças dos romanos, encarrapitando-me numa pilha de almofadas de cetim amontoadas no veludo do genuflexório.
Dessa vez, a minha tia Alícia foi de extrema severidade para comigo. Agarrou-me por uma orelha e, com uma crueldade contida que ainda hoje recordo, disse, batendo as sílabas uma a uma:
- O menino nunca mais ali entra. Se volto a vê-lo naquele quarto, nunca mais põe os pés nesta casa!
Nessa noite, na escuridão do meu quarto, apanhando a renda do travesseiro, não consegui descortinar qual poderia ser a relação secreta entre Alícia, a minha tia, e aquele Cristo que me fascinava em tamanho natural, nu e cor de carne, com chagas a sangrarem e que dava a sensação de ter acabado de expirar ou de estar à beira do último suspiro. Já homem, viria a descobrir que esse era o fascínio daquele belo crucifixo: a proximidade da morte, pouco importava se ocorrida ou prestes a acontecer.
Foi nessa altura, muitos anos passados sobre a ameaça gélida da minha tia, à luz da lamparina de azeite do oratório que decifrei também a razão da sua crueldade contida.
Ao contrário da imagem generalizadamente conhecida de Jesus, aquele Cristo não tinha barba. Não só não tinha barba como era a cara do jovem que jazia em sépia, no florão de cobre da moldura que segurava um naperão sujas pontas tombavam, como um xaile, sobre o teclado cor de marfim velho do piano vertical, de quatro pedais que, mudo, enfeitava a sala de visitas.
- Queres ficar com o Cristo como recordação da tua tia? - perguntaram-me com a cerimónia desinteressada de um inventário post mortem.
- Não – respondi. - Quero apenas um pequeno objecto pessoal, que seja realmente uma mera recordação.
Nunca mais vi aquele Cristo nem sei o que foi feito de Jesus. Guardei apenas uma pequena pistola niquelada, de coronha de madrepérola, que me recorda uma senhora que cresci a venerar como uma santa, incapaz de fazer mal a uma mosca.

Ai coração, coração

ANDAMOS JÁ A VIVER com os corações uns dos outros. Devíamos deixar de correr por aí, voltar a poder fumar vários maços de cigarros por dia e beber sem restrições. Quando o nosso coração começasse a dar sinais de querer estoirar, a gente encomendava um bom coração, com pouco uso, para aí de dezoito, vinte anos, no máximo, e quando o «berro» viesse aí a gente trocava.
Ganhávamos assim, sem alardes, sem campanhas, sem sacrifícios nem correrias, um coração jovem.
Por mim, estou totalmente de acordo. Põe-se-me apenas uma única questão, e esta é a dos sentimentos.
Eu explico.
Desde pequenino que ouço dizer que Fulano tem bom coração, que ouço murmurar «trago-te no coração», que ouço afirmar que Sicrana tem «um coração de pomba», e que a mãe dela tem «um coração do tamanho desta casa». Portanto, a questão é realmente esta - vai-me custar a acreditar que o coração é só uma bomba que, pumba-pumba, nos põe o sangue a correr pelas veias Desde que o sul-africano Christian Barnard começou a trocar corações que espero que alguém me esclareça. Falou-se em anticorpos, em aceitação, mas quanto a sentimentos, nada...
Quero dizer na minha: a gente fica com um coração novo, deitam o nosso para o balde, e depois?!
Ficarmos com as paixões do dador, os seus bons ou maus sentimentos, passamos a ficar apaixonados por quem aquele coração novo sempre bateu, passamos a odiar quem aquele coração não perdoa?
Ninguém me explica...
Pejo sim pelo não, penso que é melhor reformular pelo menos o fado e o tango, que são as canções mais cardiológicas que conheço. Mas a sério: já pensaram nisto com certeza. Como será? Já alguém perguntou a um receptor de coração transplantado:
- Ainda gosta da sua mulher? Sente a mesma coisa pelos seus filhos?
Ninguém teve coragem de perguntar isto. E deve haver uma razão para isso. Porque naturalmente que o entrevistado não responderia com sinceridade. Já imaginaram alguém, ligado aos tubos, cheio de fios, depois de tanto ter sofrido, agradecer o apoio dado por toda a família com uma declaração brutal, mas sincera, do tipo:
- Vocês não significam nada para mim. O meu amor agora é outro.
Devia ser o bom e o bonito.
Desta forma, creio que a única maneira de saber o que se passa, depois do transplante de um coração, é um repórter submeter-se a essa experiência. Se eu ainda fosse jornalista de redacção, com agenda a cumprir, e visse que me tinham marcado «Letria - coração novo», metia-me num automóvel, chegava ao hospital e dizia ao cirurgião.
- Doutor, faz favor. Mas deixe-me saber antes, com precisão, de quem é o meu coração novo.
E preparava-me. Pedia nomes de namoradas, de pai e de mãe, de patrões, de colegas e camaradas, de amigos e inimigos. E tentava perceber o que se iria passar quando acordasse. E verificaria se, de facto, tinha perdoado tudo aos meus inimigos, se já não amava quem amei, se tinha amores novos. E escrevia tudo isso numa reportagem que o jornal classificaria de sensacional e em grande exclusivo, contava tudo com muito cuidado e rigor, ainda quente, quer dizer, ligado ainda à máquina do bip-bip.
Depois, dava uma conferência de Imprensa. Reunia autores de letras, trovadores e poetas e dizia-lhes:
- Meus amigos, deixem-se disso. Não digam mais «o meu coração bate por ti». Não escrevam mais sobre o coração. O coração, meus amigos, é uma bomba hidráulica. Faz pumba-pumba e nada mais. Essa coisa da dor de corno, musical ou poética, está mas é toda na cabeça, aliás apropriadamente.
Se calhar, desligavam-me a máquina. Ou alguém indignado me pisava o tubo. Não seria de estranhar, porque se ainda ninguém falou destas coisas é porque deve haver uma razão de peso, possivelmente um contrato que se eu o denunciasse, me despedaçava o coração. Mas juro que faria de tudo isto uma campanha, nem que tivesse de transmitir em morse, com os bip-bip da máquina:
- O que o Dom Pedro mordeu foi uma bomba hidráulica, nada mais.
Possivelmente, nessa altura, faziam-me novo transplante e punham-me um coração de plástico, acabando-se tudo. Ficava vivo, mas teso que nem um carapau, com um bip-bip muito certinho.
Pelo sim pelo não, o melhor é utilizar o método dos dois corações. Porque ou nada disto é verdade e sempre é melhor ter um coração sobressalente e continuar ligado ao nosso coração de origem, ou então é mesmo verdade e a gente deve pedir ao médico que, já que nos vai substituir o músculo cardíaco, faça o favor de nos arranjar um coração com pêlos, que a vida e este mundo não estão para corações fracos.
Ninguém me diz se isto acontece de uma maneira ou de outra. Portanto, não tomem estas minhas palavras para além daquilo que elas verdadeiramente representam: um cronista de jornal a escrever em voz alta, desinibidamente, com sinceridade, de todo o coração.

Laranja amarga

METEM POEMAS DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS. Com a discrição de quem não sabe escrever e só fala quando tem coisas importantes a dizer.
Curvados sobre os joelhos, sentados sobre os calcanhares, escrevem poemas a preto e branco nas calçadas da cidade que, esventrada, se abre e entrega aos devaneios deles.
De martelo e pedras escolhidas nas mãos, cobrem a pele da cidade com uma tatuagem fina, filigranada. É a sua forma de escrita, resistente e pesada como o calcário que manuseiam, com o qual dizem flor, amor, barco, corvo, curva, cálice, verdade.
São bandos silenciosos e rasteiros, olhando pedra a pedra, estudando a rua onde se sentam, com os olhos a um nível nunca superior aos calcanhares indiferentes que se afastam. Vêm de fora, com a pele curtida e as mãos duras, que volteiam calhau após calhau. E levam-nos, em camionetas, em bandos silenciosos e encarrapitados nas caixas abertas, sem nunca olharem para trás, para aquilo que deixaram escrito para ser pisado pelos pés indiferentes a poemas figurados, com rima em amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Enfeitam a cidade que não é deles. E silenciosos se vão embora, assim calados e sem remetente, para as suas terras sem pedras no chão a enfeitarem o caminho dos passos desencontrados.
Nas ruas das terras deles, o enfeite é, normalmente, outro. Quase todas têm apenas por adorno filas de laranjeiras amargas, coloridas e cheirosas para os tristes e frios dias de Inverno.
Sempre que alguém quer um poema de pedra escrito nas ruas de uma cidade, a preto e branco, certo, de caligrafia regular (a única que conhecem no território calcário que é o seu) vão buscá-los. E lá ficam, rasteiros e silenciosos, de pedras e martelo nas mãos, a fazerem a caligrafia que aprenderam em meninos e que nunca conheceu reformas ortográficas nem grafismos electrónicos.
É um trabalho paciente, pedra a pedra, peça a peça, um bordado meticuloso, certo, combinado, escrito com a lentidão de quem escolhe as palavras que ali vão ficar mudas, em figuras silenciosas, a dizerem-nos coisas simples e belas que vão de laranja amarga a amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Por vezes, mais parece um difícil quebra-cabeças, destinado à indiferença das solas-para-que-vos-queremos de quem tem destino certo, ou simplesmente vagueia num mosaico a preto e branco, desenhado a calcário por estes homens que chegam, e partem, silenciosos, no seu cotim, cinzentos, em caixas abertas de camionetas escuras e sorumbáticas, que os aguardam enquanto trabalham.
A exposição dos seus trabalhos não tem vernissage possível. Quando muito, uma mangueira possante, a atirar para longe restos de areia que serviu de leito às pedras colocadas depois de partidas com ponderação, para encherem a parte do desenho que lhes compete.
Sentam-se em pequenos tacos, ou caixas, de madeira, quase nos próprios calcanhares, e olham o que fazem por entre os joelhos, sem levantarem os olhos a não ser com grande indiferença, às vezes até com uma certa vergonha, para os poucos que acidentalmente param, mirando com apreciação o que fazem.
Engolem ali mesmo o almoço, entre pedras por partir, fios de nível para alisar o chão futuro dos nossos pés. Falam pouco, mesmo entre si, e quanto a rir é bom nem pensar.
Só se ocupam de ruas e calçadas nobres, onde normalmente há mais pés e mais pressa do que em outras, onde há mais tempo e mais olhos para admirarem os desenhos que podem deixar.
Metem poemas debaixo dos nossos pés. Com a discrição de quem não sabe escrever e só fala quando tem coisas importantes a dizer. Com a humildade de quem espera não ser entendido, com a tristeza de quem muito menos pensa vir a ser apreciado.
Tecem, pois, com as suas pedrinhas, que partem na mão com a delicadeza de quem liberta uma noz da casca, tapetes que ninguém nos pode puxar. Deixam-nos, belo, um chão sólido que podemos pisar com firmeza, sem receio de alçapões ou outras falsidades. E depois, cinzentos de cotim, ignorados e silenciosos, partem sem um olhar para o que deles ali deixaram.
Normalmente, só os avós os entendem. Seguram, aos domingos, as mãos dos netos, e apontam-lhes o chão que estes homens nos vão deixando, mostrando e explicando cada coordenada destes mapas desprezados da geografia citadina. E devagar, com muita paciência, como aquela que só os avós sabem ter para os netos, mostram-lhes a rima do poema, a sua métrica, escrito à mão, pedra a pedra, a preto e branco, com desenhos e riscos que nos falam, nos versos certos de amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Certamente que todos os que me lêem já há muito que perceberam que vos falo dos calceteiros da minha cidade de Lisboa, das nossas vilas e cidades, poetas ignorados das nossas pedras lascadas, cinzentos e calados, sem que saibamos de onde vêm ao certo, para onde vão realmente, e de que vivem, quando cada vez menos nos metem poemas debaixo dos nossos pés.
No outro dia, quieto e com falsidade aparentando indiferença, ouvi dois a falarem entre si. Escreviam com as pedras que iam escolhendo e juntando, na sua gloriosa caligrafia pesada de calcário, palavras que não sabem dizer por letras.
- Manel, achas que os advogados sabem todos ler?
- Ora, hão-de ser como nós. Uns sabem, outros não.
Deixei-os a escreverem, por pedras, amor, flor, arco, barco, corvo, curva, cálice, verdade.
Já vinha longe e, palavra de honra, senti de repente o cheiro a laranja amarga.

Pat Boone na Castellana

APONTARAM-ME O PROTAGONISTA. Estava encostado a um gradeamento e olhava desinteressado o passeio feérico dos travestis na avenida de Madrid, por onde eu caminhava com amigos, entre os quais haveria um que era conhecedor da história que me proponho escrever-vos, actualizando um pouco o mister do orelheiro, que escuta e reconta as histórias que andam por aí.
Fá-lo-ei, no entanto, com inteiro respeito pelos personagens e com todas as reservas pelas fontes, pelo que não deverão esperar quaisquer revelações sensacionais nem levianas; tão-pouco exporei ao esperado ridículo aqueles que assumem com bravura a sua diferença da maioria. Mas a história, essa, acho-a tão bela que, mesmo correndo o risco de não ser totalmente verdadeira, não resisto a contá-la. E agora, em pleno acto da escrita, eu próprio quedo na dúvida se não a terei inventado do princípio ao fim, buscando em figuras reais a veracidade necessária a que me acreditem.
Dizia eu que me apontaram o protagonista. E que ele olhava desinteressado os travestis que se coqueteavam por uma bela avenida de Madrid. Mas embora desinteressado, a verdade é que se posicionava num ponto onde não podia deixar de fazer parte do cenário da peça cujos intérpretes eram os travestis.
Confesso, igualmente, que estes últimos foram também o motivo da passagem por aquele ponto de Madrid. Curiosamente, acho que os homens têm algum fascínio por eles. Eu tenho, confesso, apesar de não ter travado conhecimento mais íntimo com nenhum para além daquele que vai da distância da fala. Mas, sem saber bem como me explicar, e correndo riscos de ser mal interpretado, acho que é difícil encontrar muitas mulheres tão femininas como um travesti. Por isso cedi à sugestão desses amigos, portugueses, residentes em Madrid: «Vamos à Castellana ver os travestis.»
A juntar à sua inegável feminilidade, os travestis têm aquela maldadezinha interior de que só os homossexuais são portadores e com a qual caricaturam cruelmente as mulheres no que estas podem exteriorizar de mais desprezível, o que tem sido muito apreciado em espectáculos de cabaré, dos quais não sou, infelizmente, frequentador. A tudo isto acresce que os amigos que me propuseram desportivamente esta espécie de safari me acicataram a curiosidade com a sentença: «São quase todos portugueses»
E eu não resisti à dose de nacionalismo de ver belos exemplares do macho lusitano a desfilar em salto alto e a piscar o olho aos Pacos como, nos meus bons velhos tempos as Lolas nos excitavam nos cabarés de Lisboa e do Porto. E mais, confesso que, ao vê-los, me senti orgulhoso: ora digam lá se há na Europa travesti que pise com mais garbo do que o travesti lusitano?!
Mas o protagonista não se movia. Teria talvez cinquenta e cinco ou sessenta anos, vestia classicamente, quero dizer fato completo e gravata, e fumando, absorto, não se movia.
Mas, afinal, o que mais chamava a atenção era que os travestis não o tomavam por alvo, não o convidavam provocadoramente como faziam com todos os outros transeuntes, em especial os que estavam motorizados. Parecia, assim, o protagonista desta minha história, na sua imobilidade, o mestre-de-cerimónias, ou se preferirem o ringmaster, daquele circo de travestis amestrados.
E foi então que ouvi - ou imaginei? - a história. O meu protagonista era notário forçado, porque a família a isso o obrigava, casado e pai de filhos, e estava ali porque se tomara de amores por um jovem travesti, ao qual, aliás nada de carnal o ligava, pois ele nem bissexual era, tudo se passando, portanto, no plano platónico.
Só que o efebo, cuja diferença de uma mulher é só a daquele pormenor que todos conhecem, porque em tudo o mais é uma mulher perfeita, é exactamente igual a uma menina que fora brutalmente afastada dos sonhos de adolescente do meu protagonista.
Daí, todas as noites, o meu protagonista jazer imóvel entre as idas e vindas da figurinha loira, delicada, de biscuit que, de táxi ou em grande turismo anda a edulcorar a virilidade do macho peninsular.
E nos intervalos encontram-se e falam, trocam presentes e dão as mãos e falam do Pat Boone e do Billy Halliday, que eram os temas favoritos do meu protagonista e da sua bem-amada, naquele amor proibido de trinta anos atrás antes de a família transformar um rapazinho sonhador e apaixonado num triste tabelião, cuja única alegria é a de hoje, às escondidas, a coberto da noite, ter a inocente aberração de namorar, como os adolescentes da sua juventude, com um travesti que é igual à namorada que foi forçado a abandonar, e com quem fala de Pat Boone e de outros temas que os jovens de há trinta anos tinham para conversar quando namoravam em festas, no cinema ou quando se esperavam às portas dos liceus ou à saída da missa.

Banda desenhada

FOI GANHANDO SUCESSIVOS COMBATES. Para cada um deles entregava-se a uma longa preparação, suava dentro de plásticos, saltava a corda, corria, dava murros no ar. Depois, descansava, lia ou cortava lenha como um doido, agarrando com as duas mãos cavacas, do tamanho que a cozinheira gostava para o fogão.
Travava quase diariamente longos combates de catorze assaltos, contra os mais díspares adversários, brancos ou pretos, que invariavelmente não chegavam ao fim. KO, KO técnico, abandono - era o registo quase constante da sua carreira, feita a murro, quase sempre na América.
Um alemão, uma vez, resistira-lhe até ao fim, mas a diferença de pontos deu-lhe, na mesma, uma vitória confortável.
A avó, normalmente, dizia que ele havia enlouquecido.
«Não sei onde este rapaz vai buscar estas coisas Ele lá sabe, é assim que se entretém.»
E ele, saltitando da ponta de um pé para a do outro, com um enigmático sorriso, pensava. «Hei-de chegar ao Madison Square Garden. Hei-de ser campeão. E a minha namorada e a minha avó hão-de estar na plateia, e a vizinha que é muito gira estará sentada, sozinha, sofrendo com os golpes que eu apanho, muito bem vestida, com um casaco de peles que eu lhe comprei.»
Imaginava essa vizinha igual à namorada do Mandrake, enquanto a sua própria namorada era a mesma do Luís Euripo. O treinador é que já não pertencia aos quadradinhos - era o senhor Adolfo, do Café Pérola, que sabia de boxe, fora campeão quando era novo e que ele decidira que passava a ser polaco.
Tinha, depois, longos monólogos a duas vozes. Normalmente eram longos diálogos com o seu manager, desabafos com o seu «segundo», confidências de homenzinho à namorada, propostas desonestas à vizinha. No fundo, era a representação do mundo adulto tal qual os quadradinhos lho mostravam, sob a forma de monólogo, com trabalho, ambição, amor, lealdade, pecado e infidelidades.
De uma semana para a outra, fizera quase uma temporada. Viajara nos comboios de costa a costa, combatera uma vez em Paris, descansara, vestido de branco, uns dias de Inverno em Miami, partira lenha como um doido cada vez mais impaciente pelas quintas-feiras, dia de semana em que se publicava a revista dos quadradinhos, onde lia histórias, via bonecos, mas, sobretudo, de onde copiava estilos, apanhava tiques e decorava frases inteiras.
Foi na pesagem para um dos seus combates, pesagem e apresentação à imprensa, que a grande oportunidade lhe surgiu: «Queres combater para o título mundial, com uma bolsa de um milhão de dólares?»
Dissera que sim, sem hesitar, sem consultar ninguém, sem esperar por coisa nenhuma. Afinal, era a primeira e a única grande oportunidade: os avós iam ao cinema, ficava apenas a velha empregada na cozinha, a passar a ferro e a ouvir rádio.
Despachou rapidamente o adversário que tinha que despachar, porque há coisas que têm que ser feitas, partiu para a quinta onde fazia a sua preparação física, deu duas entrevistas, tudo isto das sete às nove da noite, fechado no quarto, onde esperou que os avós saíssem para jantar fora e irem ao cinema, para, depois, ele poder enfrentar o combate que era o desafio da sua vida.
Deu a volta à chave da vetusta sala de jantar, que permanecia encerrada na penumbra ou nas trevas, apenas se animando nas grandes datas, com o seu lustre de mil e uma lâmpadas, os seus cristais, os seus espelhos, as suas pratas - um templo. O único local que poderia para ele representar o Madison Square Garden.
Acendeu apenas uma parte do pesado lustre, tocou devagarinho o gongo de chamar a criada, apenas para verificar se o seu som servia, de facto, para separar cada assalto e foi equipar-se. Voltou com uma cadeirinha algarvia minúscula, de assento de palha e flores amarelas pintadas em fundo vermelho, a qual colocou sobre um dos cantos da mesa de carvalho. Foi para a casa de banho, onde vestiu os calções de ginástica do liceu, pôs as velhas luvas do avô forradas a pele de coelho, calçou um par de meias e pôs pelas costas um roupão turco.
Foi nessa altura que um gangster lhe fez uma oferta para ele perder.
Furtivamente, partiu para a sala de jantar, onde, ao acender todas as luzes do lustre, uma multidão gritou o seu nome. Viu a namorada e sorriu à vizinha, as duas em sítios diferentes na plateia, olhou de esguelha o adversário antes de subir ao ringue e, quando subiu, a grande mesa de carvalho empinou-se lentamente do outro lado, muito lentamente para acelerar de súbito, e ele, numa náusea de quem leva um directo no fígado, já em desequilíbrio, a agarrar-se ao lustre e o lustre a despenhar-se em milhares de vidrinhos, e a mesa a estrondear ao voltar à sua posição, e a instalação eléctrica a estoirar, e a casa nas trevas, e a criada a gritar, na cozinha: «Ai valha-nos Deus!»
Quando o avô voltou do cinema, apanhou uma tareia monumental. Foi a sua primeira derrota: perdeu a bolsa e nunca seria campeão. Fora derrotado por KO, ao primeiro assalto.

O chofer de praça

FICAVA MUITO CONTENTE sempre que no seu táxi apanhava alguém de quem gostasse. Fazia por isso, imaginando o tipo de pessoa que lhe convinha transportar, em conformidade com o diálogo que gostaria de travar no trajecto seguinte e o itinerário que fazia questão em percorrer.
Era delicado. Antes de colocar o taxímetro em funcionamento, de espreitar se poderia acelerar de junto do passeio e perder-se no meio do tráfego, cumprimentava quem se tivesse sentado no banco de trás, perguntava se a música não incomodava, fazia um comentário ao estado do tempo e arrancava.
Guiava sempre com suavidade. Entendia, de resto, que da delicadeza e da economia dos seus gestos beneficiava ele próprio e imaginava que um dia uma jovem haveria de lhe perguntar:
- Porque é que você é chofer de praça?
Tinha tudo estudado para a eventualidade de isso lhe suceder. A resposta e aquilo que seria a sua parte do diálogo estavam firmemente memorizadas. Quando ele desejasse que essa situação se materializasse sabia que isso sucederia.
John, Chauffeur Russo impressionara-o muito quando o lera, e seria assim que gostaria de dar a volta a uma mulher. A alguém que nada soubesse a seu respeito, que o visse num estatuto inferior e a quem pudesse vir a conquistar primeiramente pelo seu aspecto e maneiras, depois pela sua educação e cultura, finalmente pelos seus atributos inquestionáveis.
Desistiria depressa, receando a rotina de dia após outro a trabalhar para a mesma família, o patrão ao escritório, a patroa a casa de amigas, os dois à ópera e os filhos à escola e aos concursos hípicos. Decidira não ser nunca chofer particular.
A praça fascinara-o. A possibilidade de correr toda a cidade, as hipóteses de ouvir conversas interessantes, as oportunidades de conhecer permanentemente gente nova e diferente, de ser livre nos seus percursos fizeram-no decidir-se pela praça, definitivamente. E foi com entusiasmo que uma tarde preparou o carro que sempre imaginara e, aproveitando não estar ninguém em casa a quem tivesse de dar satisfações, partiu para as suas aventuras avulsas, como vingador solitário de banda desenhada ou herói romântico de fotonovela.
Como todos os motoristas de táxis de Lisboa, adorava serviços para o Estoril. Para ele era o destino que contava, pouco importava a rentabilidade do serviço ou o pagamento do retorno.
Adorava correr pela Marginal, preferia fazê-lo com sol, os olhos nas curvas suaves da estrada, por vezes a despistarem-se para o rio até ao Bugio, quando havia pouco tráfego.
«Um dia», pensava consigo próprio, «aparece-me uma judia rica, de Nova Iorque, que veio jogar no Casino, ficamos noivos, casamos e vamos viver no estrangeiro.»
Não sabia explicar a razão, mas sempre que pensava numa mulher que valesse a pena tratava-se sempre de uma Judia de Nova Iorque.
O carro entrou na subida ligeira para Caxias e Paço de Arcos.
Transportava um inglês idoso que apanhara na Baixa, bem vestido de tweed verde-oliva. Sorriu, o comboio corria com ele, paralelo, às vezes desaparecia para voltar a aparecer mais próximo, como se brincasse às escondidas e ao toca-e-foge. Meteu uma mudança e acelerou, deixando a composição para trás, condenada a seguir o capricho dos carris, por entre alas de casas e de árvores. Do outro lado, do seu lado, como se estivesse parado na água, enorme e preocupante sob a chapada de sol que o deixava em contraluz, um petroleiro de grande porte parecia perigosamente próximo de terra.
- Quando chegar ao Estoril, eu indico-lhe o resto do caminho - disse-lhe lá de trás o inglês, envolto numa nuvem de John Players e de alfazema.
- Okay! Eu abrando para não me enganar. Não conheço as ruas do Estoril.
Imaginou o seu passageiro nos anos da guerra a beber vinho do Porto no bar do Hotel Palácio. Podia ter sido um agente ao serviço de Sua Majestade e ter regressado agora de férias ou para recuperar uma arca de barras de ouro que enterrara num quintal. Abrandou e encostou-se bem ao passeio para ser ultrapassado por um grande Mercedes bege. Reduziu ainda mais a velocidade, sorrindo para o petroleiro gigantesco e disse com o melhor sotaque que ouvira no cinema:
- Lovely day!
- Yes, lovely day - respondeu o inglês, que não disse mais nada até chegarem às palmeiras do Estoril.
Foi no regresso, já depois de largar o passageiro, que a sua vida profissional sofreu um estrago irreparável, que teve consequências nefastas que se prolongaram até hoje.
Ouviu um pequeno ruído atrás de si. O retrovisor não assinalou nada que não devesse. No entanto, de repente, num fragor muito maior do que qualquer desastre, num rompante que não chegara a imaginar sequer em qualquer operação stop:
- Salte já daí!!! Que julga você que está a fazer? Logo, vamos conversar!!
O jantar foi pior do que o auto de apreensão de carta.
A mesma voz acusava, por entre garfos e pratos e copos, testemunhas mudas daquele julgamento sem defensor oficioso:
-... E imagina que o apanhei, com as pernas dentro da cristaleira, onde guardamos o serviço de Limoges, sentado numa de quatro cadeiras muito juntinhas, duas à frente e duas atrás, a olhar para o espelho do alçado, a fingir que guiava com uma tampa de marmita de tupperwear e a fazer mudanças com o desentupidor da retrete!!!
Todo o seu sonho desabara. Deixara de soprar ali a brisa fresca da Marginal, o esconde-esconde com o comboio, os mistérios insondáveis dos seus passageiros, o petroleiro perigosamente próximo da terra.
Antes que a mesa toldada e trémula desaparecesse por completo dos seus olhos e o prato se desvanecesse da sua frente, de modo a que a colher nada encontrasse, decidiria que, não podendo fazer mais alegres corridas com o comboio do Estoril, iria dar rumo novo à sua vida: apanharia o próximo paquete, com destino a Nova Iorque.
E foi antes que as primeiras lágrimas lhe caíssem na canja que resolveu qual seria a sua próxima profissão.
Uma vez chegado a Nova Iorque, iria ser barman. E jurou a si próprio que, quando fosse grande, teria um bar, um táxi e uma jovem judia.

Isto é o jornal a falar com os seus botões

CRONISTA DE JORNAL tem destas coisas.
Reparem: a gente mete-se neste quadradinho e fala do que lhe apetece. Chegamos a escrever sobre o que nos vai na alma, acreditem, às vezes falamos de coisas simples, despretensiosas, que estão à vista de todos, está-se-mesmo-a-ver-não-está-se, outras vezes vamos às traseiras do nosso cérebro e tiramos coisas complicadas, que estão alapadas na nossa vida, e que disfarçadamente partilhamos com os outros.
Cronista de jornal tem destas coisas.
A gente escreve para os leitores, os estimados e queridos leitores que devem ser a razão de ser de quem escreve. Mas não resistimos, por vezes. Reparem: deitamo-nos nesta página e elegemos os leitores, os estimados e queridos leitores, em invisíveis psicanalistas estilo vejam-lá-esta ou então vocês-não-querem-lá-saber.
Cronista de jornal tem destas coisas.
Reparem: a gente atira as palavras ao vento como quem cospe para o ar e elas não voltam a cair-nos em cima. Podemos ficar com a dúvida legítima de saber se alguém as apanhou. Ou sermos tão convencidos que imaginamos o país inteiro a devorá-Ias. A verdade é que escrever para os leitores, estimados e queridos leitores, é escrever sem destinatário. Esta é uma questão que se deve pôr, porque assim como nós pensamos connosco próprios, que razão válida impedirá um jornal, que é um objecto inteligente, feito com cabeça, coração e muito nervo, de falar com os seus próprios botões?
Cronista de jornal tem desta coisas.
Reparem: eu, por exemplo, julgo que o jornal tem o direito de falar com os seus botões. E é isso que me inquieta, por uma razão muito simples: que pode este jornal pensar a meu respeito? E quando nos preocupamos com o parece-mal, então a gente cuida-se.
Ficamos portanto entendidos: daqui para a frente, nesta crónica, é o jornal a pensar.
Reparem: oferecem um quadradinho destes meus quadradinhos a este tipo para que ele o encha com palavras.
E ele desata a escrever, sem mais aquelas, sem eu perceber para quem. Instala-se com banca própria, e nem um «bom-dia» a oficiais do mesmo ofício.
Quando a gente se muda, para vizinhança certa de atestado de residência antigo na junta, que deve a gente fazer? Sim, que mandam as regras, as boas maneiras, que se faça? Bater à porta, cumprimentar na rua, anunciar a chegada e oferecer os préstimos. É o mínimo. E este, aqui deste quadradinho, que fez? Nada. Absolutamente nada. Ou melhor, instalou-se e começou a escrever.
Falou ele ao Teixeira Neves, inquilino antigo desta página, tirou o chapéu e agradeceu o que dele tem aprendido, do tempo do Militão Ribeiro e dos nossos dias? Desceu ao rodapé e foi àquele quadradinho do César Príncipe, um quadradinho tão pequeno que parece um quartinho em edifício de apartamento, pequenino mas limpo e independente, e apresentou-se? Bateu ele à porta do Baptista-Bastos e disse-lhe homem, então agora moramos na mesma página? Vivemos nós em Lisboa e vimos passar o fim-de-semana nesta página do Porto? Não, meus amigos. Não fez nada disso E podia ter feito mais, muito mais. Com o Baptista-Bastos, podia falar dos doces bares, discutir as questões que o Teixeira Neves levanta, a da necessidade de civilizar a Polícia, por exemplo, falar das palavras de Berlim a que se referia o Príncipe. Qual quê?! Nada. Chega aqui, escreve o que lhe dá na gana, não saúda ninguém e fica assim a falar sozinho. Uma página séria de gente honrada sem o menor respeito deste cavalheiro pelos senhores que aqui conquistaram direito de alforria.
Aqui o cronista intromete-se para escrever o que se vai seguir.
Até aqui, claro, era o jornal a falar.
Agora sou eu outra vez, para discordar.
Cronista de jornal tem destas coisas.
Reparem: se os que assinam neste jornal, os domingueiros e os dia-útil, começassem a falar uns com os outros, era capaz de ter piada. Talvez os leitores, os estimados e queridos leitores, pudessem mesmo gostar, porque tem que se aceitar que a generalidade das pessoas adora ler a correspondência dos outros. Carta aberta é invenção de desmancha-prazeres. Mas há que ter presente igualmente que os anónimos artífices que fazem um jornal, o compõem, o imprimem, o distribuem, o escrevem, desastre em Afife, corpo no Douro, aviões americanos na Líbia, talvez não gostassem. E têm razões para isso, mesmo que os leitores, estimados e queridos leitores, gostassem.
Reparem: escrevem eles, com palavras simples, coisas que dizem respeito a todos nós. E ficávamos nós para aqui diante de toda a gente a falar uns com os outros. A nossa sina não é essa. Pode ser desculpa minha, mas não é de mau pagador. O nosso destino não é esse. Ficar para aqui, a falar sozinhos, é o que nos compete.
Até que haverá leitores, estimados e queridos leitores, que dirão hoje que aquilo que me faltou esta semana foi assunto para a crónica. Podia defender-me dizendo que não senhor, que o que tenho é imaginação a mais. Mas não vou dizer nada. É melhor assim. Tenho destas coisas. Reparem: coisas de cronista de jornal.

Prémio e castigo

NÃO SOU DE IR A CASAMENTOS, baptizados, funerais ou prémios. No entanto, no outro dia, senti-me na obrigação de ir dar um abraço a um escritor que estimo e respeito porque foi premiado e é meu amigo.
Escrever bem tem riscos. Agora tem mais este: o de ganhar prémios. Sei, por experiência própria, que quando se escreve não se pensa em prémios. E acredito que prémios não se pedem nem se agradecem. Se vêm, tudo bem. A gente guarda-os. O pior é que, para os guardar, é preciso recebê-los. E aí é que está o castigo, porque por detrás de cada prémio há sempre um castigo.
O castigo do prémio é a sua entrega. Se o prémio é pecuniário, ele bem podia chegar pela posta, com o cheque em nome próprio, para não haver falhas nem extravios, permitir registo e solicitar na volta do correio o envio do recibo e do número de contribuinte.
Seria mais próprio. A gente juntava-se com amigos, comíamos em celebração, bebíamos umas garrafas e acabou-se, viva o prémio sem castigo.
Mas se se entendesse que já que alguém ganha um prémio tem que ir a um castigo, ainda que simbólico, poderia enviar-se um ofício para o qual, caso haja interessados, se deixa esta minuta.
«Exmo. Senhor(a), vimos pela presente solicitar a sua presença na sede dos nossos serviços a fim de tomar conhecimento do prémio que foi decidido atribuir-lhe. No caso da sua concordância, que muito apreciaríamos registar, poderá ainda V. no local proceder ao cumprimento das formalidades legais que lhe possibilitará entrar na posse imediata do numerário a que o prémio em epígrafe diz respeito, bem como das respectivas insígnias. Sem mais de momento, aproveitamos o ensejo para apresentar a V. os nossos melhores cumprimentos. Atenciosamente.»
Agora, se se deseja penalizar um criador pelo facto de ter cumprido bem a sua missão de criar, então comunica-se-lhe que ganhou o prémio e que este vai ser entregue em cerimónia pública.
Desejando-se impor o castigo máximo, organiza-se uma sessão solene, de preferência fora da cidade onde se vive, convida-se o Presidente da República, alguns membros do Governo, inclui-se um almoço a seguir à cerimónia e dá-se conhecimento disso aos profissionais de cerimónias deste tipo. Não falha. Serve-se como prato tradicional, acompanhado de suculentos discursos.
Autocarros cheios de conhecedores, pouco conhecidos, muitos familiares e inúmeros desconhecidos convergem para o ponto de encontro que é a cerimónia, o acontecimento.
As forças vivas da terra aguardam que todos estejam presentes, meninas com soquetes de renda branca enfiados em sapatinhos de polimento vão-se descompondo à passagem do tempo, enquanto não chega Sexa, os bombeiros voluntários da guarda de honra transformam-se em acalorados cidadãos uniformemente mal prontos, emissários correm entre os limites do concelho e a sala engalanada a gritarem «vêm já aí», e o premiado, sem ninguém se aproximar, olha espantado tudo aquilo enquanto alguns, mais ladinos, se colocam em locais estratégicos para serem vistos no Telejornal.
«Sexa está atrasada», garante o mestre-de-cerimónias, «mas vem aí», tranquiliza. E o premiado, laureado, ou jubilado, mais se vai sentindo envergonhado, animado pela síndroma do fugitivo e à espera do fiscal das Finanças ou com receio de que o cheque não tenha cobertura.
Nisto de entrega de prémios há sempre um surdo que grita duas oitavas acima do coro: «O que é que eu disse?». E há sempre duas velhas que avançam para os rissóis e dão cabo de várias travessas neste chega-não-chega de antes de começar.
Neste momento, o premiado está quase a chorar. Se os invejosos fossem às entregas, não teriam raivinhas por causa de nenhum prémio. Pelo contrário, batiam os pezinhos de contentes.
Entrementes, já uma menina daquelas que escrevem versos num caderno escolar e tratam toda a gente por tu se enrolou com o crítico que, certo do seu encanto, se interroga por que razão o oftalmologista insiste em dizer que ele é estrábico.
Finalmente chega Sexa, acompanhado de sexas em caixa baixa, como se diz nos jornais, ou que aqui podemos traduzir por letra pequena, como já viram que está a acontecer. E chegam os encómios, os discursos, os apertos de mão, o envelope, o troféu, tudo entregue em duas ou três poses para os fotógrafos, como se fosse um replay de TV em golo bonito do programa desportivo.
Há também o casal discreto que mete na mão de Sexa, ou de qualquer das outras sexas, um papelinho. Não é gorjeta, descansem. Normalmente é pedido. E o professor, ou o Jurista, também não falta para se fazer lembrar a sexas se por acaso lá no ministério...
E, por último, há a salva de palmas e a procissão para a mesa, em U, já ocupada, ou se calhar defendida, pela GNR de farda de gala e pelos motoristas de Sexa e de sexas.
Se o prémio for merecido, faltarão neste ponto da narrativa duas coisas: a primeira é o premiado, que, alegando inadiáveis afazeres, normalmente uma entrevista ou um avião a apanhar, se desculpou e disse que não podia ficar; a segunda são os rissóis e os pastéis de bacalhau que as duas velhas e o surdo exterminaram inexoravelmente.
O prémio, meus amigos, acreditem que vos falo por experiência própria, é um castigo. Um castigo que ninguém merece, por melhor que seja naquilo que faz.

Era uma vez uma baleia

DEVE-ME TER FICADO DE PEQUENO esta ideia de ter um esconderijo. Não propriamente um sítio esconso, onde dantes se via fotografias de meninas em fato de banho, ou mesmo nuas, ou onde se brincava e escondia pistolas de madeira. Refiro-me, sim, a um local onde possa fazer o que me dá na gana, fora das vistas de todos, onde possa levar pessoas de quem gosto e com elas lá passar o tempo que eu possa ou entenda.
Tenho um esconderijo.
Não tem tesouros escondidos, nem arcas enterradas, nem meninas com véus a saltitarem nas pontas dos pés, nem flibusteiros ou náufragos perdidos, embora, com alguma imaginação, se possa lá ter tudo isso porque o meu esconderijo está situado entre grutas e a maré vazia ou a preia-mar. É um esconderijo meu e de mais cinco famílias, duas de pescadores e três de apanhadores de algas, dezenas de gaivotas em dias de temporal e mais ninguém, se não contarmos com um guarda-fiscal que nunca percebi se anda à procura de contrabandistas ou a ver a paisagem porque, ainda que apareça diariamente, arriscando o pescoço na descida dos penhascos, nunca gastou um «bom dia» com esta estranha comunidade de poucas falas, que já não pára com o que está a fazer para o olhar, em sinal de receio ou de respeito.
Nos últimos dias tenho andado fugido, neste meu esconderijo. Mas sempre muito ocupado e entretido porque, entre mergulhar e sair de madrugada para a pesca, há sempre uma lagosta ou uma santola que se apanha, e algum álcool de confiança que decilitrar, com estes homens e estas mulheres, à conversa mole, com as crianças à escuta, para já não falar das minhas releituras à luz do petromax.
Subitamente, esta rotina de saúde foi interrompida por um acontecimento que naturalmente nos mobilizou a todos. Foi um apanhador de algas que, apontando o seu barco ao meio da praia, de pé, ainda com o fato de mergulhar e fazendo gestos com a mão livre do leme, gritou.
- Está uma baleia nas rochas a seguir à praia!
E estava, de facto, encalhada na baixa-mar, muito quieta, connosco todos a olhar, sem lhe fazer mal, ou antes pelo contrário, preocupados em como a safar, apreensivos sobre se o animal estaria ou não doente.
Durante mais algumas horas, a maré vazaria ainda mais. Só depois começaria a encher e, lá para a noite, deveria haver água suficiente para a baleia e o seu esguicho partirem; pelo Atlântico, talvez direito aos Açores, ou onde mais lhe aprouvesse. E lá andámos, numa roda-viva, de barco a remos ou de fora-de-borda, para cá e para lá, a ver a baleia, muito quieta, cinzenta, a olhar-nos, e certamente a pensar o que todas as baleias pensam nestes apuros.
À noite, fui também ver a partida da baleia. Com três crianças e os seus pais, num barco de borracha, como se fôssemos um pequeno e furtivo grupo de combate de fuzileiros, mas sem desembarque previsto. Havia também os outros barcos, mais um que era o do faroleiro, que também viera ver o animal, informando-nos que já há dois dias o vira andar por ali.
No frio da noite, ficámos quietos, a olhar aquelas toneladas de carne, esperando que a comporta da maré lhe desse água para o seu calado. Mostrava, então, o animal, alguma impaciência, assim julgo eu, que por tal tomei os seus grunhidos entre dois esguichos. Por fim, começou a mover-se, nós nos barcos próximos mas a uma distância prudente, e a baleia lá se virou, mergulhou e voltou à superfície, e quando esperávamos que se fosse embora mudou de posição mas não se afastou, para surpresa de todos e desespero de alguns, em especial dos pescadores que haviam perdido uma maré, e dos apanhadores de algas também, que não haviam mergulhado para os laboratórios que lhes compram as algas secas e cujas administrações se não compadecem com histórias de baleias. A pouco e pouco, viemos todos embora, certos de que o animal não estava ferido e era livre de partir, ao que não assistiríamos por não haver lua naquela noite. Eu, cá por mim, só perdera as notícias que sempre escuto nas ondas curtas, Londres, Paris ou Washington, no meu pequeno transoceânico, e que são as novidades por que espero interessadamente quando estou no meu esconderijo.
Por isso, cedo na manhã seguinte, sintonizei para uma estação portuguesa, em onda média, e fiquei uns minutos à espera para ser informado do que se passaria no Médio Oriente, depois da visita de Shimon Peres a Marrocos, como iam as conversações EUA-URSS sobre o desarmamento, o que se passava com as sanções económicas a Pretória, que estavam os Verdes a fazer na Alemanha, o que acontecia com as taxas de juro na América e como se comportava a bolsa de Nova Iorque.
Psicologicamente, fiquei preparado pelo sinal horário. Aumentei o volume do receptor, dispus-me a escutar as notícias, naquela estação portuguesa. E tudo o que fiquei a saber, palavra, foi que um cachalote andava perdido no Mar da Palha, e uma jibóia estava à solta em Carnide, depois de fugir dum circo quando tomava banho; disseram-me também que o primeiro-ministro tinha não sei quê e que a Assembleia da República ia fazer não sei quantos.
Estava eu a interrogar-me a mim próprio, «Mas afinal o que acontece neste país e neste mundo?», quando a notícia chegou. O mais madrugador dos apanhadores de algas, de bordo do seu dinggy, gritava para nós, histérico, gesticulando:
- Voltou! Ela voltou!
A baleia tinha voltado. Não estava encalhada, estava semi-submersa, fazendo o seu repuxo e olhando-nos na nossa praia deserta, com os seus olhos marotos.
Suponho que ela nunca ouviu a história do capitão Jonas, nem nunca lhe contaram a vida da Moby Dick, nem deve ter escutado a notícia do cachalote, nem se assustou com a jibóia que fugiu do circo em Carnide, e seguramente que não sabe qual e o ano chinês em que vivemos. Acho que ela voltou somente para nos manifestar o seu agradecimento pela nossa preocupação da véspera. Voltou para nos visitar.
Eu é que, com tudo isto, fiquei na dúvida de ter acordado num livro da Beatrix Potter e estive quase para me atirar ao mar e nadar até encontrar um navio que me recolhesse, não importa sob que bandeira.

O caçador de cabeças

IMPECAVELMENTE VESTIDO, como se tivesse chegado do casamento de um filho, com o cabelo sal-e-pimenta cortado à francesa, a cheirar a Aramis a dois quilómetros e meio de distância, não perdoa e raramente falha sempre que salta sobre a vítima seleccionada.
- Oh pá, como é que tu vais? Não te lembras de mim? Vê lá bem, sou o Bento, a última vez que estivemos foi em Viseu, andámos nessas guerras todas, os anos é que não perdoam, mas tu lembras-te de mim, diz lá se não lembras!!!
Aturdida pela violência deste primeiro embate, receando ficar em falta, revolvendo milhares de caras na memória subitamente confusa, a vítima, normalmente uma figura pública da política, do desporto ou do espectáculo, hesita e cede.
- Oh pá, agora estou a ver. Desculpa, isto é tanta gente... Mas claro que me lembro, agora, como vais tu?
- Claro que havias de te lembrar. Quem vi no outro dia foi fulano.
E salta, assim, entre os dois, o nome de outra figura pública, neste caso notoriamente conhecida como adversária da vítima.
- Oh pá, agarrei-o pelos gorgomilos e dei-lhe um par de estalos à frente de toda a gente. Malandro! Sabes que me enganou a mim também? Estes gajos têm de começar a aprender. Mas isso agora não interessa. Tu o que fazes agora?
A cumplicidade, a camaradagem da mesma trincheira, acaba de ser implicitamente estabelecida. Então, lento, paciente, sinuoso mas pouco subtil, começa o discreto interrogatório.
- Mas tu estás bem, não precisas de nada? Quanto é que ganhas naquela coisa onde estás agora? Precisas de alguma coisa?
Obviamente que a presa diz que não. E ainda está a dizer que nunca esteve tão bem quando outro golpe lhe é desferido, tipo coice frontal no fígado.
- Ouve lá, tu não alinhas com os comunas, pois não?
- Eu?! Nem pensar!!!
- Claro, eu sabia, eu sempre disse isso. Oh pá, ainda no outro dia tive uma discussão lá em cima por tua causa. Eu é que te defendi, e disse-lhes que eu é que te conhecia, que tínhamos andado juntos nestas guerras todas e sabia muito bem que eras um gajo porreiro.

Lentamente, vai também impondo o seu discurso e através deste a sua desinteressada amizade. Mas o sorriso que a vítima agora esboça logo se esboroa face à próxima pergunta, um directo ao nariz!
- E o partido, como é que está? Aquilo vai para a frente, ou quê?
- Qual partido?
- Tu não estás lá? Eu bem dizia! Ainda ontem eu dizia que o gajo, desculpa lá que o gajo és tu, mas a gente fala assim, tás a ver, mas ainda ontem eu dizia que o gajo é demasiado honesto para se meter naquela bodega
.
Quase não dá tempo de resposta. Pergunta, responde, tacteia, procura obter informações que utilizará em outros assaltos futuros a outras presas seleccionadas. Esta, que se encontra agora nas suas garras, tenta iniciar o movimento de fuga:
- Bom, tenho de ir andando. Tenho gente à espera.
- Homem, também eu. Olha para ali, é a carrinha lá da fábrica e trouxe aqueles macacos todos, que me pediram para eu lhes dar boleia. Íamos a passar quando eu disse: «pára que tenho ali de dar um abraço àquele meu amigo.»

A medo, a vítima olha para o carro designado. Várias cabeças, todas de gente sorridente, espreitam das janelas e chegam a acenar quando o sacrificado olha. Há mesmo um que salta, vem junto dos dois homens especados e diz à presa seleccionada:
- É só para o cumprimentar. Amanhã, lá em cima, já posso dizer que estive consigo.
Ríspido, altivo, Bento, o assaltante de figuras públicas, diz com voz forte:
- Eu não dizia que éramos amigos? Tás a ver agora?
E para a vítima:
- Desculpa lá este gajo. Vêm da província, vêem um tipo conhecido e vêm logo chatear. Queres tomar um uísque?
- Não, hoje não posso
- resiste a vítima -, tenho gente à espera.
- Homem, um uísque velho!?
- Não, sinceramente que não hoje não posso. Fica para outra vez.
- Houve
(*)
lá uma coisa: lembras-te da minha miúda mais velha, a Mira, assim de grandes olhos azuis como a mãe? Oh pá, está um traçalhão, mas é uma miúda afinada, e uma estampa, da cabeça aos pés, não é nenhuma dessas galdérias que andam por aí. Tu não sabes de nada para ela? Fala línguas e escreve à máquina.
- Não, não sei de nada. As coisas, como sabes, estão muito difíceis.
- Houve
(*)
lá, mas achas que se eu a mandar falar com sicrano e disser que é da tua parte, ele não desenrasca nada? Se for preciso, a miúda até pode entrar para o partido...
- Experimenta. Tenho de ir agora. Experimenta. Diz que mandas a miúda da minha parte e adeus.

Liberta, finalmente, a presa. Estuga o passo, acelera, perde-se na multidão, murmurando de si para si que tem de perder aquela mania de andar a pé, cansada de desconhecidos impertinentes.
Já na carrinha, com os conterrâneos, o caçador de cabeças senta-se, muito empertigado, puxando o casaco brilhante, de alpaca, esticando-o atrás para não se amarrotar. E olhando em frente, pelo pára-brisas, sem se dirigir a ninguém em particular, diz alto e bom som:
- Eu não dizia que conhecia o gajo? De ginjeira! O caramelo ficou à rasca quando me viu, mas recompôs-se e ainda não foi desta que me pagou os cinco contos que me deve.

(*) A razão destes dois “Houve” (em vez de “Ouve”) está explicada numa outra história, intitulada «Os agás mudos são uma gaita», a publicar em breve.

A surpresa da velhice

ENTROU NO HOTEL com passo firme, sem ser apressado, porque sabia que estava adiantado ainda uns minutos. Atravessou o lobby e foi à tabacaria, comprou um maço de cigarros, espreitou os títulos dos jornais estrangeiros do próprio dia, acabados de chegar, leu-os mais em pormenor com aquela estranheza de sempre. «Por que razão o que acontece no mundo e diz respeito a todos não acontece em Portugal, ou porque é que os jornalistas portugueses entendem que nada tem que ver connosco?». Efectivamente, nenhum dos jornais portugueses falava, em primeira página, daquilo que os seus congéneres de outras capitais, à mesma hora e no mesmo continente, entendiam que podia dizer respeito aos seus leitores.
Acabou por comprar a edição de Zurique do Herald Tribune e foi sentar-se numa poltrona do átrio do hotel, tendo o cuidado de escolher a que ficava de frente para os elevadores de modo a que pudesse ver e ser visto, com facilidade, quando o seu filho saísse de mais uma sessão de squash.
Combinara encontrar-se ali com o filho e levá-lo a jantar, de modo a que pudessem com tranquilidade, como dois bons amigos, conversar da vida em geral e da vida de cada um, de filmes e de exposições, de livros, de touros e de futebol, de aulas, de profissões e do primeiro emprego. No fim de contas, uma conversa normal entre dois homens amigos, um nos quarenta e outro nos dezoito, com muito de comum entre si, para além do facto de serem pai e filho.
Começou por ler a primeira página, e depois a última, e reparou que passavam quinze minutos sobre a hora combinada. Antes de abrir o jornal, conferiu o seu relógio de pulso com o do hotel, cujo mostrador ficava sobre as portas dos elevadores. Foi nesse instante que reparou na rapariga.
Era loira, bem lançada, tinha as pernas bronzeadas e os olhos verdes. E sem dúvida que tinha um belo sorriso, porque não havia hipótese de se enganar quando teve a certeza que era para ele que ela sorria.
Retribuiu, abriu desajeitadamente o jornal e procurou a página das histórias aos quadradinhos. Por cima da margem superior do jornal, meio centímetro apenas, para não ser notado, procurou a figura delicada e saudável, simpática e despretensiosa que lhe sorrira momentos antes.
E quando os olhos lhe acertaram, zás - ali estava de novo o sorriso, simpático, simples, comunicativo, um «olá» de quem gostaria de conversar.
Mergulhou numa sucessão de rápidos pensamentos sobre o que, na surdina cerebral em que cada um fala consigo próprio, classificava genericamente, de «porca de vida».
Porquê, interrogava-se, haveria de ter uma sorte daquelas logo na noite em que esperava o filho, para o levar a jantar, no hotel em cujo ginásio jogava squash com colegas e amigos? «Porca de vida» era a interjeição que, sem explicar nada, lhe dava a resignação para o azar em que aquela sorte, dadas as circunstâncias, se transformava. Aquele maldito sorriso convidativo era o pior que lhe poderia acontecer para acabar um dia como aquele.
Assaltou-o um pensamento maldoso. Poderia, talvez, avançar, ir ter com a jovem, convidá-Ia a sair, deixar um recado na recepção com uma desculpa para o filho. Mas receou ser apanhado em pleno acto de sedução pelo rapaz, ainda com o cabelo molhado do duche, saco e raqueta na mão. Portanto, resignou-se a continuar a esperar. Mas antes de voltar ao jornal atirou-Ihe de volta com mais um sorriso, que era um misto do «tenha paciência» que se dá aos pobres e de «que quer você que eu faça?».
Leu duas notícias, acendeu mais um cigarro, voltou a olhar para o seu próprio relógio e para o do hotel e começou a impacientar-se - passavam quase vinte e cinco minutos da hora combinada com o filho para se encontrarem e irem jantar.
Olhou à sua volta, observou, noutro jogo de sofás, uns suecos que conversavam, um casal de velhos americanos, ele com umas calças de fortes quadrados vermelhos, seguiu com os olhos o groom que levava um nome num quadro preto de alguém que era chamado ao telefone e, sem mais para onde olhar, acabou por fixar a jovem.
Esta não lia, olhava ao redor, mais com um ar de disponibilidade do que propriamente com o aspecto de quem espera alguém. Tinha uma linda linha de pescoço, com o cabelo apanhado num elegante carrapito, tinha um corpo flexível onde nada estava a mais nem a menos, tinha as pernas mais lindas que vira nos últimos tempos e, sobretudo, tinha aquele sorriso luminoso que o encandeava novamente. Voltou a retribuir o sorriso, pouco resignado.
Poderia voltar mais tarde, pensou então, depois de se despedir do filho, gratificar o boy ou o recepcionista para que lhe dissessem em que quarto a poderia encontrar, que nome tinha, quando se ia embora. Achava que esta seria a melhor solução. Faria isso!
Foi nessa altura que as pernas bronzeadas se destraçaram, aquele corpo se desenrolou e aquele sorriso de holofote se começou a mexer na sua direcção.
Baixou o jornal sobre os joelhos e ficou num misto de êxtase, quer olhando o animal, meio pantera meio gazela, a caminhar para si, quer olhando o elevador de onde a qualquer momento o filho poderia sair.
- Olá - disse o sorriso que também tinha voz.
- Olá - respondeu, sem encontrar nada para dizer.
- Olhe, eu sei que você é o pai do Pedro. Quando ele vier, diga-lhe que a Susana esteve aqui e que o espera onde ele sabe, depois de vocês jantarem. Ciao.
Não respondeu. Ficou-se a vê-la sair pela porta giratória, com a sensação de ter sido atropelado pela fanfarra a cavalo da Guarda Republicana.
- Desculpa lá o atraso - disse-lhe o filho poucos minutos depois.
- Estás com uma cara esquisita, que é que tens?
- Nada, não tenho nada. Estava só a pensar que a velhice nos apanha, de facto, de surpresa.
E lá foram jantar à pressa, porque, a seguir, o filho tinha muito que fazer.

A vingança dos Telles

EM 25 DE ABRIL DE 1974, soube que estava em curso um golpe quando o filho lhe telefonou, alarmado, às oito e dez da manhã. Informou do facto a mulher, benzeu-se e rezou duas ave-marias e dois padre-nossos por intenção de alguns amigos que tinha no Governo e de outros que trabalhavam na Polícia. Depois, ligou o rádio, vestiu-se e ficou de colete, corrente de ouro atravessada no ventre chato e pérola na gravata negra, a ouvir as notícias da telefonia, sem dizer uma palavra, balançando o sapato bem engraxado e feito à mão, por medida, ao compasso das marchas militares. Só voltou a falar quando a mulher, subitamente apreensiva, lhe perguntou em lágrimas e com tremuras na voz:
- E a ti, a ti que irão estes malandros fazer?
- A mim, nada querida. Que hão-de eles fazer? Sim, que hão-de eles fazer?! Sou um empregado bancário irrepreensível, com uma discreta posição na Legião, nada mais... Que queres tu que eles façam, filha?! Sim, que hão-de eles fazer?!
Calou-se ao pensar que até ali, desde o telefonema do filho às oito e dez da manhã, e já eram quase horas de almoço, não tinha sequer pensado em ir ao banco ou apresentar-se na Legião.
Por um momento, ficou na dúvida se deveria ir ou não ir à Legião. Se os revoltosos ganhassem, seria pior a emenda que o soneto. Mas se perdessem, poderia prejudicar-se.
- Ó Telles, onde raio se meteu você quando foi preciso lutar pela causa?
Não. Não iria ao banco. E decididamente, também não poria os pés na Legião. Os rapazes da DGS lá estariam para resolver a situação e, sem dúvida, que a Senhora de Fátima os não iria desamparar em mais aquele momento de aflição.
Foi com estes pensamentos reconfortantes que vestiu o casaco, pôs o chapéu e saiu para a mercearia que ficava a duas portas da sua casa, naquela rua esconsa de bairro social pacato. Comprou conservas e outros géneros que lhes durariam até ao Natal daquele ano da Graça do Senhor, simultaneamente ano I da revolução que não chegaria a consumar-se, segredo que não seria estranho, naquela hora, à Senhora de Fátima mas que ele, Justino Telles, não podia na altura adivinhar.
No dia 11 de Março de 1975, quase um ano depois da data dramática vivida junto ao aparelho de rádio, com as persianas corridas, Justino Telles, sessenta e três anos, funcionário superior de um respeitável banco que acabava de ser nacionalizado, tomava uma decisão que comunicaria à mulher no momento em que ambos puxavam até aos ombros as cobertas da cama D. João VI, com rosários de madre-pérola e crucifixos de prata a protegerem o alçado da cabeceira. Com a voz dramática das resoluções irreversíveis, Justino anunciaria, inabalável:
- Cristina, vou reformar-me.
Um suspiro cansado, mas de alívio, antecedeu a resposta da senhora de Telles, que, com os olhos a brincarem nas sombras projectadas no tecto pelas franjinhas do abat-jour, concordaria:
- Ó filho, ainda bem que o queres. É o melhor que fazes.
No dia seguinte, pela manhã, silencioso e discreto, reverente e obrigado, Justino Telles, alegando um coração fraco e uma vida de dedicação, saía as portas de bronze pesado que atravessara durante trinta e cinco anos, estugando o passo miudinho até à esquina da Rua do Comércio, onde, finalmente liberto dos pesadelos dos plenários e do sobressalto das reuniões, não resistiu a enfiar melhor o chapéu na cabeça, afirmativamente, ao mesmo tempo que por entre dentes e em surdina gritava:
- Bolchevistas!
A 25 de Abril de 1975, Justino Telles, apesar de instado por alguns amigos e até pressionado por um telefonema de seu filho, que lhe ligara do Brasil, recusou-se a votar. Não entendia nada disso dos votos úteis, não percebia como velhos companheiros de ideais queriam agora que ele votasse nos socialistas. Por isso, naquele dia em que todos gritavam ser o dia das primeiras eleições livres no último meio século da história portuguesa, em colete, de corrente de ouro atravessada sobre o ventre chato e pérola no negro da gravata de seda, Justino Telles decretou:
- Hoje não saímos. Com esta cambada à solta pode acontecer alguma bernarda.
Era o dia 25 do sombrio Novembro de 1975 quando, na salinha de naperões, xailes e Última Ceia de casquinha, Danny Kaye sorriu a Cristina e Justino Telles. Ambos ganharam alma nova. Seria aquele o Dia do Juízo, finalmente se ajustariam as contas em atraso por todos os desmandos, confusões, desacatos que haviam sido cometidos até àquele santo dia no País, por indivíduos que não mereciam ser portugueses, a soldo de inconfessáveis desígnios do estrangeiro.
Foi de mãos dadas e com um sorriso de paz nos rostos que Cristina e Justino, os Telles, se beijaram-até-amanhã e apagaram a luz, protegidos por um recolher obrigatório que impedia os lobos de andarem à solta.
No dia seguinte, no entanto, Justino apagaria o televisor num rompante, proclamando alto e bom som a conclusão filosófica que ainda hoje o norteia e a que chegara naquela data:
- Malandros! Estão todos feitos uns com os outros. Isto foi apenas uma dissidência, não é mais do que uma luta entre bandos rivais. Mas estão todos feitos uns com os outros, ai isso é que estão. Não há dúvida que estão feitos uns com os outros, não senhor! São todos uns bolchevistas!
E até hoje, leitor fiel de um único matutino e atento perscrutador de perspicaz semanário que Justino Telles considera, acertadamente, ambos nascidos na resistência à fúria que o comunismo internacional fizera desabar sobre a sua tranquila existência, aquele pacífico, impoluto e respeitável cidadão se recusou a participar em qualquer acto que tenha que ver com o que uns chamam democracia mas que ele se recusa a classificar de outra forma que não seja «esta grande palhaçada», segundo suas próprias palavras. Palavras suas, mas prudentes, que apenas se arrisca a proferir, bem sonantes, entre as quatro paredes de sua casa, ou a trocar com o barbeiro que há perto de quarenta anos, todas as semanas, lhe faz um caldinho.
Mas a sua vingança máxima é religiosamente cumprida (quando), no televisor, surge a imagem de um qualquer primeiro-ministro, dos muitos que neste país tem havido, e que sempre entendem ter algo de importante a comunicar aos Telles, daquela rua esconsa de bairro social pacato.
Felino, saltando do sofá sobre o televisor e fazendo abater o seu punho, rápido sobre o botão que desliga o aparelho, fulminante e temível, como num golpe de caraté, o velho berra:
- Vai para a Sibéria, bolchevista!
Fica, depois, tranquilo, triunfal como um toureiro à saída dum passe de peito, mas serenando à medida que encontra e decifra o sorriso suave com que sua mulher, Cristina, comemora a vitória e lhe aplaca a ira.
E assim, governo após governo, primeiro-ministro após primeiro-ministro, Justino Telles grita e actua, tonitruante, cortando-lhes, cerce, o pio.
Até hoje, inclusive, nenhum primeiro-ministro lhe escapou.